Conheça uma história que, vendo de fora, pode nem parecer uma história… Mas quando a gente olha mais de perto, para dentro da gente, está repleta de aventuras. E, cá entre nós, que trabalhão damos para os nossos neurônios!

Escute, no Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas:

Era uma vez…

… Uma vez uma criança que, sentada na cadeira, em sua sala de aula, mal podia esperar pelo recreio! Estava distraída com alguns exercícios de matemática. A professora havia passado uma lista enorme. Tão grande que…

Tocou o sinal do recreio! Finalmente! Rafa se levantou com um pulo e correu para a merendeira. Hoje era quarta, dia que sua mãe sempre preparava o melhor sanduíche do mundo. Já começou a salivar.

Mas se deparou com torradas, geleia, iogurte e uma banana. Ah não! Nada pior do que geleia de damasco. Rafa já havia provado uma vez, na casa da tia, e achou o pior sabor de todo o universo. Mas lembrou do acordo que fez com a mãe: tinha que voltar com a lancheira vazia! Comer tudinho. E aí elas iriam para o clube no fim de semana.

Deu-se por vencida. Ainda relutante e com uma expressão de nojo, colocou a primeira torrada na boca. Hm… Interessante. E não é que não era tão ruim… Colocou a segunda. Olha! Era até bem gostoso. Assim que acabou de comer, guardou sua lancheira, satisfeita.

“Rafa!”, alguém gritou! A menina se virou de uma vez. Era a amiga chamando para brincar!

Fim!

Vamos começar de novo

Eu avisei que essa parte da história nem parece bem uma história. Mas depende de onde você está contando! Porque agora, vamos viajar pelo maravilhoso mundo de Rafa! Aquele, habitado por células, moléculas, tecidos e tantas outras coisas. Vamos começar de novo? Pelo sinal do recreio!

Era uma vez o estridente som do sinal da escola. E o som é uma onda, que viaja no ar. Aquelas ondas, em particular, chegaram aos ouvidos de Rafa! E ali entraram.

Percorreram o canal auditivo, quase um túnel, que vai afinando, afinando… Até chegarem ao tímpano! Uma membrana muito musical! Parece um tambor. E toca o tempo todo, com qualquer som que consegue chegar ali. Pelo batuque do seu tambor, aquelas ondas continuaram. Passaram por mais três ossinhos: o martelo, a bigorna e o estribo. Todos vibrando, um de cada vez!

As estridentes vibrações do som do sinal da escola entraram por ali, no ouvido, para dentro do mundo de Rafa.

A Divisão de Sensações

_ Vocês estão captando isso? – perguntou C.

C é uma célula ciliada. Quando o som chega no mundo de Rafa, é ela que passa para frente a mensagem. Sem C, Rafa não ia saber que sinal nenhum tocava… Mas ela nunca falhava! Noite e dia! Sempre atenta. Ela é uma das dedicadas funcionárias da Divisão de Sensações, uma parte bem importante do Departamento Nervoso.

É um departamento enorme e cheio de divisões, grupos e funcionários. Mas não é um lugar ruim de trabalhar… Parece, né? Com um nome desses. Mas nervoso vem de nervos, que são estruturas que existem aos montes nesse maravilhoso mundo. Eles tem diferentes funções, mas todos transmitem informações. E como conversam esses nervos!

Voltando à nossa história. C tinha um treinamento muito diferente das suas colegas que trabalhavam com a visão, o olfato, o paladar ou o tato. C não saberia identificar um cheiro, uma imagem ou a temperatura. Mas um som… Era especialista! E tinha muito orgulho disso. De ser uma tradutora.

É que tirando ela, as outras células do departamento não entendiam sons. Elas se comunicavam, como já contei. Mas a linguagem delas é de sinais elétricos!

E lá foi C mais uma vez! Traduziu aquelas vibrações em um sinal elétrico.

Deu o recado para o primeiro neurônio, ao seu lado. E esse passou para o próximo. Uma a uma, as células nervosas foram transmitindo o sinal de C. Que nem naquela brincadeira de telefone sem fio. Mas no mundo de Rafa, esse trabalho tem outro nome: sinapse!

A mensagem chegou à central de comando

Por fim, os neurônios lá na frente entregaram a mensagem de C à Diretoria de Som, em uma sala chamada córtex auditivo, na central de comando, também conhecida como Cérebro. Lá, outro grupo de neurônios vasculhava incessantemente os arquivos de memória do mundo de Rafa.

_ É o sinal do recreio! Hora do lanche! – gritaram.

Rapidamente, transmitiram a descoberta. A nova mensagem passou de célula em célula, até chegar a outra porção do Departamento Nervoso: a Divisão Motora.

Os neurônios ali comandavam os movimentos dos músculos no mundo de Rafa. Em pé! Sentados! Pulando! Uma mão pra cima! A outra! Naquele momento, comandaram:

_ Vamos levantar e correr até a lancheira! É hora de comer.

E assim os músculos fizeram.

Uma nova informação

Agora, chegamos na parte da história em que Rafa descobriu a geleia no meio da merenda. Aquela informação chegou até a diretoria de imagens, no córtex visual. De lá, neurônios correram para acessar os arquivos de memória sobre geleia de damasco.

Tudo o que encontraram foi uma única lembrança… E era nada agradável. Enquanto os neurônios recebiam e transmitiam a memória encontrada, não podiam deixar de pensar que Rafa não ia ficar feliz. A mensagem chegou rapidamente ao Centro das Emoções.

Mas logo veio, pelas células sensoriais do paladar, na boca do mundo de Rafa, a notícia sobre o sabor daquele item culinário. E não é que o gosto da menina havia mudado?

Agora, além daquela lembrança ruim, surgiu um arquivo novo, de como o sabor da geleia era uma delícia. Os neurônios não cansavam de se surpreender com as mudanças no Departamento Nervoso. Estavam sempre aprendendo.

Mais trabalho para os neurônios!

Enquanto isso, mais e mais comida passava pela boca e chegava até o Senhor Estômago. Era um trabalho do Departamento de Digestão. Mas também do Departamento Nervoso, das células localizadas por essas bandas do mundo de Rafa.

Para a comida passar por todo o trajeto, neurônios não têm um segundo de descanso. Eles fazem os tecidos por ali funcionarem. Engolir parece fácil, mas dá um trabalho para essa galera!

Eles também correram para dar um toque ao Estômago de que estava na hora de trabalhar mais. Precisavam dar o alerta do suco gástrico! Quando avisado, o senhor órgão produzia esse líquido que ajuda a digerir os alimentos.

E foi o que fizeram quando aquele tanto de torradas, geleia de damasco e iogurte desceram mundo de Rafa abaixo. Precisavam ficar atentos, porque a ordem não vinha de cima, das divisões de comando do Cérebro. A Divisão Digestiva manda e desmanda naquela área.

Um novo som

Quando todo esse trabalho estava no fim, mais uma vez C, a célula do ouvido interno, captou um som que merecia atenção imediata! Rapidamente traduziu e passou a mensagem para frente.

Os neurônios checaram a sala de arquivos e sem nenhuma dúvida já sabiam que era alguém chamando Rafa. Transmitiram o comando até chegar aos músculos:

_ Vira aí! – era o grito geral.

Poucas respostas são tão rápidas quanto essa. Em seguida, o comando do córtex visual confirmou: era uma amiga de Rafa chamando seu nome.

Essa história acaba por aqui. Mas é um breve conto de uma história quase sem fim! O trabalho das células do Departamento Nervoso é suficiente para uma coleção infinita de livros. E mesmo esses dez minutos passados no mundo de Rafa escondem diversas outras tramas que eu não contei aqui.

 

O Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas é um podcast do projeto Minas Faz Ciência, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Roteiro de Luiza Lages, com assessoria científica da professora Grace Schenatto Pereira Moraes, do Núcleo de Neurociências do Departamento de Fisiologia e Biofísica da UFMG.

 

Para saber mais sobre os circuitos neurais do nosso corpo, acesse nosso conteúdo de apoio a pais e professores, no portal Minas Faz Ciência.

Sobre o(a) autor(a)

Luiza Lages

Luiza Lages

Jornalista, radialista e mestre em Comunicação Social pela UFMG. Repórter da Minas Faz Ciência e editora dos podcasts Ondas da Ciência e Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas.
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