[Palavra de Cientista] O que significa ser um Ser Humano?

Henrique Paprocki fala sobre o que nos diferencia de outras espécies parecidas conosco.

Você sabia que existiram vários  primatas bípedes (caminhante em dois membros) como nós? A África foi o principal palco da diversificação e extinção dos  grandes macacos bípedes dos quais estamos falando.

Entre eles temos a famosa Lucy, uma fêmea de Australopithecus afarensis. Depois da descoberta de Lucy, mais de 300 organismos desta espécie foram escavados ou identificados nas coleções paleontológicas (coleções científicas de fósseis).

Lucy, uma fêmea de Australopithecus afarensis. Fonte: humanorigins.si.edu

Os machos desta espécie alcançavam 1,50 m de altura e 40 quilos, sendo as fêmeas um pouco menores, com 1 m de altura e 30 quilos . A Lucy provavelmente se parecia com um chimpanzé que resolveu ficar de pé e não retornou mais a quadrúpede (que se apoia ou desloca sobre quatro pés). Encontrar os fósseis de Australopithecus afarensis foi muito importante para entendermos a evolução humana .

Exames detalhados nos fósseis de Lucy e de outros da sua espécie mostram que tinham pernas e quadris como os nossos (somos da espécie Homo sapiens), e não pernas arqueadas e quadris largos como um chimpanzé.

Não me entenda mal, chimpanzés são ótimos no que fazem ao correr em quatro apoios ou subir em árvores.

A Lucy,  andava completamente ereta, há três milhões de anos. Apesar de ter pernas e quadris como os nossos, Lucy tinha braços e mãos fortes como de um chimpanzé, indicando que passava muito tempo em cima das árvores, provavelmente um bom lugar para fugir de leões ou mesmo encontrar uma fruta para o lanche.

Os filhos de Lucy cresciam e adquiriam independência dos pais mais cedo, assim como os chimpanzés. Esta infância prolongada de Homo sapiens serve para todo o aprendizado que precisamos. Lucy é tão importante que ganhou de aniversário um Google Doodle em 2015! 

Muito parecida conosco, habitou a Terra por aproximadamente 1,5 milhões de anos!

Homo erectus ocupou uma grande porção da África tendo caminhado até a Ásia. Homo erectus foi uma espécie de maratonistas. Eles percorriam grandes distâncias em grupos, caçando sob o sol quente e levando suas presas à exaustão térmica. Homo erectus provavelmente também não tinha pelos cobrindo o corpo como nós e certamente foi uma hábil construtora de ferramentas de pedra.

Além de Australopithecus afarensis e Homo erectus , há muitas outras espécies bípedes no nosso galho da árvore evolutiva.

Veja algumas delas nessa linha interativa do tempo, preparada pelo Instituto Smithsonian.

Afinal, o que significa ser HUMANO?

Mas ao começar o papo de hoje, eu queria falar mesmo é sobre o significado de ser HUMANO. O que nos diferencia tanto destas outras espécies de grandes primatas bípedes? Onde começa a humanidade? 

Vamos iniciar pensando em alguns animais que vivem socialmente. As abelhas, os cupins, as vespas e as formigas são alguns dos exemplos de animais sociais. Existem também animais como os lobos e as orcas que vivem de forma social. Mas qual é a diferença entre viver juntos em um mesmo ambiente e ser social? A principal parte da resposta é a cooperação.

Animais sociais obedecem a uma regra básica, onde 1+1 é mais que 2, ou seja, quando dois cooperam, os dois ganham, se os dois competem, os dois perdem, ou no mínimo um perde. Sociedades fazem os animais mais fortes, mais protegidos. Sociedade diminui o número de predados e aumenta o número de presas de uma espécie.

Pense bem como uma alcateia é capaz de matar presas muito maiores que um lobo conseguiria sozinho. Ou como um enxame de abelhas consegue manter a colmeia aquecida durante o inverno enquanto qualquer abelha sozinha morreria congelada.

Muitos primatas são sociais. Sociedades desenvolvem castas reprodutivas, dividem o trabalho de conseguir comida e o cuidado com os filhotes. Nossa espécie, Homo sapiens é a mais social delas. Dividimos o trabalho e garantimos a nossa sobrevivência construindo uma teia de relações redundantes que nos provem de tudo, comida, casa, e todos os confortos da vida moderna.

O homem que trabalha na mineração de ferro não pode imaginar a infinidade de produtos criados com a matéria prima que ele tira da terra. Ele come o alimento cultivado por várias outras pessoas, que também usaram uma infinidade de ferramentas mineradas, fundidas e projetadas por outros humanos. A rede de interações na nossa espécie cresceu desde a troca dos conhecimentos ainda rudimentares, até a admirável quantidade de informações e tecnologia compartilhadas pela humanidade através da Internet.

Nós também temos um ninho, para onde trazemos o alimento, os recursos e a energia. O ninho onde passamos a maior parte de nossas vidas e criamos nossos filhotes. Nosso vespeiro, nosso formigueiro, nosso cupinzeiro é a cidade. Biologicamente, somos próximos aos chimpanzés.

Sete milhões de anos de evolução humana.

Estes parentes próximos são sociais, mas a sociedade deles nunca construiu cidades. Nós temos o ninho, construído, transformado, protegido do calor e do frio, onde predador nenhum entra e é mais fácil morrer atropelado do que comido por um leão (certamente um dos maiores riscos de quando vivíamos móveis, sem cidades).

Ser humano significa ser social, ter empatia por outros de nossa espécie ou até mesmo de outras espécies. Significa dedicar o seu tempo à sobrevivência de outras pessoas. Mas vejam bem, o sistema só funciona se todo mundo coopera. Um trapaceiro, que vive do trabalho dos outros coloca os benefícios da sociedade em jogo.

Vamos usar o trânsito como exemplo. Quando todos os pais querem ganhar tempo e deixar o filho na porta da escola de carro, o trânsito engarrafa e todos perdem tempo. Caso houvesse a cooperação de estacionar e caminhar alguns quarteirões, o trânsito ao redor da escola estaria liberado para aqueles com problemas de mobilidade. Parece sonho? Mas acontece em alguns países, onde as vagas de estacionamento mais longe da porta são ocupadas antes, para deixar lugares vagos para quem chegar mais tarde.

A socialidade, a cooperação e a empatia podem e devem ser aplicadas aos dias de hoje. Durante a pandemia de 2020 aprendemos que temos de nos proteger e ao mesmo tempo proteger os outros. Andar de máscara, ficar em isolamento social, lavar as mãos e proteger as pessoas em grupos de risco como seus avós é SER HUMANO.

Infelizmente alguns líderes mundiais não percebem , que essa cooperação que eles não promovem foi a mesma que possibilitou que estivessem vivos, com os cuidados médicos, vacinas e alimentos que nos são trazidos todos dias por esta maravilhosa teia social de cooperação.

Então, vamos cooperar e seguir em direção a uma humanidade mais justa, mais segura e com mais colaboração!

Sobre o(a) autor(a)

Henrique Paprocki

Henrique Paprocki

Biólogo e professor
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