Essa é a história da criação de uma nova linguagem. Não é exatamente como o português, o espanhol, o alemão ou o japonês. É a linguagem que usamos para conversar com os computadores! É também a história de como uma matemática incrível, chamada Grace Hopper, foi fundamental para esse processo.

Você sabia que nem sempre tivemos computadores, notebooks e celulares como conhecemos hoje? Que antes não era possível pedir para o computador buscar um arquivo, comandar um personagem do seu jogo favorito ou colorir um desenho que você gosta? Há algumas décadas, os computadores ocupavam salas inteiras, enormes. E sabe como funcionavam? Você precisava ligar e desligar fios para conversar com eles!

Escute mais um episódio do Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas, para entender como isso mudou, a partir do trabalho de Grace Hopper.

Era uma vez…

… Uma menina muito curiosa. A pequena Grace, que nasceu há mais de 100 anos. No ano de 1906, na cidade de Nova York, nos Estados Unidos. Ela não parava quieta!

Quando os pais olhavam, já tinha desmontado mais um aparelho doméstico. Mas não era à toa. Ela era mesmo muito curiosa, queria ver como os equipamentos eram por dentro, como funcionavam. E ela se divertia demais montando tudo de novo. Nada ficava realmente estragado. Grace era muito esperta. Só de ouvir falar já dá pra imaginar que a menina ia acabar sendo uma engenheira, e uma ótima engenheira.

Mais ou menos. Grace Murray… (Nesse momento da história, nossa Grace ainda não tinha o nome tão famoso agora)… Grace Murray acabou estudando matemática!

Na  época, não existiam os cursos de Computação. Antes, era comum que matemáticos trabalhassem nessa área. Grace se formou, fez mestrado e doutorado em matemática. Nesse período, se casou com Vincent Foster Hopper, em 1930. Mas os dois acabaram se divorciando, em 1945. O que ficou foi o nome. Agora sim, Grace Hopper!

Vieram a guerra e os computadores

Antes mesmo de acabar os estudos, ela começou a dar aula em uma universidade. E trabalhou como professora até 1943. Dois anos antes, em 1941, a história (não essa, a do mundo) conta que o Japão ordenou um ataque a uma base da marinha dos Estados Unidos, em Pearl Harbor, no Havaí. Muitas pessoas morreram. E o país entrou então na Segunda Guerra Mundial.

Grace não ia ficar de fora. Queria entrar para a marinha. Mas a recusaram porque achavam que ela era muito magra. E também por causa da idade… Ela tinha 34 anos. Mas Grace não desistiu.

Depois de outras tentativas, entrou para a marinha em um programa especial para mulheres. Em 1944 virou tenente e começou a trabalhar em um projeto de computação na universidade de Harvard. Agora sim começa a história dela com os computadores!

Ela fez parte da equipe que produziu e colocou para funcionar o Mark 1. Foi um dos primeiros modelos, mais um esboço mesmo, de computador eletrônico. Ou seja, foi base para os computadores que trabalham com energia elétrica.

Ele era formado por interruptores, eixos rotativos e embreagens. Precisava de centenas de quilômetros de fio. Tinha 16 metros de comprimento e mais de dois metros de altura. Pesava uns 4.500 quilos! E servia para fazer cálculos que eram importantes durante a guerra.

Um bug no sistema

Depois que o conflito terminou, em 1945, Grace não quis mais largar a computação. Então continuou programando! Dessa vez, os computadores Mark 2 e Mark 3.

Na época, aconteceu uma coisa engraçada. O computador não estava funcionando direito, e ninguém entendia por que. Grace, sempre curiosa, foi investigar. Descobriu uma mariposa no meio do equipamento! A danadinha era a culpada.

A palavra “inseto”, em inglês, é “bug”. Grace foi a primeira pessoa a encontrar um bug no computador! No caso dela, foi um bug de verdade. Mas depois, as pessoas começaram a usar a palavra para falar de problemas com a máquina ou com a programação. É uma expressão muito usada hoje, e veio desse dia, em 1947.

Novos rumos, novos computadores

Depois de mais três anos, nossa protagonista teve que deixar o trabalho com os Marks. O contrato dela era temporário, e não existiam cargos para mulheres nesses projetos, na universidade de Harvard. Uma lástima, não é mesmo?

Nem tanto! Porque a carreira de Grace não acabou aí. Pelo contrário. Em 1949 ela começou a trabalhar em uma empresa de computação. E lá, ela fez parte da equipe que construiu o primeiro computador eletrônico comercial do mundo! O UNIVAC 1. E, depois, o UNIVAC 2.

Vou tentar explicar como esses computadores eram. Imagine um painel bem grande, cheio de chaves, botões e entradas para fios. Ele pesava 13 toneladas. Sabe o que é isso? O peso de mais ou menos 160 homens adultos. Levinho, né? E para operar o computador, a pessoa precisava conectar e desconectar cabos, ligar e desligar chaves. Bem longe do teclado, do mouse ou do touch.

Enquanto trabalhava nos UNIVAC I e II, Grace começou a explorar novas maneiras de usar o computador. Para ela, esse negócio de cabos e chaves já tinha dado. Então, em 1952, ela desenvolveu o primeiro compilador. E o compilador é muito, mas muito importante mesmo. Não só nessa história, mas para como a gente conversa hoje com os computadores.

Como falar com um computador

O computador não entende português. Nem inglês, nem mandarim. Ele não fala a nossa língua. O computador entende de energia. Uma hora está passando energia, na outra não. Um ou zero. Não é tão fácil de entender… Mas o importante é saber que o computador é uma máquina eletrônica, que funciona com energia elétrica. Por isso, os primeiros computadores eram controlados ligando e desligando cabos.

Mas Grace pensava em uma forma de conversar com o computador, usando números ou o alfabeto. Para isso, precisava de um tradutor. Alguma coisa que transformasse a nossa linguagem, dos humanos, na linguagem do computador. E é isso que um compilador faz! Lá atrás, ela participou do desenvolvimento de um compilador chamado A-0, que traduzia o código matemático para um código entendido pela máquina.

Em 1953, Grace teve a ideia de escrever programas em palavras, em vez de símbolos. Acredita que chegaram a falar que não ia dar certo? Mas ela insistiu, continuou trabalhando em um compilador para a língua inglesa. Em 1956, sua equipe criou a FLOW-MATIC, a primeira linguagem de programação a usar comandos de palavras comuns, em inglês. Isso foi muito importante, porque facilitou o trabalho dos programadores de computador.

Em 1959, ela participou de uma conferência feita para criar uma linguagem comercial para computadores. E então foi desenvolvida a COBOL. Grace não só participou dessa missão, como trabalhou muito para que a nova linguagem fosse distribuída e ganhasse o mundo. O COBOL foi o grande passo para transformar como lidamos com os computadores. Foi muito adotado nos anos 70 e 80, e ainda está presente por aí! Mas agora também existem Java, C, C++, Python e muitas e muitas outras formas de conversar com as máquinas.

Grace não parou. Continuou trabalhando e só se aposentou da marinha dos Estados Unidos aos 79 anos de idade. Quem trabalhava com ela, a chamava de Amazing Grace. Incrível, maravilhosa.

 

O Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas é um podcast do projeto Minas Faz Ciência, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Roteiro de Luiza Lages, com assessoria científica da professora Kécia Aline Marques Ferreira, do Departamento de Computação do CEFET-MG.

 

Para saber mais sobre Grace Hopper e linguagens de programação, acesse nosso conteúdo de apoio a pais e professores, no portal Minas Faz Ciência.

Sobre o(a) autor(a)

Luiza Lages

Luiza Lages

Jornalista, radialista e mestre em Comunicação Social pela UFMG. Repórter da Minas Faz Ciência e editora dos podcasts Ondas da Ciência e Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas.
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