Indícios de vida em Vênus?

Cientistas descobrem substância na atmosfera de Vênus que pode comprovar existência de vida no segundo Planeta do Sistema Solar
Comparação de tamanho entre os planetas terrestres: Mercúrio, Vénus, Terra e Marte. Créditos: NASA (via Wikimedia Commons)

“É como um pum de um bicho, a gente só tem que descobrir se tem um bicho lá mesmo”, explicou o professor Wagner Corradi, do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atual diretor do Laboratório Nacional de Astrofísica LNA-MCTI, quando perguntei sobre o que era, afinal, a fosfina (PH3) identificada no planeta Vênus.

O burburinho sobre a notícia foi grande na segunda, 14 de setembro: um estudo de cientistas dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Japão identificou uma substância na atmosfera de Vênus (a fosfina) que é produzida por seres vivos na Terra, mas também aparece na poluição, nas fumaças de chaminés. Fedida e tóxica, a fosfina encontrada no planeta vizinho chamou a atenção de todo o mundo.

Cientistas sabem que toda molécula vibra e libera energia. Tiveram a ideia de olhar para Vênus e observar, daqui da Terra, se tinha fosfina vibrando por lá. Para isso, usaram telescópios muito especiais e precisos: um no Havaí (dos Estados Unidos) e outro no deserto do Atacama, no Chile (dos europeus). Então, acharam essa radiação, ou seja, essa dança vibrante da fosfina na atmosfera de Vênus. Se tem fosfina lá, se ela não estiver sendo produzida por seres vivos, quem é que está produzindo? Bingo! Talvez eles tenham encontrado indícios de vida extraterrestre!

Mas que vida é esta?

Se você está pensando em ETs verdes soltando flatulências, calma lá. A ideia não é bem essa. Para entender melhor sobre essa vida que pode ter sido identificada, a gente foi conversar com o professor Eduardo Janot Pacheco, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP). Ele explicou que, primeiro, é preciso entender o que é a vida: “Sabemos que uma pedra não é viva. Rato, aranha, formiga, são coisas vivas. Vida não precisa ter movimentos. As plantas, por exemplo, são vivas, mas não se movem”, exemplificou. No entanto, tudo que é vivo no Planeta Terra tem uma coisa em comum: vida é algo que se reproduz!

“Já entendemos como funcionam os seres vivos na Terra: todos são baseados em uma única molécula, ADN, a espiral da vida. Essa molécula química é responsável por transmitir informação de uma vida a outra”. A ADN garante que dentro de um ovo de um sabiá vai ter outro sabiá, e não um tucano, por exemplo. É o que transmite a informação de quem somos para nossos descendentes. Por isso você é tão parecido com seu pai e sua mãe.

Ok, é assim que funciona na Terra. Mas e nos outros planetas? “Ainda não descobrimos vida comprovada. Mas bactérias e micróbios são formas de vida que a gente não vê, e que existem por aqui e podem existir por lá. Será que em Marte ou Vênus a vida é parecida com micróbios e bactérias? Pode ser que sim, e essa descoberta da fosfina é uma pista”.

Não sabe que Planeta é Vênus? Nesta foto, está refletido no Oceano Pacífico, à noite. É o planeta mais brilhante que qualquer estrela, descontando o Sol. Créditos: Brocken Inaglory / Wikimedia Commons

Problemas para a vida em Vênus

O chão é lava! Superfície de Vênus é puro fogo e calor! Créditos: NASA / Imagem reconstruída a partir de dados de radar (via Wikimedia Commons))

As chances de encontrar vida em Vênus eram consideradas baixas porque lá chove ácido sulfúrico o tempo todo. “Há 2 bilhões de anos, pode até ser que tenha tido condições apropriadas para vida parecida com a nossa em Vênus, mas, hoje, seria muito complicado”, conta o professor Wagner Corradi, da UFMG e LNA. Isso porque, conforme explica o professor Janot, a superfície de Vênus é pura lava, com temperaturas altíssimas que variam de 400 a 500 graus Celsius.

Com solo muito quente e atmosfera muito espessa, é como se Vênus estivesse coberto por um grosso edredom, que segura esse calor no planeta. “Já mandamos sondas para lá, mas elas logo derretem e se desintegram”, conta o professor Janot. Não seria possível ter vida na superfície de Vênus porque a partir dos 120° as moléculas de ADN, que são a base da vida na Terra, arrebentam. Vênus é quente mesmo!

Mas, diante da descoberta da fosfina na atmosfera, o que se imagina é que essa substância esteja sendo produzida por bactérias que vivem em uma determinada altura, onde estariam “protegidas” do ácido sulfúrico e da radiação ultravioleta do Sol, em uma temperatura mais “amena”, que pode variar de 0 a 40 graus Celsius. “O que foi encontrado é uma indicação: Opa! Deve ter algum bicho, um micróbio, uma bactéria, muito leve e pequeniníssimo, sobrevivendo nessa camada muito alta da atmosfera, produzindo essa fosfina”, conta Wagner Corradi.

A gente sabe que, na Terra, a molécula PH3 pode ser produzida sem a ajuda de seres vivos, e ela está presente na poluição. Os cientistas vão pesquisar agora se existe algum processo químico (sem ajuda de um ser vivo) que possa produzir a fosfina descoberta na atmosfera de Vênus, onde não existem fábricas para poluir…. A pergunta que fica é: como é que ela surgiu por lá? Enfim, será que tem vida em Vênus?”.

Mas tem ET lá mesmo?

A sonda Pioneer Venus 1 em órbita.
Créditos: NASA (via Wikimedia Commons)

Hum, não… Ainda não podemos afirmar isso. O que podemos dizer é: foi identificada uma substância na atmosfera de Vênus que, até onde sabemos, é produzida com a participação de seres vivos ou em ambientes poluídos. Daí, dizer que há vida, e que é vida inteligente, bem, seria exagerado e errado. O que temos agora são mais dúvidas:

“Um monte de dúvidas que gera um monte de perguntas e precisa de muito estudo. Agora é ainda mais importante buscar respostas para tentar entender como essa fosfina está sendo produzida em Vênus”, reforça o professor Wagner.

Uma das respostas que têm que ser buscadas é: “Esse gás, então, é o pum de um micróbio ou o pum foi produzido de outra maneira?”, brinca o professor Janot. Aqui na Terra, como já dissemos, a fosfina pode ser produzida em processos industriais. “Todos os estudos científicos seguem um método para provar como as coisas funcionam. Se chegarmos à conclusão que não dá para fazer fosfina sem um ser vivo em Vênus, então, a chance de que seja vida produzindo isso por lá é quase certa”. De acordo com o professor Janot, é bastante provável que haja vida em outros Planetas mesmo – a gente só não comprovou ainda!

“Já descobrimos que há milhões e milhões de planetas girando em torno de bilhões de estrelas na nossa galáxia. A Via Láctea tem 300 bilhões de estrelas parecidas com o Sol. A gente só conhece um pedacinho. É praticamente provado que existam mais de 15 bilhões de planetas na Via Láctea parecidos com a Terra e não há razão para não existir vida lá também”, conta o professor, e conclui: “Temos que ter o espírito aberto para entender que há outras formas de vida também, diferentes das que conhecemos. Suspeitamos que exista vida no subsolo de Marte, porque tem muita água, que tem relação com a vida. Daqui a dois anos, vamos mandar um robozinho lá para ver se tem micróbios no subsolo”.

Sobre o(a) autor(a)

Verônica Soares

Verônica Soares

Jornalista e curiosa! Gosto de ler e estudar sobre comunicação, história e ciências.
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