Quem disse que ciência é produzida somente dentro dos laboratórios? Quem disse que a responsabilidade de conservação da biodiversidade é apenas dos cientistas? Pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) encaram o desafio de reunir cultura tradicional e conhecimento científico no projeto Saberes da Mata Atlântica, que leva informações sobre esse bioma para a população no entorno do Parque Estadual Serra do Brigadeiro, na Zona da Mata de Minas.

A ideia do projeto, conduzido pelo grupo Bioprospecção Molecular no Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOPROS), é relembrar a comunidade sobre a importância da preservação. “Em nossas pesquisas, trabalhamos muito o campo da bioprospecção, encontrando na biodiversidade os produtos florestais que podem ser usados para a sociedade. Tudo isso com foco na conservação ambiental”, explica o professor João Paulo Viana Leite. Confira o trabalho do BIOPROS:

O vídeo mostra um pouco da rotina dos cientistas: a coleta na floresta, as plantas saindo da natureza e se transformando em insumos importantes no laboratório. Para que a população saiba desses caminhos da ciência, os pesquisadores publicam o Boletim BIOPESB, um informativo que leva ciência, meio ambiente e cidadania às mãos da comunidade.

“Percebemos o distanciamento entre população local e pesquisadores. Os cientistas faziam suas pesquisas, publicavam artigos científicos e a população não sabia o que acontecia na universidade. Com o projeto Saberes da Mata Atlântica, decidimos por fazer o boletim. Já estamos na 28ª edição. São 1000 exemplares desse jornal, a cada edição, que distribuímos em escolas, na sede do parque, e no entorno da serra”, afirma o professor.

Saberes múltiplos

De acordo com João Paulo, o trabalho no Parque Estadual Serra do Brigadeiro resgata diversos saberes. O conhecimento histórico é ressaltado quando se estuda a vida dos índios locais, os Puris, que foram gradativamente dizimados na região. O projeto resgata a cultura dos Puris, principalmente, relacionada às plantas e coloca a população em contato com esses costumes.

Há também um saber geográfico, quando a pesquisa leva a reflexões sobre povoamento, destruição da mata, ciclos econômicos – como café e mineração – que impactaram naquele ambiente. Há ainda o saber botânico, que segundo o professor, é o mais explorado pelo grupo de pesquisadores. Os cientistas conseguem mostrar a imensa diversidade biológica com a descoberta de várias plantas.

Segundo João Paulo, o saber da fauna também é realçado porque várias espécies animais também foram catalogadas no decorrer das pesquisas. Dentro do parque, foram descobertos novos anfíbios, por exemplo. Também estão registradas populações de Muriquis, animais ameaçados de extinção.

Por fim, o pesquisador destaca o saber medicinal que surge dos estudos de propriedades de plantas coletadas na mata. “A cultura local indica, há anos, o uso de chá para doenças. O conhecimento passa de geração para geração, como uma herança tradicional do uso de plantas medicinais. Os jovens, com a saída do campo para a cidade, perdem essa cultura que é muito importante quando se pensa em conservação. Na pesquisa, a gente dá visibilidade a esse conhecimento”, explica João Paulo.

Expedição em Miradouro. Foto: Guilherme Queiroz

Expedição Saberes da Mata Atlântica

Além do boletim de divulgação da ciência, os pesquisadores também fazem expedições para levar conhecimento sobre bioquímica a escolas da região. Para isso, promovem uma exposição itinerante que tem um cinema dentro do caminhão para exibição de vídeos do projeto e um pequeno laboratório montado no local do evento.  “A gente mostra para o estudante que ele, como cidadão, pode proteger a biodiversidade local”, afirma João Paulo.

A primeira expedição aconteceu na cidade de Miradouro, também na Zona da Mata. Alunos de escolas públicas do município puderam ir até a praça central para mexer em microscópios, assistir a sessão de filme sobre ciência, debater assuntos científicos, participar de oficinas e fazer até a extração do DNA de frutas . A expedição é uma parceria com o Instituto Estadual de Florestas (IEF) e Fórum Regional de Educação Ambiental (ForEA). A próxima parada será em Carangola.

“Os estudantes são convidados a debates como: são usados animais para pesquisa na universidade? É uma oportunidade de falar para eles que existe um comitê de ética para evitar maus-tratos a animais, mas que os bichos são essenciais para as pesquisas. Eles também assistem ao vídeo do projeto e reconhecem moradores locais que aparecem ensinado algo sobre o uso de plantas. Eles veem justamente a valorização do conhecimento local”, relata o professor.

Estudantes aproveitando as oportunidade na expdição. Foto: Guilherme Queiroz

João Paulo relata o encantamento dos estudantes com tudo que aprendem. Os jovens ficam motivados a estudar ciência e os pesquisadores alcançam o objetivo de popularização do trabalho feito nos laboratórios. “Eles ficam motivados porque vislumbram que podem entrar na universidade. Podem continuar os estudos porque esse lance de ser cientista é legal”.

O atendimento aos alunos é feito por orientandos de mestrado e doutorado do BIOPROS. Eles têm a oportunidade de ultrapassar as barreiras da academia e fazer contato com os estudantes. “Traz boas experiências para os pesquisadores porque descobrem os desafios do contexto que existe fora da universidade”, conclui o professor.