Vamos olhar para cima, para o céu? Conheça a história de uma estrela chamada HD43587 (ou Guadalupe, para os mais íntimos).

Escute o segundo episódio do podcast infantil Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas!

Uma noite no sítio

Era uma noite escura no sítio, mas Rafa não tinha medo. Pelo contrário, estava bastante ansiosa por uma noite como aquela. A Lua brilhava, assim, como muitas e muitas estrelas. Não tinha uma nuvem no céu!

A mãe da menina chamou e começou a mostrar algumas das constelações, como são chamados os grupos de estrelas que marcamos no céu, como desenhos. Ela explicou que, onde estamos, no hemisfério Sul do planeta, vemos estrelas que as pessoas que estão no norte não conseguem enxergar, e vice versa.

A mãe mostrou o Cruzeiro do Sul. Depois, apontou para três pontinhos brilhantes no céu. “São as três Marias!”, ela disse. Era o famoso Cinturão de Órion. Com um aplicativo do celular, as duas percorreram estrelas próximas, e descobriram um pouco mais sobre aquela constelação. Ela é tão fácil de identificar no céu noturno que dá pra ver até mesmo nas cidades.

Ao lado de Beltegeuse, chegaram a uma estrelinha chamada HD 43587. Rafa pensou que era um nome muito formal e engraçado. Ficou com aquilo na cabeça, e decidiu, que só entre as duas, a chamaria de Guadalupe, como o sítio do avô. Lá de cima, A HD 43587 pareceu ficar satisfeita com o novo nome.

E lá longe, no espaço…

A estrela queria contar tantas coisas para Rafa… Mas a distância entre as duas era muito grande: 63 anos luz. Isso significa que a luz que ela produz leva 63 anos para chegar aos nossos olhos, aqui na Terra. E olha que nada viaja mais rápido que a luz! O Sol, por exemplo, está a 8 minutos luz de distância. Bem pertinho da gente.

Mesmo se a estrela apelidada de Guadalupe quisesse mandar um sinal para Rafa, quando chegasse aqui, a menina já não seria mais criança. Nem um pouco! Teria 70 anos de idade. Imagine só! Quando a gente olha para o céu, agora, a Guadalupe de Rafa está brilhando, mas é um brilho de 63 anos atrás. E, cá entre nós, seria uma baita coincidência se ela olhasse para o céu, para aquela direção, no momento certo.

A Guadalupe está tão longe que é até difícil imaginar. Se você fosse do tamanho de um grãozinho de areia, o Sol ou a Guadalupe seriam do tamanho de uma bola de futebol! E se você quisesse andar até a HD 43587? Seria como ir e voltar umas cem vezes de Belo Horizonte até Salvador. Ou umas 10 mil vezes até a padaria.

Uma duplinha inseparável

Mas a maior surpresa é que a HD 43587 não estava sozinha. Ela faz parte de um sistema de estrelas. E tem uma companheira! As duas nasceram e ficaram juntas, a vida toda.

Uma era muito diferente da outra. Cada uma com seu jeitinho – como é com toda estrela no céu. Mesmo que algumas estrelas se pareçam muito, assim como pessoas, elas são únicas e cheias de características próprias!

Apesar das diferenças, as duas estrelinhas desse sistema são irmãs! Caminham sempre juntas, em torno do mesmo centro. E Guadalupe queria muito saber se Rafa também tinha um nome diferente para a irmã. Uma não sabia o que era estar nesse universo sem a companhia da outra. Observaram muitas e muitas coisas, lado a lado! Brincaram, cresceram e estavam refletindo sobre toda aquela longa vida de estrela.

Ela já era uma estrela adulta… Já tinha vivido tanto! Guadalupe é pelo menos um bilhão de anos mais velha que o nosso Sol. E olha que ele tem quase cinco bilhões de anos. Isso é só metade da sua vida.

O nascimento de uma estrela

A HD 43587 nasceu como tantas e tantas outras estrelas. No espaço, assim como vemos no céu, existem grandes nuvens. Mas não são formadas por vapor de água e nem se transformam em chuva… São nuvens de gás e poeira.

Alguma força, que pode acontecer por causa da explosão de uma estrela, por exemplo, empurra o gás e a poeira. É como uma onda, que vem de repente, e faz com que a matéria fique mais concentrada, cada partícula mais perto da outra.

Imagine uma mesa bem empoeirada. Se você soprar com muita força em uma das quinas, o que acontece? O vento empurra os grãozinhos de poeira, não é mesmo? No final, onde você soprou fica mais limpo e a poeira se acumula em outros lugares. No espaço, é muito parecido. Nesse local, onde o gás e a poeira se acumulam, são formadas várias estrelas.

Foi assim com a Guadalupe de Rafa. As partículas começam a se juntar, porque além de tudo, a gravidade atrai uma a outra. Ficaram tão juntas que a temperatura começou a subir.

Se a estrela pudesse explicar, diria que é bem parecido com quando você entra em um ônibus lotado. Aquele tanto de gente, vai ficando cada vez mais e mais quente. E as pessoas começam a querer se afastar. Mas ninguém quer sair do ônibus. É por aí.

Então, ao mesmo tempo em que as partículas foram se atraindo e ficando mais e mais juntas, as altas temperaturas fizeram com que elas se afastassem. Mas isso não aconteceu só uma vez.. Acontece o tempo todo! Uma batalha constante, até hoje.

E assim a HD 43587 nasceu! Primeiro, ela era como um bebê, chamada de protoestrela. Depois, mais matéria foi se juntando no núcleo, bem no centro dela, e ela foi produzindo mais e mais energia. Foi se desenvolvendo, crescendo e ficando mais quente.

Um mundo microscópico em uma estrela enorme

Você já ouviu falar de átomos? Nós, os animais, nossas coisas, a água, o ar, as estrelas e quase toda matéria que existe é formada por átomos. De hidrogênio, oxigênio, carbono, ferro… São bem pequenininhos, não conseguimos os enxergar, só com microscópios muito avançados.

O centro de uma estrela começa sendo formado por átomos de hidrogênio, iguais ao que temos aqui na Terra. Mas como a temperatura vai crescendo, e os átomos são empurrados juntos dos outros, eles começam a se combinar, a fundir! E aí quatro átomos de hidrogênio formam um núcleo de hélio – outra substância, aquela que está no gás que faz balões subirem e você falar engraçado.

E aí mais e mais átomos começam a se fundir e a produzir coisas diferentes. Quando isso acontece, muita energia é liberada, mas muita mesmo. Por isso as estrelas são tão quentes! A temperatura dentro de uma estrela pode chegar a 100 milhões de graus Celsius. Você tem noção do que é isso? Mais ou menos um milhão de vezes a temperatura de quando a água está fervendo na panela.

No futuro, o que vai acontecer com a Guadalupe?

A HD 43587 brilha tão forte e um pouco mais azulada que o Sol! Nem consegue pensar em parar de brilhar.  Mas sabe que uma hora vai ficar cansada e não ter tanta energia… Já viu isso acontecer com algumas amigas. Elas até tentam. Lutam contra a gravidade, ficam inchando e desinchando. Comprimem muito, e aí fazem um esforço e conseguem expandir. E lá vem a gravidade de novo.

Mas Guadalupe lembrou de uma conhecida. Ela expandiu tanto… Foi bem exagerado. Ficou quase 800 vezes maior que o Sol! Dá pra imaginar? Ficou até vermelha, coitada! Toda inchada e vermelha.

Mas o que aconteceu? A matéria foi tão longe, que se separou dela! Ela acabou perdendo a borda! Até que sobrou só o miolinho dela, bem pequeno. Virou uma anã branca. E ela não tinha mais energia nenhuma. Ainda era bem quente, mas, de pouquinho em pouquinho, foi esfriando… Até esfriar completamente. E a estrelinha se apagou.

Mas não vamos ficar tristes! A Guadalupe ainda tem bilhões de anos pela frente, para brilhar muito. É uma estrela muito comedida. Vai viver até tempo demais. Brilhando, tranquilamente. “Prefiro assim”, pensou a estrelinha.

Estrelas e gigantes

Ela lembrou dessas estrelas gigantes, que têm tanta, mas tanta energia, que não conseguem nem se controlar e acabam explodindo! São estrelas que já nascem muito maiores que ela, muito maiores que o Sol.

Essa briga interna que toda estrela tem é muito mais difícil pra elas… Uma hora a gravidade ganha, outra hora a energia que existe no núcleo. Elas sempre ficam crescendo e encolhendo. E um dia, de repente, encolhem de uma vez, com muita velocidade.

Quando a gente joga uma bolinha com muita força no chão, ela pica e volta, não é? É mais ou menos assim. A estrela encolhe nela mesma com tanta força que ela volta! Como uma explosão! BUM!

Esse tipo de estrela que explode é chamada de Supernova. O que sobra depois depende da estrela. Às vezes, é outra estrela, bem pequenininha, chamada de Estrela de Nêutrons. Ou então um buraco negro, um centro com tanta matéria e tão pequenininho que a gravidade é enorme. E outras vezes não sobra nada!

Na maioria das vezes é uma explosão assim que acaba fornecendo o material que vai formar outras estrelas. E tudo começa de novo.

A HD 43587 queria contar tantas coisas a Rafa… Dos planetas que ela já viu, asteroides, cometas e tantas e tantas outras estrelas. Mas ela queria mesmo falar que o importante é observar. Se você olhar com cuidado e atenção para o céu, vai entender melhor o que dizem as estrelas.

 

O Histórias de Ninar para Pequenos Cientistas é um podcast do projeto Minas Faz Ciência, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Roteiro de Luiza Lages, com assessoria científica do professor Wagner Corradi e da doutoranda Rafaella Barbosa, do Departamento de Física da UFMG.

 

Para saber mais sobre como são formadas e qual o percurso da vida das estrelas, acesse nosso conteúdo de apoio a pais e professores, no site Minas Faz Ciência.