As aventuras de Hipátia

Conheça a história de uma mulher muito sábia, que dedicou sua vida à busca pelo conhecimento: Hipátia de Alexandria, a primeira matemática!

Vamos contar a história de uma mulher muito sábia, que dedicou sua vida à busca pelo conhecimento: Hipátia de Alexandria, a primeira matemática!

Escute o episódio aqui!

Hipátia nasceu em uma cidade muito movimentada: era Alexandria, no Egito, há uns 1800 anos atrás! Naquela época, havia várias cidades com o nome de Alexandria, todas fundadas por Alexandre, o Grande. Mas essa em que Hipátia vivia era a Alexandria mais famosa!

Afresco de Alexandria, centro de conhecimentos
Afresco mostrando a Alexandria antiga como centro de sabedoria / Obra de Wolfgang Sauber via Wikimedia Commons

Hipátia era filha de Teon, um matemático, filósofo e astrônomo bastante conhecido no seu tempo, e que foi o último diretor do Museu de Alexandria – já já vamos falar mais sobre esse lugar mágico! O pai de Hipátia foi uma inspiração para a nossa protagonista. Foi ele quem despertou nela, quando ainda era pequena, o desejo pelo saber.

Foi assim que Hipátia se tornou uma das maiores filósofas e a primeira matemática de que se tem notícia na História!

O que significa ser filósofa?

Retrato de Hipátia de Alexandria em desenho de Jules Maurice Gaspard (1862–1919). Reprodução Wikimedia Commons.

Uma filósofa é uma pessoa apaixonada pelo saber.

A palavra “Filosofia” vem do grego e significa “amor ao conhecimento ou amor à sabedoria“.

Na época de Hipátia, as pessoas que estudavam as ciências eram chamadas de filósofos ou sábios. Mas, hoje, podemos chamar Hipátia de cientista, porque o que ela fazia é o que chamamos de ciência: o estudo da astronomia, da geografia, da física e da matemática, por exemplo.

Naquela época, a matemática unia diversas áreas de conhecimento em um único nome. Além da aritmética e das geometrias plana e tridimensional, matemática era também o estudo da música e da astronomia. Hipátia estudava também Medicina e tinha habilidade com questões políticas.

Mas para entender as contribuições de Hipátia para o conhecimento de hoje, é importante lembrar que as palavras e as ciências mudaram ao longo do tempo – e o mesmo acontece com as teorias que os filósofos desenvolviam sobre o mundo.

O Museu era o Google da Antiguidade

A Musa Clio lendo um rolo de papiro, semelhante aos que inicialmente eram colecionados pela Biblioteca. Créditos: Klügmann Painter / via Wikimedia Commons

Se hoje a gente fala que “vai dar um Google” para buscar a resposta para uma dúvida na internet, na época de Hipátia, para fazer uma pesquisa, as pessoas podiam usar os acervos das bibliotecas e dos museus.

O Museu era o Templo das Musas, que eram deusas que protegiam todas as artes e as ciências. Todo o conhecimento que existia no mundo era reunido no espaço dos museus.

O pai de Hipátia, Teon, trabalhava no museu de Alexandria, e esse foi um fator determinante para que ela, como toda criança que é incentivada e estimulada a estudar, se tornasse uma mulher de grande sabedoria!

Uma mulher sábia em meio aos homens

Hipátia aprendeu muitas coisas que, naquela época, só eram ensinadas aos homens.

Infelizmente, até pouco tempo atrás, as meninas e mulheres ainda não eram bem recebidas nos espaços do conhecimento! Na Antiguidade, era ainda mais raro ver mulheres filósofas, porque só os homens tinham direito a estudar.

Mas Hipátia era uma garota muito habilidosa, inteligente e estudiosa! Aproveitou todo aquele conhecimento reunido nos lugares em que seu pai trabalhava para investigar e desvendar os segredos do Universo. Em espaços que, geralmente, só homens estudavam e trabalhavam, ela se destacou por estudar diferentes áreas das ciências.

Professora Hipátia


Criação artística da Biblioteca de Alexandria, com base em evidências arqueológicas. Reprodução da obra “The Memory of Mankind“, via Wikimedia

Quando cresceu, Hipátia se tornou professora e trabalhava na Biblioteca de Alexandria.

Ela teve muitos alunos ilustres, gente importante que vinha de toda parte e de diferentes regiões para aprender com ela. Era uma mulher tão sábia que, hoje, se estivesse viva, estaria dando aulas e fazendo muitas pesquisas dentro de uma Universidade.

O lugar onde ela trabalhava, a biblioteca, era até parecido com o que temos hoje: tinha mesas, cadeiras e livros. Mas os livros eram escritos à mão, eram cópias de outros livros, porque ainda não existiam máquinas impressoras.

O formato desses livros era diferente também: eram rolos, arquivados junto com mapas e outros documentos importantes. Repare na ilustração ao lado!

Esse espaço da biblioteca era uma parte de uma área maior, que era o Museu de Alexandria, que tinha salas de aula, salas para debate e até alojamentos para estudantes.

Nas estantes da Biblioteca de Alexandria

Os rolos daquela época eram separados e organizados por assunto. No período em que Hipátia viveu, aproximadamente 400 anos depois do nascimento de Cristo, muitos materiais já haviam sido organizados e catalogados pelos bibliotecários. Um deles, chamado Andrônico de Rodes, trabalhou na escola que Aristóteles havia fundado em Atenas, e deu títulos a muitas obras clássicas da filosofia.

Um desses livros, a “Metafísica”, obra do próprio Aristóteles, ganhou esse nome porque eram aqueles rolos que vinham na estante depois dos rolos da Física! Isso mesmo! Metafísica significa justamente “o que vem depois da Física”. Esse nome também significa “o que está além dos fenômenos da natureza”: a queda de uma pedra, por exemplo. Por que a pedra cai? Todos os corpos caem?  Por quê? São perguntas de filósofos e cientistas.

As contribuições de Hipátia

Réplica de um astrolábio. Foto de Masoud Safarniya via Wikimedia Commons.

Poucos registros originais das obras de Hipátia sobreviveram até os dias de hoje. O que sobrou são pedaços, que foram citados por outros filósofos, que acabaram ficando famosos. Nos livros e cartas que esses filósofos famosos escreveram, eles também falavam do que a Hipátia fez.

Embora não existam livros ou obras originais que ela mesma tenha escrito, sabemos que um ex-aluno de Hipátia, Sinésio de Cirene, com quem ela se correspondia, deixou registros de que ela teria construído um astrolábio – instrumento que ajudava a estudar os astros, como na foto ao lado –, um hidrômetro e um higroscópico, para absorver a umidade.

Além disso, ela tratou de problemas que filósofos famosos, como Platão e Aristóteles, também haviam discutido 700 anos antes.

Mas há episódios de sua vida que são considerados “lendários” porque não temos como ter certeza de que aconteceram. Existem pistas de que ela descobriu como os planetas se movem, por exemplo.

A elipse e os movimentos dos Planetas

Por muito tempo, os sábios achavam que os planetas giravam em círculos perfeitos. Hoje, a gente sabe que não é bem assim.

Mas Hipátia, que gostava muito de olhar e estudar o céu, parece ter descoberto que os planetas se moviam em elipse. Isso era muito revolucionário para a época porque, na Antiguidade, os sábios acreditavam que a Terra era o centro do Universo e que tudo girava em torno dela em círculos, que eram o símbolo da perfeição. Então, a Hipátia teria proposto uma coisa que ninguém nem pensava, o movimento elíptico.

Foi apenas na era moderna que essa visão do movimento dos planetas no universo foi aceita. Não há como provar que Hipátia realmente tenha antecipado esse entendimento sobre o movimento dos Planetas, mas as lendas ajudam a mostrar o impacto das contribuições que, pouco a pouco, fizeram o conhecimento avançar.

Ah, pelo que sabemos, também não existe nenhum registro de que Hipátia tenha se casado, nem mesmo tido filhos. Foi uma mulher que se dedicou inteiramente à ciência. Ela viveu por toda a vida na mesma cidade e morreu com mais de 60 anos, uma idade avançada para a época. Infelizmente, teve uma morte trágica, depois de ser perseguida na rua por pessoas que não concordavam com os conhecimentos que ela tanto amava e ensinava…

Hipátia foi uma figura histórica importantíssima, e se os registros lendários se misturam com os históricos, isso não impede de saber quem ela era, nem de compreender como ela era vista pelos outros, tanto os de sua época, quanto os que vieram depois, como nós. Ela foi uma pioneira apaixonada pelo conhecimento, que serve de exemplo para meninas e mulheres que também querem se dedicar à busca pelo saber!

Professora Maria Cecília, admiradora da matemática, da filosofia e de mulheres como Hipátia! Foto: Acervo pessoal.

Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas é um podcast do projeto Minas Faz Ciência, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Roteiro de Verônica Soares, com apoio de Luiza Lages e consultoria científica da professora Maria Cecília de Miranda Nogueira Coelho, que é formada em Matemática e Filosofia, e também professora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, onde estuda e ensina coisas incríveis sobre a Antiguidade!

Para saber mais sobre a vida e o trabalho de Hipátia de Alexandria, acesse nosso conteúdo de apoio a pais e professores.

Sobre o(a) autor(a)

Verônica Soares

Verônica Soares

Jornalista e curiosa! Gosto de ler e estudar sobre comunicação, história e ciências.
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