Você sentiu que nesses dias o ar está mais puro? Que o céu está mais limpo? Pois saiba que você não está doido. Pesquisadores observam uma redução da poluição do céu no mundo todo, durante o  isolamento social.

Marshall Burke, um pesquisador da Universidade Stanford (EUA), chegou a estudar a relação entre o ar mais limpo e a redução de mortes prematuras na China durante o período mais crítico da Covid-19 no país. Burke estima que cerca de 50.000 vidas podem ter sido salvas com a parada das fábricas e a diminuição do trânsito.

No Brasil, esse efeito também já pode ser notado. Imagens do Instituto Real de Meteorologia dos Países Baixos, apontam que a poluição na Região Metropolitana de São Paulo tem diminuído durante a quarentena – principal estratégia de combate a Covid-19.

Uma pesquisa feita pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) também mostra que o ar de Belo Horizonte ficou 45% mais limpo no período de isolamento. Mas o que isso tem a ver com o céu?

Segundo o professor Leonardo Diniz, da Coordenação de Ciências e membro do Grupo de Estudo e Divulgação de Astronomia (Gedai) do CEFET-MG,  é como se o céu tivesse ficado mais transparente para a luz que vem das estrelas.

Ah, então é por isso que estou vendo melhor as estrelas? Também.

Diniz explica que não foi só a poluição do ar que diminuiu; a poluição luminosa, causada pelas luzes artificiais, também. “Apesar de iluminarem o chão, elas acabam escapando. Então, quando estamos olhamos para o céu, temos as luzes das estrelas chegando, mas também a luz da própria cidade. Ou seja, existe uma competição, que nem sempre percebemos”, conta.

CONTANDO ESTRELAS

Então quer dizer que, por causa do isolamento social, irei observar melhor os astros? Sim e não.

Segundo Leonardo, realmente existem relatos de astrofotógrafos – pessoas que olham o céu e fazem registros – de que está mais fácil observar os astros. “Se você olhar hoje o céu, que normalmente vê da sua janela ou do seu quintal, vai estar mais limpo. Provavelmente conseguirá visualizar melhor as estrelas do que antes”, diz.

Porém, o professor destaca que estamos no inverno período naturalmente bom para as observações. “Você tem um período bom, junto com a redução da poluição do ar e da luz, devido à quarentena. Tudo colaborando para um céu mais bonito”, conta.

E AS PESQUISAS? 

Imagem ilustrativa. Foto: Lucas Jampietro

Bem, se por um lado o isolamento é bom para observar o céu, por outro estudá-lo se tornou mais difícil. Por quê?

Acontece que, com a quarentena, os processos, próprios de uma pesquisa,  tornaram-se mais complicados.

Diniz explica que tudo começa com a necessidade  de um lugar aberto para observar, o que nem sempre se tem em casa. “Se você tiver equipamento também é complicado. Os astrônomos gostam de observar o céu com mais pessoas, até para ter ajuda para montar os equipamentos. Então fica mais difícil”, explica.

Outro problema é que os grandes observatórios precisam de uma equipe para funcionar. Diferente dos desenhos, em que os astrônomos fazem seus estudos sozinhos, eles, na verdade, contam com uma grande equipe que prepara os telescópios e mantém o observatório funcionando.

“Como os funcionário desses Centros estão trabalhando de casa, a maioria dos grandes observatórios estão parados. Exceto aqueles que podem ser controlados remotamente – a distância”, conta o professor.

Porém, mesmo esses, passam por apertos.

Segundo Leonardo, o astrofotógrafo Cristovão Jacques, tem um observatório na cidade de Oliveira, Minas Gerais, que funciona remotamente, o Southern Observatory for Near Earth Asteroids Research (SONEAR). Apesar de continuarem trabalhando e terem feito algumas descobertas, eles enfrentam dificuldades para registrar esses estudos.

“Acontece que quando se descobre um asteroide, um cometa, é preciso que os grandes observatórios façam a confirmação, então eles acabaram ficando no vácuo”, lamenta Diniz.

UM RECADO ESTRELAR

Seja em um quintal, ou mesmo em uma janela, aproveite este momento para observar o céu. Foto: Pexels

Confira o recado do divulgador científico, Leonardo Diniz, para as crianças que gostam muito (ou só um pouquinho) de astronomia:

Seja em um quintal, ou mesmo em uma janela, aproveite este momento para observar o céu. Observe a Lua, noite após noite no mesmo horário, e veja o que acontece.

Ela parece se deslocar em relação às estrelas, que parecem não se mover umas em relação às outras. Por que isto acontece? Será que consigo reconhecer alguma constelação? Que tal pesquisar em um aplicativo?

Para quem tem quintal, observe a sombra do Sol. Com uma vareta e uma folha de papel desenhe a evolução da sombra ao longo do dia. Ela varia de tamanho. Será que isso tem a ver com os pontos cardeais?

Aos nossos olhos, verá que o Sol parece girar em torno da Terra e não “sentimos” o movimento, mas aprendemos na escola que é a Terra que gira em torno do Sol, e não o contrário! Por que acreditamos nisso? Como os cientistas sabem disso? Deve haver evidências que sustentem esta conclusão, mas quais são?

Responder estas perguntas não é fácil, não é mesmo? Mas não desanime, pois fazer boas perguntas é o primeiro passo de um cientista!

Faça perguntas, pesquise, tente explicar algo. Sua explicação faz sentindo com as observações? Pesquise e estude mais, em vez de simplesmente acreditar.

Tente sempre saber “como” sabemos que algo é verdade, qual é a evidência. Este é o espírito da ciência!

E se você gosta de observar o céu, não perca o “Com Ciência e Lua Cheia”. A atração promovida pelo Clube de Astronomia Louis Cruls durante a Marcha Virtual pela Ciência no Brasil, nesta quinta-feira (07), convida as pessoas a tirarem fotos da Lua da varanda de suas casas. Saiba mais aqui.

Sobre o(a) autor(a)

Tuany Alves

Tuany Alves

Jornalista, com pós-graduação em Jornalismo em Ambientes Digitais, apaixonada por descobrir coisas novas. Entre seus campos de pesquisa estão gênero e ciência.
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