Você conhece a Serra da Piedade, ponto turístico mineiro que atrai muitos visitantes por causa do Santuário Nossa Senhora da Piedade e também pelas belezas naturais? A serra fica no município de Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em área de alta altitude. Tem um clima bem frio e abriga uma vida animal diversa.

Vista da Serra da Piedade. Foto: CamponeZ/Flickr
Vista da Serra da Piedade. Foto: CamponeZ/Flickr

Convidamos você a explorar conosco o universo de répteis e anfíbios que vivem por lá:

Cientistas da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) estão coletando informações de bichos que moram no complexo da Serra do Espinhaço, uma cadeia montanhosa que se estende de Minas até a Bahia, da qual a Serra da Piedade faz parte.

É importante para a ciência descobrir e descrever os animais que vivem em cada região. Fazendo inventários (documento em que se contabiliza e registra espécies), é possível propor ações de preservação desses bichos, conhecendo os hábitos e costumes de cada espécie.

A Serra da Piedade está em área de interesse econômico, por isso, pensar em preservação é uma prioridade.

“O Espinhaço é importante pela diversidade. No entanto, é uma área muito impactada pela mineração. Os inventários de anfíbios e répteis são recentes. Têm permitido conhecer novos dados de espécies. Temos em mãos o processo de descrição de seis novas espécies. Cada vez que se faz um inventário, se detecta uma nova espécie”, explica a bióloga dr. Luciana Barreto Nascimento, que coordena as pesquisas.

Veja alguns bichinhos curiosos que a equipe da PUC está estudando:

1 – Rã (Thoropa megatymapnum)

Foto. Lucas Henrique Allori Glauss
Foto: Lucas Henrique Allori Glauss

Anfíbio encontrado nas pedras molhadas serra. Tem hábitos noturnos e uma cor manchada que permite camuflagem nas rochas.  Na reprodução, a rã deposita seus ovos em pequenos filetes de água que se formam entre as pedras.

2 – Perereca (Fritziana sp.)

Foto: Lucas Henrique Allori Glauss
Foto: Lucas Henrique Allori Glauss

Encontrada no alto da serra, dentro de bromélias (que são plantas). Essa perereca vive escondida nas folhas e lá também se reproduz. É um anfíbio que fica mais ativo no entardecer e à noite. A espécie não tem um nome científico completo porque ainda não foi descrita. Cientistas da PUC estão empenhados no trabalho de descrição.

Os ovos são colocados na água que se condensa e se acumula nas folhas. Nessas gotículas vivem os girinos até alcançar vida adulta. A espécie gosta desse ambiente úmido, por isso é importante preservar as bromélias para manter viva essa perereca.

3 – Perereca de pijama (Boana polytaeni)

Foto: Lucas Henrique Allori Glauss
Foto: Lucas Henrique Allori Glauss

Os cientistas observaram a ocorrência dessa espécie em um pequeno poço formado pelo barramento de água de um riacho. A perereca de pijama vive e se reproduz nesses pequenos lagos.

Ela á muito adaptável a qualquer ambiente que tenha água para a reprodução. O nome inusitado é por causa das listras espalhadas por todo o corpo, como se estivesse vestida com um pijama.

4 – Calango (Tropidurus Montanus)

Foto: Lucas Henrique Allori Glauss
Foto: Lucas Henrique Allori Glauss

É um réptil encontrado não só na Serra da Piedade. Além de Minas Gerais, ele vive em ambientes de cerrado rupestre nos estados de Goiás e Bahia. É um animal mais ativo nas horas quentes do dia.

Os biólogos da PUC estudaram a reprodução do calango e também investigaram os parasitas presentes nesse réptil.

Como os cientistas descobrem esses bichos?

Você deve estar pensando… Como esses cientistas encontram animais que são tão pequenos e rápidos ao perceber a presença humana?

A metodologia usada pelos biólogos da PUC é sonora. Eles espalham gravadores em pontos estratégicos da Serra da Piedade para captar o som dos animais. Deixam os aparelhos ligados 24 horas, sem aparecer por lá.

Os cientistas fizeram isso por aproximadamente um ano até perceberem um padrão de comportamento de alguns bichos.

Lembra das pererecas e da rã? Elas aparecem e cantam sempre ao entardecer ou anoitecer, principalmente quando já está fechada a visitação ao Santuário Nossa Senhora da Piedade. Isso significa que gostam de aparecer quando há menor movimentação de pessoas na serra.

Ao fundo, a visão da Serra da Piedade como um todo. Foto: p.resende/Flickr
Ao fundo, a visão da Serra da Piedade como um todo. Foto: p.resende/Flickr

Os biólogos também concluíram que os anfíbios cantam mais nos períodos de reprodução.  De acordo com Luciana Barreto, os sons ficam mais acentuados porque o macho é escolhido pela fêmea por meio do canto.

As fêmeas reconhecem o canto de machos maiores e mais velhos, aqueles que sobreviveram às dificuldades da floresta e poderiam ser bons candidatos a pai de seus filhotinhos.

Além de ouvir o som dos animais, a equipe de cientistas também coleta alguns bichos e leva para análise em laboratório. Tudo feito com muito cuidado e respeito às legislações.

De acordo com Luciana Barreto, além do inventário de espécies adultas os pesquisadores registraram informações sobre os girinos e estão montando uma biblioteca de dados moleculares dos animais, que poderá ser consultada por outros cientistas.

As pesquisas na Serra da Piedade são financiadas pela FAPEMIG e ajudam também a formar biólogos, que tomam gosto pelo trabalho em campo e seguem investigando a rotina de animais.

E aí, ficou animado em ser tornar um cientista da biologia?

Sobre o(a) autor(a)

Luana Cruz

Luana Cruz

Jornalista, professora e pesquisadora. É mãe dos gêmeos Martin e Heitor.
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