Vamos contar a história de mais ou menos 7,7 bilhões de pessoas – e também sobre teorias que começaram com um economista chamado Thomas Malthus. Vamos falar de uma coisa chamada Demografia: sobre como começamos a estudar o nascimento, o envelhecimento, as mortes e as migrações. E o que isso significa para a história, para a política e para as nossas vidas.

Escute mais um episódio do podcast Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas:

Quando acabou a guerra…

Essa história começa há uns 75 anos, logo depois da Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, foram criadas várias tecnologias novas. Muitas para combater ou evitar doenças.

Com menos gente ficando doente, menos gente morria. Isso gerou um impacto enorme no mundo… Mais ainda nos países em desenvolvimento. Se o número de pessoas que nascem continua o mesmo, mas o número de mortes diminui, o que acontece? A população cresce. E cresceu muito! Há quem chame esse capítulo da história mundial de explosão demográfica! Um BUM de gente a mais, em todo o mundo, mas especialmente nesses países mais pobres.

E cá entre nós, seres humanos estão sempre muito preocupados… Essa bomba populacional levantou um monte de dúvidas e medos. O que isso significava? Será que ia ser um problema? Algumas pessoas começaram a procurar informações sobre o assunto. Na época não tinha Google. Mas isso não impediu esses estudiosos de chegarem a uma teoria que foi feita lá atrás, no final do século 16.

Malthus teve algumas ideias sobre como a população cresce

A tal teoria veio de um livro, chamado Princípio da População. Quem escreveu foi o inglês Thomas Malthus. Ele era professor de Economia. Mas corre a lenda que uma noite, depois de discutir muito com o pai, ele escreveu seu livro mais famoso.

O pai de Malthus era um estudioso e acreditava em ideias de pensadores da França, os iluministas. E ele era um otimista! Acreditava que o futuro da humanidade seria melhor. Que íamos viver por mais tempo e mais felizes.

Malthus não pensava nada disso… Tinha mesmo umas ideias bem pessimistas. Para ele, a população não ia parar de crescer. Cada vez, mais e mais pessoas nasceriam. Ao mesmo tempo, todo mundo precisa comer.

Só que pela análise de Malthus, a produção de comida até ia crescer, mas de um jeito constante.. Ou seja, enquanto a população ia aumentar cada vez mais, os alimentos iam crescer sempre do mesmo tanto… Sem acompanhar o tanto de gente que nasce. E aí, não parecia ter muito jeito. Uma hora ia ter mais pessoas que comida no mundo.

Por isso, para ele, a vida dos humanos não ia realmente melhorar no futuro. Como a gente poderia viver por mais tempo e sermos mais felizes se não ia ter nem comida para todo mundo?

O mundo às vezes pisa no freio?

Malthus disse que quando o número de pessoas passa a quantidade de alimentos, acontecem grandes eventos, que são como freios. Não um freio de bicicleta ou de carro. Um freio que para o crescimento da população.

Para ele, esses freios eram a miséria, a fome, as doenças e a guerra. Malthus acreditava que a pobreza e o sofrimento eram o destino de grande parte das pessoas. E não tinha nada que a gente pudesse fazer sobre isso…

Quer dizer. Ele falou que se as pessoas começassem a ter menos filhos, esses problemas poderiam ser resolvidos. Por exemplo, ele era a favor das pessoas se casarem mais velhas e, assim, que elas esperassem um bom tempo para começar a ter bebês.

Os neomalthusianos

Mas vamos voltar lá para os anos 1950. Aquelas pessoas preocupadas com o futuro da humanidade, porque achavam que não podia dar certo esse tanto de gente no mundo, se chamavam de neomalthusianos. Isso significa que elas pegaram emprestado e defendiam o que Malthus escreveu, uns 150 anos antes. Mas com algumas mudanças.

Para essa galera do século 20, uma população tão grande e que estava crescendo tanto  era o motivo dos países não serem muito desenvolvidos e terem tanta miséria. E eles achavam simples: a solução era planejar, com uma coisa chamada controle populacional.

Ou seja, os governos poderiam tomar algumas atitudes pra incentivar as pessoas a não terem filhos. Ou até deixar na lei que as famílias não poderiam ser muito grandes. Isso aconteceu na China. Por muito tempo, as famílias lá só puderam ter filho único!

Funcionou? Eles estavam certos?

Hoje sabemos que todo esse alarde não fazia muito sentido. E que essas pessoas estavam olhando para as coisas de um jeito errado.

O que muitos países estavam vivendo é chamado de transição demográfica. Esse é um conceito que explica como a população cresce no mundo, e que tem a ver com os avanços da medicina, de novas tecnologias, o crescimento das cidades e outras coisas.

Primeiro, a população faz um BUM! Como já falamos… 200 anos atrás, existia um bilhão de pessoas no mundo. Hoje já são mais de sete vezes isso! É muita gente.

Mas o número de pessoas nos países não continua só crescendo… Pelo contrário! Em alguns lugares, que já estão bem no final dessa transição, a população está até diminuindo.

O desenvolvimento e a vida nas cidades faz com que as famílias tenham cada vez menos filhos. Então mesmo que o número de mortes diminua, menos gente está nascendo. No Brasil, estamos quase lá. Daqui a alguns anos, a nossa população vai começar a diminuir.

Tá vendo? Eles estavam olhando as coisas da forma errada… Não é uma população menor que traz desenvolvimento para um país. É o desenvolvimento que faz com que a população não cresça tanto. Isso acontece por vários motivos. Por exemplo, mais mulheres começaram a estudar e a trabalhar fora. A vida das famílias mudou muito com isso. Sem contar que ter filhos não é barato.

E o que mais?

Malthus falou sobre comida, não é? Mas valia pensar também em mais coisas… Como energia, água, espaço para morar e vários outros recursos que precisamos para viver.

O que a história mostrou é que essas coisas não acabaram e nem vão acabar só por causa do tanto de pessoas que vivem em um país ou no mundo. E não é a redução desse número que traz desenvolvimento.

O problema mesmo é como vivemos, o tanto que a gente consome e como fazemos para produzir as coisas que precisamos (ou que só achamos que precisamos). É para isso que temos que olhar com cuidado.

Pelo menos Malthus nos ajudou a olhar para esse tipo de coisa, a pensar em como a população cresce, em quais os efeitos e causas disso. Por isso, é chamado de pai da Demografia! Mesmo que ele fosse, na verdade, um economista e nunca tivesse ouvido falar nessa palavra.

 

O Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas é um podcast do projeto Minas Faz Ciência, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Roteiro de Luiza Lages, com assessoria científica do professor Duval Magalhães, do Departamento de Geografia da PUC Minas.

 

Para saber mais sobre as teorias de Malthus e conceitos de Demografia e transição demográfica, acesse nosso conteúdo de apoio a pais e professores, no portal Minas Faz Ciência.

Sobre o(a) autor(a)

Luiza Lages

Luiza Lages

Jornalista, radialista e mestre em Comunicação Social pela UFMG. Repórter da Minas Faz Ciência e editora dos podcasts Ondas da Ciência e Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas.
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