Você vai conhecer um pouco mais sobre a vida de uma libélula! Um pequeno inseto voador que aposto que já viu em piscinas, rios, cachoeiras e lagos por aí.

Escute o terceiro episódio do podcast Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas:

Era uma vez…

… Um reino nem tão distante, na Serra de São José, lá pros lados de Tiradentes. Quem passa por ali caminha entre agradáveis florestas da Mata Atlântica, ricas árvores do Cerrado e por campos que crescem nas áreas mais altas.

Brejos, córregos, rios, lagoas marginais e açudes cortam o reino. E abrigam muita vida. A população local é bem diversa! Entre os moradores, sapos, pererecas, rãs, aves, macaco-barbado, lobo-guará, onça-parda, jaguatirica e jacu. E, claro, vários insetos.

Mas um animal se destaca. Naquele pequeno pedaço de terra vivem 128 espécies de libélulas. Dá pra imaginar? Não são 128 libélulas, são 128 tipos diferentes do bichinho!

O que são libélulas?

Você já deve ter visto uma libélula por aí… É um inseto até bem bonitinho. Geralmente, vemos libélulas dando voos rasantes em piscinas, rios e lagos, quando elas passam rapidamente e batem o bumbum na água!

Elas possuem um corpo muito alongado: comprido e fininho. Os olhos são grandes, e têm dois pares de asas mais ou menos transparentes. Os delicados insetos podem ser azuis, amarelos, vermelhos, listrados, sem cor nenhuma ou muito coloridos.

Existem dois grandes grupos desse animal. Um é o Anisóptera. São os mais robustos, maiores, que costumam parar com as asas esticadas para o lado. Bem abertas!

E o outro se chama Zygoptera. As libélulas desse segundo grupo são menores, mais fininhas e esbeltas. E quando estão pousadas sobre alguma superfície, geralmente dobram as asas para trás, junto do corpo.

Há quem diga que os pequenos insetos de voo rápido fizeram da serra de São José, em Minas Gerais sua morada por causa de todos os brejos, córregos, rios, lagoas marginais e açudes. Como já contei, libélulas são famosas por voarem perto d’água. Isso quando já são adultas! Antes, dependem mais ainda desses ambientes.

Começa a história de Grion

E em uma das matas mais bonitas e conservadas do reino, na beirada da nascente de um riacho local de água bem limpa, nasceu Grion. A pequena libélula emergiu de dentro do ovo…  E já saiu nadando!

Era uma ninfa, uma larva. Não dessas larvas que a gente imagina, quase como uma minhoca. Grion era um pequenino inseto: com seis patinhas e um exoesqueleto. Quase uma armadura, que ela ia ter que trocar várias vezes ao longo da vida, enquanto crescesse.

Grion não se achava muito bonita… Olhava para fora da água e mal podia esperar para ter asas e encher o mundo de cor! Mas sabia que ainda precisava crescer muito para chegar lá. A maior parte de sua vida seria dentro da água.

Enquanto isso, passava seus dias nadando para lá e para cá. Brincava, mas principalmente, caçava. Grion era uma predadora voraz! Com velocidade, instinto afiado e uma mandíbula muito forte, não dava trégua para insetos menores, girinos (as larvinhas de sapos e pererecas) e pequenos peixinhos. Quanto mais se alimentava, mais crescia.

E Grion cresceu. Pelas suas contas, já tinha trocado de exoesqueleto pelo menos seis vezes! A próxima troca seria a última. As asas já estavam quase formadas, escondidas por aquela armadura.

O voo da libélula

O grande dia chegou! Ela saiu para fora da água pela primeira vez. Andou e subiu no caule de uma planta, bem próxima à margem. Ali, se segurou. Começou a se mexer, até que o exoesqueleto se rompeu! De dentro dele, as asas de Grion se desdobraram. A pequena libélula emergiu, sem acreditar que finalmente poderia voar! Seu pequeno corpo foi se adaptando a aquelas mudanças. Até que se sentiu pronta.

Grion se lançou no ar e voou pela primeira vez! Rápido! Mais rápido! Atravessou o riacho e continuou! Sua cor brilhante rompia a mata e chamava a atenção dos outros insetos. E também de outros animais.

Humanos circulavam por ali! Carregavam pequenas redes e câmeras fotográficas. Registravam e coletavam insetos. “Olha, Lúcio, uma Heteragrion tiradentense!”, disse um dos homens. Ele apontou a câmera para Grion, que posou para a foto, sem timidez. “Parece que esse é meu nome completo”, pensou a libélula.

Mas não quis ficar parada muito tempo e deixou os humanos para trás. Tinha mais lugares e coisas para explorar! Nunca ia se cansar de voar… E nem de caçar. Agora, voando, era ainda mais rápida e certeira! Não deixava escapar mosquitos e outros insetos.

E a vida recomeça

E mal começou sua vida fora d’água, já estava chegando a hora de completar o ciclo. Grion queria reproduzir, deixar novos ovos na água. Libélulas macho tentavam chamar sua atenção. Até que ela deixou um se aproximar.

Tite se apresentou e disse que ficou encantado com Grion! Era um processo muito rápido. Nossa protagonista coletou um pequeno pacote com espermatozoides, de um ponto do corpo de Tite. São células que fecundam outras células, da fêmea, para produzir ovos.

Depois, Tite explicou que tinha medo que outro macho aparecesse e atrapalhasse tudo, queria garantir que os ovos chegariam a salvo na água. Voaram juntos, bem baixo, até o riacho. Grion encostou a barriga na água e soltou os ovinhos. Seus primeiros filhos!

Ela ainda fez isso outra e outra e outra vez. Teve mais ovos, mais filhos. Para a história começar de novo.

Entre os humanos

Enquanto isso, no centro de visitantes do Refúgio de Vida Silvestre Libélulas da Serra de São José, o biólogo Lúcio Bedê mostrava a algumas crianças imagens de insetos, que acabara de fotografar na mata. “Olha, é igual à maquete!”, disse com empolgação um dos meninos. Era uma das fotos de Grion!

O reino onde vive nossa pequena protagonista é, na verdade, a primeira e única unidade de conservação para a proteção de libélulas em todo o Brasil. E a Heteragrion tiradentense é bem especial por ali.

A espécie foi descoberta lá e descrita há alguns anos por Lúcio, por um biólogo alemão chamado Werner Piper e por outro personagem bem importante quando a gente fala desse pequeno voador… Ângelo Machado foi um entomólogo, alguém que estuda insetos. E já descobriu dezenas de libélulas. Era apaixonado pelo animalzinho!

Os três se empenharam para registrar as 128 espécies da Serra de São José. Uma delas foi a Tiradentense. O nome não engana, né? Uma homenagem à cidade de Tiradentes.

A libélula vive na nascente que dá vida a um dos lugares mais famosos do pequeno município: o Chafariz! A água que chega ali vem da casa de Grion. Não é à toa que podemos beber. É limpa de verdade. Como só uma libélula muito esperta sabe reconhecer.

O Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas é um podcast do projeto Minas Faz Ciência, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Roteiro de Luiza Lages, com assessoria científica do professor Henrique Paprocki, curador da Coleção de Invertebrados do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, e de Lúcio Bedê, biólogo e coordenador de Projetos do Instituto Terra Brasilis.

 

Para saber mais sobre como é a vida de uma libélula, acesse nosso conteúdo de apoio a pais e professores, no portal Minas Faz Ciência.