Elas vivem embaixo da terra, têm ossos do crânio muito fortes e, por isso, usam a cabeça para escavar. Parecem uma minhoca grande, mas na verdade são répteis. Constroem túneis debaixo do solo para viver e procurar comida, sendo que a maioria se alimenta de formigas, larvas de cupim e besouro. Você tem ideia de quem estamos falando?

Anfisbênias têm 200 espécies no mundo inteiro. Foto: Henrique Caldeira Costa

Conhecidas popularmente como cobras-de-duas-cabeças, as anfisbênias são animais curiosos e cheio de segredos. O Minas Faz Ciência Infantil resolveu desvendar um monte desses mistérios com o especialista Henrique Caldeira Costa, pesquisador da Universidade Federal de Viçosa (UFV). O cientista já foi até para outros países em busca de informações sobre a espécie.

“São animais raros e pouco diversos. Existem no Brasil 400 espécies de serpentes. Já as anfisbênias têm 200 espécies no mundo inteiro. Há menor número de pesquisas científicas sobre elas porque vivem enterradas e são difíceis de encontrar”, diz Henrique Costa.

Muita gente que vive nas comunidades rurais associa as anfisbênias a mitos e crenças. Acham que elas mordem ou têm veneno, mas não é nada disso. “Sabe-se pouco sobre a biologia delas e o universo subterrâneo que vivem. Elas são predadoras importantes no subsolo para controle de insetos e outros invertebrados”.

Foto: Henrique Caldeira Costa

Anfisbênias caminham para os dois lados, por isso levam o nome popular de cobras-de-duas-cabeças. “Quando estão enterradas conseguem andar de marcha à ré. Este nome científico surgiu porque havia um monstro mitológico de duas cabeças que andava para frente e para trás. Muita gente pensa que elas são serpentes, mas são um grupo de lagartos que não tem veneno, nem peçonha. A cauda tem a ponta redondinha, que faz as pessoas confundirem com uma cabeça”, descreve o especialista.

Segundo Henrique Costa, algumas espécies usam a cauda mais arredondada para afastar o predador. “Elas levantam a cauda, dando a impressão de que é a cabeça, mas é só para confundir o predador”, explica.

O movimento debaixo da terra, além de protegê-la, pode ser um fator ambiental importante, pois cientistas acreditam que, por cavarem buracos no solo, as anfisbênias ajudam na aeração do solo. Assim como as minhocas poderiam facilitar a penetração de raízes na terra.

Curiosidade

Nome científico: AMPHISBAENIA

Nome popular: cobras-de-duas-cabeças.

Nome indígena: Ibijara (que significa senhor da terra). No Maranhão, Região Nordeste do Brasil, há uma espécie nomeada Amphisbaena ibijara.

Anfisbênias menores medem cerca de 10 centímetros de comprimento, com espessura de um lápis. Já os animais maiores podem chegar a 60 centímetros com largura de um dedo polegar.

“A variação de tamanho se relaciona com o tipo de solo que conseguem escavar, pois é muito diferente em todo o Brasil. Como elas usam a cabeça para cavar, deve existir uma relação de profundidade do solo que cada espécie consegue ocupar. Essa é uma das partes da minha pesquisa, que tentar fazer um levantamento de onde cada espécie ocorre e junta isso com informações de solo. Assim, a característica da anfisbênia influencia a distribuição geográfica”, explica.

De acordo com o cientista, é possível encontrar anfisbênias na América do Sul, Caribe (Cuba e algumas ilhas), México (onde há três espécies bem peculiares com membros anteriores ou “pequenos braços”) e na Flórida (EUA). Também existem na África, Europa (Portugal, Espanha, Turquia) e Oriente Médio. Como elas não ocorrem no mundo inteiro fica mais fácil fazer o mapeamento do grupo, trabalho ao qual Henrique Costa se dedica.

Foto: Henrique Caldeira Costa

Coleções: universo da pesquisa em museus

Mesmo com as dificuldades de pesquisar informações sobre as anfisbênias, por causa do desafio de acessá-las no habitat natural, Henrique Costa arrumou um jeitinho de conhecê-las melhor. “Até a década de 90 poucas pessoas pesquisavam sobre elas, mas o cenário mudou depois dos anos 2000”, conta.

Ele trabalhou especificamente com material de coleções científicas, que são como cápsulas do tempo e guardam informações ricas sobre animais. “Materiais coletados há mais de 100 anos são preservados em museus para a eternidade e a gente consegue ter noção da biodiversidade do passado e presente”, afirma.

Então, se você acha que museu é legal só para visitação, saiba que também são fundamentais para a ciência no mundo. “Nas coleções tenho mais facilidade do que teria com o trabalho em campo. Quem faz coleta de anfisbênias na natureza tem que cavar e retirar uma por uma. É muito trabalhoso”, detalha Henrique Costa.

Por isso, usar as informações guardadas nos museus é muito útil. Mas, afinal como funcionam as coleções?

Quando algum cientista descobre uma espécie nova, publica um trabalho descrevendo as características, seleciona um exemplo daquele animal e usa como base para as informações. Este exemplar é importante para quem vai consultar a coleção depois.

Segundo Henrique Costa, o Brasil tem importantes museus com dados sobre anfisbênias a exemplo do Museu da USP, em São Paulo, e o Museu Nacional, no Rio, cujo incêndio em 2018 não destruiu a coleção de répteis.

Mesmo assim, Henrique Costa mergulhou na aventura de buscar mais sobre as anfisbênias fora do Brasil. Trabalhou em pesquisas no Museu de História Natural de Nova York e no Museu Field de História Natural, em Chicago. “Lá tinham exemplares importantes da América do Sul e Brasil, além de outras partes do mundo. Aproveitei para ver exemplares que seriam difíceis de acessar”, conta.

O trabalho nos museus é fascinante. “A gente abre uma gaveta e acaba vendo um material coletado há 50, 100 ou 200 anos. Eu vi um exemplar retirado na Bahia, em 1824, pelo Maximiliano de Wied-Neuwied – um alemão que fez viagens ao Brasil no século 19. A descoberta dele está no Museu de Nova York, parte de uma coleção bem interessante”, relata o cientista da UFV.

Ação do homem

Das 200 espécies de anfisbênias do mundo, 75 estão no Brasil. Nosso país é muito grande e há vários cientistas em busca desses animais, diferentemente de outros locais onde o interesse de pesquisa é menor. Nos últimos 20 anos, o Brasil cresceu muito em empreendimentos de infraestrutura como estradas e hidrelétricas, o que tem um impacto grande na descoberta de anfisbênias.

Henrique Caldeira Costa, pesquisador da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Foto:; Maria Clara Nascimento Costa

“Quando tratores passam sobre a terra derrubando arvores em florestas e campos, eles retiram parte da camada do solo e fazem aparecer anfisbênias. Elas ficam, geralmente, numa profundidade de 60 centímetros a um metro da superfície. O trator acaba desenterrando as anfisbênias”, explica o cientista.

Ou seja: ao mesmo tempo em que o homem destrói o ambiente desmatando regiões, revela espécies escondidas na terra.

Conhecendo o cientista

Na infância, Henrique Costa sonhava em ser paleontólogo. Mas sua vida de cientista tomou outros rumos. Estudou Ciências Biológicas na UFV durante a graduação, quando pretendia trabalhar com genética e clonagens. Não gostou muito da área e acabou se encantando pela zoologia quando teve oportunidade de trabalhar em museu. Começou a pesquisar répteis e, principalmente serpentes. Fez mestrado sobre um grupo específico de serpentes e, no doutorado,  se interessou em investigar as anfisbênias.

Sobre o(a) autor(a)

Luana Cruz

Luana Cruz

Jornalista, professora e pesquisadora. É mãe dos gêmeos Martin e Heitor.
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