Sabe quando a gente toma banho e sai aquele monte de cabelo da nossa cabeça, descendo ralo abaixo?

Esse tipo de situação pode parecer corriqueira na nossa rotina de higiene pessoal, mas os fios de cabelo nos ralos se tornam um problema nos sistemas de esgoto das cidades.

Os jovens Renan Cleyson Fagundes Pereira, Maria Regina Rocha Bueno, Lucas Morais (os três da foto), Gabriela Poças Costa, Marina Fonseca Maia e Amanda Augusta Pinheiro decidiram pensar em uma solução para este problema.

Todos são estudantes do Colégio Técnico da UFMG (Coltec) e, sob a supervisão da professora Camila Lopes Dias, do setor de Patologia, desenvolveram um projeto de sistema biológico para degradação de fios de cabelos.

Renan, Maria Regina e Lucas, estudantes do Coltec que desenvolveram o projeto de sistema biológico para degradação de fios de cabelos

O problema

“A gente queria encontrar uma solução para problemas do nosso cotidiano e primeiro tivemos a ideia de fazer uma intervenção na Lagoa da Pampulha, que tem a má-fama de ser muito poluída”, conta Renan.

Para iniciar a investigação, eles foram visitar uma estação de tratamento de águas pluviais perto do Parque Ecológico da Pampulha e lá descobriram que o maior problema deles era o cabelo.

“Além de metal pesado e coliformes fecais, os técnicos nos contaram que o problema principal era o cabelo que deixamos cair no ralo e acaba entranhando nas engrenagens da máquina do sistema de tratamento“, detalha Lucas.

O maquinário da estação de tratamento funciona como uma peneira para evitar que itens sólidos sigam pelo sistema. Lucas nos explicou que é uma espécie de elevador, que sobe e desce para que as partículas caiam em uma caçamba, separando os itens sólidos do que segue para tratamento.

“Mas quando as engrenagens são travadas pelos cabelos, eles precisam parar tudo para fazer manutenção, e aí o esgoto acaba seguindo seu fluxo d’água e indo para a estação de tratamento da Onça, causando danos ao ecossistema, já que tais resíduos se depositam nas margens do córrego”, lamenta o estudante.

Para cada dia que a estação fica parada, além dos problemas ambientais de contaminação do leito do rio, ainda existem prejuízos financeiros, em função do custo da manutenção. Por isso, o sistema de degradação de fios pode contribuir tanto ambiental, como economicamente.

A solução

Maria Regina divulgando hashtag que convida todo mundo a fazer parte da solução.

“A nossa intenção é modificar bactérias para que elas se acoplem a esse cabelo e produzam substâncias que vão degradar e quebrar as proteínas do cabelo, como a queratina”, conta Lucas.

Com esse processo, eles acreditam que os cabelos serão degradados dentro do sistema e não mais atrapalharão o bom funcionamento da usina de tratamento.

Maria Regina conta que o projeto surgiu dentro de um grupo da escola, no Clube de Desenvolvimento de Máquinas Biológicas que, por sua vez, surgiu do Clube de Biologia Sintética do Coltec.

“Temos auxílio do grupo iGEM, da UFMG, e da professora Camila Dias, e estamos levando a biologia sintética para o ensino de nível médio, já que ela só é estudada, em geral, no nível superior e na pós-graduação”, detalha Maria.

A aproximação com os estudos de biologia sintética já permitiu aos estudantes fazer modificações genéticas em bactérias:

“Estamos aqui para revolucionar a biologia sintética!”, celebra a estudante.

Perspectivas de futuro

Maria Regina teve contato com os pesquisadores da UFMG durante um curso de verão, e a ideia de criar um Clube no ensino médio foi acolhida pelos profissionais da Universidade.

“Não existem muitos clubes de ciência no ensino médio no Brasil e estamos fazendo um movimento inovador aqui. Eu sempre quis ser pesquisadora e acho que o Clube e as experiências reforçaram esse meu sonho de ser cientista, professora universitária e pesquisadora“, detalha ela.

Para Lucas, que faz o curso técnico em Análises Clínicas, antes mesmo de trabalhar com o Clube já havia o interesse em seguir carreira acadêmica: “Quero atuar em questões sociais, na área de saúde, com comunidades do interior ou na Amazônia. São algumas perspectivas que tenho para a graduação e a pós”.

Já para Renan, a experiência de participar da pesquisa e do Clube mudou sua perspectiva de futuro, para melhor: “Eu não esperava que a gente fosse avançar tanto nos nossos experimentos, nós conseguimos evidenciar coisas importantes sobre a degradação biológica e me surpreendeu bastante esse resultado”, contou ele, que pretende fazer Ciência da Computação e, quem sabe, atuar em bioinformática.

UFMG Jovem

Nós conversamos com o trio de jovens pesquisadores durante a 19ª Edição da feira UFMG Jovem de ciências e tecnologia da Educação Básica.

O evento é promovido pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) desde 1999, com a participação de escolas públicas e privadas do Estado.

O tema de 2018 foi Ciência, tecnologia e matemática para o bem comum.

Clique aqui e confira os projetos premiados.