Já pensou em embarcar num navio rumo ao continente gelado? Antes de qualquer coisa, saiba que é preciso passar por um treinamento: a preparação de cientistas e militares que participam de expedições na Antártica envolve desde conhecimentos teóricos até uma bateria de exames médicos, sob comando da Marinha Brasileira.

O teste de resistência começa ainda na viagem. Durante a navegação, além das oscilações em alto mar, é preciso enfrentar longos períodos de confinamento, num ambiente com pouca luz.

As condições climáticas da chegada são imprevisíveis: os ventos podem atingir a velocidade de 100 km/h e a sensação térmica varia muito. A descida pode ser feita de bote ou de helicóptero. É preciso ter força e disposição para carregar a bagagem. Só as roupas especiais, impermeáveis (que não molham) pesam cerca de 30 quilos, sem falar nos equipamentos.

Questão de sobrevivência

De olho na saúde dos profissionais que saem do clima tropical brasileiro para o ambiente gelado da Antártica – as temperaturas podem chegar a -50ºC – um grupo de pesquisadores acompanha, de perto, como as pessoas se adaptam à mudança brusca. O projeto Mediantar, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG), investiga a adaptação do ser humano às condições extremas de sobrevivência na Antártica.

Para isso, são feitas medições da pressão arterial e da temperatura interna e da pele; coleta de urina, saliva e sangue – em gotículas que são transportadas congeladas, para a análise das amostras após o retorno ao Brasil. Também são observadas variações nos níveis de hormônios, frequência dos batimentos do coração e até mesmo o estado de humor das pessoas que passam por esse tipo de experiência.

Uma das coordenadoras do trabalho é a professora Rosa Arantes, do ICB. Ela conta que, além do frio, há outros desafios a serem enfrentados, como a paisagem monótona e o isolamento. As expedições científicas costumam durar quase seis meses, durante o verão antártico. Nesse período, as temperaturas são mais amenas (para os padrões antárticos): em torno de – 5ºC, nos acampamentos. As pessoas dormem em uma barracas individuais e compartilham outras, usadas como cozinhas e laboratórios.

“O interesse é levantar o maior número possível de informações relacionadas aos processos  de adaptação dos cientistas e militares que se deslocam anualmente para a Antártica: os desafios físicos e psicológicos em ambientes isolados e frios”, diz.

Aplicativo

Os pesquisadores do projeto Mediantar contam com mais uma ferramenta para coletar informações sobre a saúde dos profissionais que participam de expedições na Antártica: o aplicativo Polar Dispendium, desenvolvido num projeto colaborativo que envolveu pesquisadores da área de Ciências do Esporte da UFMG e do curso de Engenharia Elétrica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG).

O app permite que o próprio usuário registre informações sobre suas atividades diárias, como alimentação, tempo de sono e exercícios físicos (mesmo decorrentes de algum tipo de esforço durante o trabalho). “O aplicativo gera o gasto calórico, faz o acumulado e compara a evolução do IMC [índice de massa corporal] e do peso”, conta Leonardo Prado, estudante do IFMG que participou do desenvolvimento do dispositivo. O projeto foi coordenado pelos professores Andrei Roger Silva de Oliveira e Alexandre Sérvulo Ribeiro Hudson.

Sobre o(a) autor(a)

Alessandra Ribeiro

Alessandra Ribeiro

Jornalista, mestra em Comunicação Social pela UFMG e mãe do Kenzo. :-)
frame3

Conteúdo Relacionado

Enable Notifications    OK No thanks