Conheça a história de pessoas que viveram há muito tempo, em Minas Gerais.

Escute, no Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas!

Mais exatamente, 11 mil anos atrás…

O sol estava se pondo. Ninguém estava preparado para dormir. A sinfonia dos estômagos esfomeados atravessavam o silêncio. Os alimentos estocados por aquele grupo de mais ou menos doze pessoas já estavam no fim. As temperaturas não eram tão altas. Por isso, faziam fogueiras para se aquecerem.

Dias antes, o grupo se aventurara entre as matas para tentar achar a comida que iria alimentá-los por dias. Mas os corpos já estavam cansados, e as chuvas que chegavam traziam o frio. Era preciso achar um lugar confortável, coberto e ideal para acender as tais fogueiras para aquecer aqueles que pediam arrego. Naquele tempo, o clima era diferente: fazia muito mais frio do que agora.

Após dias de caminhada, encontraram uma caverna. Não se sabe ao certo onde ela estava localizada, mas corre o boato de que era em Minas Gerais, perto de onde hoje fica a capital do Estado. Lá,  iriam ficar por dias, ou pelo menos, até que todo o alimento coletado acabasse.

Perceberam então que o único jeito de não morrerem de fome era saindo dali. O pequeno grupo precisava caminhar durante uma manhã para chegar a um rio próximo. Lá, eles conseguiriam pescar peixes frescos e catar frutas das árvores mais bonitas e saudáveis.

Grandes predadores à espreita!

Esta seria uma história simples e curta se não existissem naquela época animais gigantescos que faziam o grupo de humanos sentir muito medo. No meio do cerrado habitavam preguiças gigantes, mastodontes e tigres-de-dentes-de-sabre.

Eles pretendiam deixar a caverna, desbravar as matas, colher frutas e caçar pequenos animais que lhes serviriam de comida, como macacos e aves. Mas o medo de serem atacados por esses gigantes era quase do mesmo tamanho que da fome que estavam sentindo. Foi então que um deles sugeriu que traçassem um plano.

Não precisou de muito tempo para convencer a equipe que caso eles se organizassem, poderiam derrotar os gigantes. Então, usando pedras coloridas, desenharam um esboço de um plano de ataque.

Enquanto metade do grupo esperava na caverna, o resto deveria sair e tentar distrair os inimigos gigantescos. Com os animais concentrados em outra coisa, seria mais fácil correr pela planície até chegar ao rio.

E seguiram em frente

E assim foi feito. Contra todas as expectativas, o plano traçado por aquele povo acabou dando certo. É claro que não foi tão simples assim, pois os animais gigantes, especialmente o tigre-de-dentes-de-sabre, corriam mais rápido e  conseguiriam atacar o grupo responsável pela distração. Mas isso não vem ao caso, pois, caso contrário, esta seria uma história muito complexa e longa.

Com uma dose de sorte, eles conseguiram fugir e se juntar aos que foram diretamente para o destino combinado. Os peixes foram pescados, as frutas foram catadas e, na beira do rio, permaneceram até a próxima aventura.

A maioria das pessoa desta história não tem nome. Não que a gente saiba. O que sabemos é que eles não falavam português como nós, pois na época em que aconteceu, há 11 mil anos, o português nem sequer tinha sido inventado.

Sabemos também que aquela galera não viveria por muito anos depois daquela aventura, porque isso de viver por muitos anos não era possível naquela época. Não temos certeza se foi exatamente assim que aquele grupo conseguiu driblar os animais gigantes e chegar até o rio. Nem mesmo sabemos se eles queriam driblar os animais gigantes. Mas há quem diga que ali no meio havia uma Luzia.

Uma missão arqueológica

Vamos cortar para os anos 1970, pelo menos 11 mil anos depois? Annette, uma francesa, veio a trabalho para o Brasil. Ela fez parte de uma missão em Minas Gerais, e era a líder.

A missão dela não era secreta e nem envolvia perseguições ou fugas. Ela era uma arqueóloga. Estudava como viviam diferentes grupos de humanos, fazia escavações, procurava por objetos, fósseis e diversos materiais que a ajudassem a entender como era a vida no passado. Pois bem. Ela estava fazendo isso na cidade de Pedro Leopoldo, bem pertinho de Belo Horizonte.

Lá, existe uma gruta chamada Lapa Vermelha, que já era famosa. Outro cientista, chamado Peter Lund, descobriu milhares de fósseis de animais extintos. Bom, fósseis são restos de seres vivos ou de evidências das suas atividades, preservados em diversos materiais, como dentes e ossos.

Ele também estudou pinturas rupestres por lá. As pinturas pré-históricas que seres humanos deixaram nas cavernas. Por causa disso, conhecemos alguns dos animais que existiam nessa região. Peter Lund descreveu 22 animais extintos, isto é, que não existem mais. Inclusive, um deles foi o tigre-de-dentes-de-sabre. Ele também encontrou vestígios de homens pré-históricos, dos mais antigos na América. Ficaram conhecidos como o Homem de Lagoa Santa.

Então faz sentido que arqueólogos achem interessante explorar as cavernas de Pedro Leopoldo, de Lagoa Santa e de outras regiões do nosso Estado. São locais muito importantes para os estudos sobre nosso passado.

E então encontraram Luzia!

Annette e sua equipe de franceses e brasileiros trabalharam muito por lá. E além de fósseis animais, acharam que haviam descoberto dois esqueletos! Um estava localizado a um metro de distância do outro. Fascinante! Mas ela estava errada em uma coisa. Os fósseis eram de um mesmo esqueleto, da mesma pessoa, que havia vivido 11 mil anos atrás.

O esqueleto foi chamado de “Lapa Vermelha IV Hominídeo 1”. Mas um arqueólogo chamado Walter Neves, que é mineiro, mas trabalha na Universidade de São Paulo, resolveu dar um apelido carinhoso para a primeira mulher das Américas: Luzia.

Nossa Luzia tinha mais ou menos 20 anos de idade quando morreu. Não era muito alta, tinha 1 metro e meio de altura e poderia ter traços negroides, com nariz largo e olhos bem arredondados. Conseguiram fazer até o desenho em 3D do seu rosto! Até agora, não foi encontrado nenhum fóssil de humano tão antigo quanto ela em todo o continente americano.

E ela não estava sozinha. Fazia parte do Povo de Luzia, um dos povos que viveram na região de Minas Gerais, em diferentes períodos. Viviam da caça, da pesca e da coleta de frutas e outros vegetais.

 

O Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas é um podcast do projeto Minas Faz Ciência, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Roteiro de Luiza Lages e Mariana Alencar, com assessoria científica do professor Cástor Cartelle, da PUC Minas.

 

Para saber mais sobre o trabalho de arqueólogos e paleontólogos e a descoberta do esqueleto de Luzia, acesse nosso conteúdo de apoio a pais e professores, no portal Minas Faz Ciência.

Sobre o(a) autor(a)

Luiza Lages

Luiza Lages

Jornalista, radialista e mestre em Comunicação Social pela UFMG. Repórter da Minas Faz Ciência e editora dos podcasts Ondas da Ciência e Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas.
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