Quando a gente nasce, nosso corpo é pequeno, assim como nossos órgãos.

Mas, além da diferença de tamanho, existem diferenças na função e no modo como eles contribuem para o bom funcionamento do nosso organismo ao longo da vida.

Para entender melhor esses mecanismos do nosso corpo, a gente conversou com Gustavo Menezes, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que explicou melhor essa história.

Ele se dedica ao estudo do fígado em laboratório, pesquisando as diferenças entre o fígado de bebês recém-nascidos e de pessoas adultas, por exemplo.

O professor Gustavo Menezes em seu laboratório, na UFMG

O professor Gustavo Menezes em seu laboratório, na UFMG

Oi professor Gustavo! Conta pra gente: sobre o que é sua pesquisa?

Ilustração com a posição do fígado, do estômago e dos intestinos no corpo humano / Pixabay

Ilustração com a posição do fígado, do estômago e dos intestinos no corpo humano / Pixabay

Aqui no laboratório a gente trabalha com todos os órgãos que são importantes para que você consiga digerir e aproveitar o alimento que consome.

Os pesquisadores querem entender como seu sistema digestório funciona.

Atualmente, a gente tem estudado, especificamente, um órgão muito importante nesse trajeto, que é o fígado. O fígado está posicionado entre o intestino e o coração e é muito importante para a circulação do sangue.

Quando você se alimenta, a comida entra pela boca, passa pelo estômago, vai para o intestino, e o fígado é como se fosse um policiamento de todo alimento que você ingere, ele controla o que é bom e é ruim.

Por exemplo, a comida não pode chegar direto no seu coração, no seu pulmão, no seu cérebro, ela tem que ser modificada para que esses órgãos tenham acesso ao que você se alimenta. Então, o estômago e o intestino fazem uma parte, que é a digestão inicial e a absorção, a captura do que você precisa desses alimentos.

E qual é a contribuição do fígado?

Ele é como se fosse uma grande usina que processa tudo o que você se alimenta.

Desse modo, ele consegue entregar pacotinhos de alimentos para órgãos diferentes, de acordo com o que cada um precisa.

Esses pacotinhos não são “mini pedaços” do que você comeu, eles são produtos do que você comeu, modificados para que os seus órgãos recebam o que você se alimentou com a melhor qualidade possível.

Aqui no laboratório a gente trabalha para entender esse processo: como que o fígado faz isso?

Mas tem outra coisa muito interessante que o fígado faz também, que é parte do sucesso de sua alimentação, que é garantir que você não vai reagir de maneira errada ao alimento.

Pode dar um exemplo?

Há pessoas que têm alergias alimentares. Tomam leite e passam mal, comem camarão e passam mal, comem amendoim e passam mal.

Isso é muito ruim porque não tem muito tratamento, às vezes a pessoa tem que deixar de comer uma coisa que ela gosta.

Isso acontece porque um outro sistema importante do nosso corpo, que é o sistema imunológico, passa a estranhar essas coisas. Você come e, ao invés de ficar bem, você passa mal, porque o seu sistema imunológico está tendo uma reação errada àquele alimento.

Um dos principais órgãos em que essa interação entre alimento e sistema imunológico acontece é no intestino, mas também no fígado. Então, o fígado, além de ser essa grande usina que faz o que a gente chama de metabolismo dos alimentos, é também um órgão muito cheio de células do sistema imunológico que, por estarem em um órgão depois do sistema digestório, faz com que os alimentos passem por uma espécie de “alfândega do corpo”.

Ao invés de ter guardas, o fígado tem células do sistema imune, que vão entender o que é aquele alimento e deixar passar só o que é bom.

Que tipo de coisa que o fígado “barra” nessa etapa?

Se, por acaso, um microorganismo oportunista tiver se aproveitado do alimento, entrado no seu corpo para ganhar a circulação sanguínea, o fígado captura esse microorganismo, remove essa informação que pode fazer mal ao seu corpo.

Eu digo que o fígado tem essa dupla personalidade: metabólica, de processar, empacotar e modificar o que você comeu para que outros órgãos tenham proveito disso, mas também essa “alfândega imunológica”, que protege seu corpo de ameaças externas.

Tão importante quanto você se alimentar é você tolerar, aceitar o alimento que ingeriu. De nada adianta se você se alimentar e passar mal com o que você comeu.

Muita gente só conhece o fígado como importante para essa primeira etapa, a metabólica, né?

Sim, o fígado sempre foi colocado para as pessoas como o órgão do metabolismo.

Só que nosso trabalho aqui tem mostrado que o fígado tem funções completamente diferentes em recém-nascidos, crianças e adultos, e que a função imunológica é muito, muito importante!

Legal! Conta pra gente: qual a diferença entre o fígado do recém-nascido e das crianças e adultos?

Antes de nascer, quando a gente está na gestação, na fase que chamamos de embriogênese, um dos primeiros órgãos imunológicos que se desenvolvem é o fígado.

Naquele momento intra-uterino, quando ainda estamos na barriga da mãe, o alimento vem do cordão umbilical, o que a mamãe come já chega metabolizado pra gente.

Então, o fígado pode ser “só” um órgão imunológico?

Aí fizemos uma pergunta foi: considerando que o recém-nascido passa por desafios gigantes quando ele sai da barriga da mãe e tem que encarar esse mundo, é muito importante que esse órgão imunológico vire depois um órgão adulto. Como é que ele faz isso?

A pergunta parece muito óbvia, mas não tinha resposta. Então nós fizemos o seguinte: estudamos em camundongos como isso acontece com eles, desde que estão na barriga da mamãe-camundongo, até se tornarem adultos.

A gente chama isso de “modelos animais” na pesquisa, e isso só é possível porque o camundongo tem uma similaridade muito grande com o ser humano, pode acreditar.

Modelos animais, como os camundongos, são importantes para indicar avanços na ciência / Imagem via Pixabay

Modelos animais, como os camundongos, são importantes para indicar avanços na ciência / Imagem via Pixabay

E como foi essa pesquisa com os camundongos?

A gente vigiava os recém-nascidos nascerem e acompanhamos a vidinha deles até 8 semanas, que é quando um camundongo é um adulto, de fato.

Fizemos várias análises, desde número de células, qualidade de células, quais células estavam lá, onde elas estavam dentro do fígado…

Percebemos que por um período longo da vida do camundongo, as funções metabólicas que vemos nos adultos não estavam funcionando nas crianças, porque o órgão era governado por células imunes.

Com o tempo, a gente viu que com duas ou três semanas de vida, imunologicamente o camundongo mudou muito e, metabolicamente, já era praticamente igual a um adulto.

Mas por que duas ou três semanas de vida? É exatamente quando ele desmamou, ou seja, parou de se alimentar do leite da mãe.

Quando um bebê para de mamar na mãe, ele encara o segundo grande desafio da vida dele: o nutricional. O primeiro desafio é nascer e viver nesse mundo, sobreviver, por isso o sistema imunológico é tão importante para recém-nascidos. O segundo desafio é começar a comer sozinho.

E o mesmo acontece com seres humanos?

Sim! Nesse período inicial da vida, o bebê tem a mãe para dar o leite. Então, o fígado pode fazer outras funções, ser o seu principal órgão imune no início da sua vida.

Isso acontece porque ninguém nasce 100% formado: todo bebê tem ainda um tempo fora da barriga da mãe para poder se adaptar ao ambiente.

Por isso a amamentação é tão importante nos primeiros meses, certo?

Sim! E sabe por que isso é verdade? Se eu pegar um animal, recém-nascido, e desmamar ele antes da hora mais adequada, tudo muda no fígado, e pode mudar outras coisas no organismo dele também. Até os genes podem mudar. É como se você acelerasse o órgão, para que ele mudasse mais rápido.

Quais as consequências para a nossa saúde?

Um dos principais desafios da humanidade, ao longo da nossa história foi sobreviver a infecções e se alimentar.

Hoje, nós temos problemas de fome e de obesidade no mundo inteiro, além de doenças como diabetes, que podem ser causadas por problemas no amadurecimento do fígado que explicamos.

A obesidade e a diabetes não aparecem só quando a gente se torna adulto, são doenças que estão relacionadas ao nosso histórico de saúde desde a barriga da nossa mãe.

Por isso é tão importante se alimentar bem, sentar e comer com atenção, escolher comidas saudáveis e nutritivas.

Clique aqui e leia a pesquisa completa do professor Gustavo e sua equipe

(em inglês).

Em breve, na Minas Faz Ciência Infantil, você vai poder ler uma reportagem completa sobre doação de órgãos! Aqui vai um trecho:

O professor Gustavo também nos contou que o fígado é um dos órgãos que pode ser doado com a pessoa ainda viva, pois mesmo um pedaço pequeno, equivalente a 30% do tamanho total do órgão, se regenera:

“Se você doa um pedaço do seu para uma pessoa, ele cresce e fica do tamanho que o outro órgão era, originalmente. E acontece também, às vezes, se você tem uma doença no fígado, de tirar 70% dele e ele volta ao normal depois”.

No entanto, as pesquisas do professor Gustavo vão ajudar a entender uma questão um pouco mais complicada: o que acontece se eu colocar um pedaço de fígado adulto no corpo de uma criança, por exemplo?

“A gente ainda não sabe todos os impactos que isso pode gerar, mas as nossas pesquisas vão ajudar a compreender esse processo e até melhorar a doação desse órgão. Quer ver uma coisa curiosa? Se você doa um rim, por exemplo, você corre o risco de ter rejeição. Mas se você doa o rim e o fígado juntos, a rejeição é muito menor. É como se o fígado aumentasse a sua tolerância imunológica a outros transplantes. Isso está muito bem documentado na literatura especializada, e a explicação é de que você leva um pacote: o sistema imune vai junto com o fígado para a outra pessoa, aumentando as chances de aceitação do novo órgão”.

O professor Gustavo em seu laboratório. Reparou na guitarra ali no canto? ;)

O professor Gustavo em seu laboratório. Reparou na guitarra ali no canto? 😉