Professor propõe nova forma de mimetismo

Conhecida como a arte animal de imitar, o mimetismo está associado ao medo. Ou será que não?
Mariposa imita beija-flor. Foto: Acervo do pesquisador

Já falamos aqui sobre cobras corais falsas que imitam as verdadeiras para se salvarem. Já explicamos também que essa é uma técnica chamada mimetismo, estratégia usada por vários tipos de animais, como serpenteS, anfíbios, mamíferos e, principalmente, insetos, para escapar de animais perigosos.

Então, qual é a novidade? É que o biólogo e professor de ecologia na Universidade Estadual Paulista (Unesp), no Instituto de Biociências do campus de Botucatu, Felipe Amorim, observou que, apesar do que acreditamos, essa técnica pode nem sempre estar relacionada ao medo.

O professor, que se formou na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), explica que, hoje em dia, conhecemos duas formas de mimetismo.

A primeira, chama-se Batesiano e acontece quando um animal indefeso imita um animal perigoso. Por exemplo, a coral falsa, que muitas vezes não tem veneno, imita a verdadeira, que tem um veneno poderoso.

A segunda forma de mimetismo se chama Mülleriano. Esse nome estranho explica os casos nos quais animais se juntam para imitar uma característica (cor, comportamento, formato) para dar força a ideia de que todos que têm essa marca são perigosos e que vai ser ruim mexer com eles.  

Amorim explica que nos dois casos o sinal que os imitadores passam é negativo. Mas será sempre assim?

Esta foi a pergunta do biólogo, ao observar casos em que a imitação visa apenas esconder de predadores, de maneiras a não ser considerado um candidato ao lanchinho da tarde de outras espécies..

INSETO OU AVE?

Como ele chegou a essa ideia? Acontece que Amorim estuda os insetos polinizadores (já explicamos a importância deles aqui), principalmente, uma espécie de mariposa chamada esfingídeos. Dentro dessa família tem uma subespécie, o Aellopos, que se parece muito com um pequeno beija-flor.

Ao observar essa mariposa, Amorim percebeu que os predadores podem muitas vezes nem considerar comê-la, já que, para eles, ela não se parece com um inseto, mas sim um pássaro.

Não entendeu? Imagine que está procurando algo para comer e vê uma roupa, você a comeria? Não, né? Porque não consideramos roupas comida.

“Ou seja, o animal deixa de caçá-la não porque vai fazer mal a ele, mas porque ele é indiferente a ele”, conta o professor.

COLOCANDO O MIMETISMO À PROVA

Porém, a proposta do biólogo ainda é uma hipótese. “Uma explicação em potencial para algo que observamos, que pode estar certa ou não”, informa Amorim.

Para que essa hipótese seja científica, o biólogo explica que ela precisa ser testada. Então, o próximo passo do estudo é fazer vários testes para que essa ideia seja aceita ou rejeitada.

“Podemos colocar a mariposa junto com um predador visualmente orientado, para ver se ele irá comê-las ou não”, conta.

Outra forma, seria reconstruir a história evolutiva da mariposa. “Nesse caso, veríamos como e quando essas características apareceram”.

IDEAIS QUE REVOLUCIONAM

Você pode se perguntar: mas qual a importância de sabermos isso?

Acontece que o mimetismo tem ligação como o comportamento animal. Segundo Felipe Amorim, isso se chama ciência básica, pesquisa que não tem aplicação imediata, mas que ajuda a desenvolver novos conhecimentos e tecnologias, que podem mudar o mundo.

Dúvida? Imagine um frei em um mosteiro que um dia, por curiosidade, resolveu estudar suas ervilhas. Ele começou a cruzar suas cores para entender como elas aparecem. Amorim conta que esse frei realmente existiu e se chamava Mendel. “Sua curiosidade nos deu base para entendermos a genética e, assim, fazer uma vacina em menos de um ano”, destaca.

Sobre o(a) autor(a)

Tuany Alves

Tuany Alves

Jornalista, com pós-graduação em Jornalismo em Ambientes Digitais, apaixonada por descobrir coisas novas. Entre seus campos de pesquisa estão gênero e ciência.
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