Essa é a Clara, nossa pesquisadora!

Essa é a Clara, nossa pesquisadora!

Algum dia na vida você já pensou em ser pesquisador? E se você pudesse escolher essa profissão, mas ainda trabalhar com brinquedos!?

Nas pesquisas em design, isso é possível! Conversamos com a pesquisadora Clara Lins, que faz mestrado na Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (ED-UEMG), para saber mais sobre como esses temas se encontram nos estudos científicos.

Clara se dedica a uma pesquisa que investiga como os brinquedos podem ganhar novos significados e contribuir para mudanças na maneira como nós lidamos com o diferente.

Ela estuda temas como inclusão e diversidade a partir de exemplos de bonecas e brinquedos com diferentes tipos de deficiência!

Confira a entrevista!

MFC: Clara, conta pra gente sobre seu interesse nos brinquedos.

Clara Lins: Meu interesse pelos brinquedos veio das minhas vivências pessoais na infância. Brincar era sempre um momento em que eu e meus irmãos nos uníamos com vizinhos e primos para jogar vídeo-game ou brincar na rua.

A experiência que eu tenho com os brinquedos é de compartilhamento, solidariedade e outros valores, que vão além do objeto em si.

Durante minha vida acadêmica, ainda na graduação, fiz iniciação científica junto com a professora Rita Ribeiro. Todos os estudos eram ligados ao tema da diversidade e inclusão social. E, assim, fui me aproximando cada vez mais dos temas da infância.

MFC: Por que decidiu estudar no mestrado o design para a diversidade social?

O tema da pesquisa de mestrado me ocorreu quase nas vésperas da minha inscrição para o processo seletivo. Deparei-me com um cadeirante tentando atravessar o sinal na Avenida Antônio Carlos e eu não consegui oferecer ajuda. A maioria das pessoas não consegue oferecer ajuda nessas situações. Por algum motivo, a gente sempre torce para que alguém tenha mais iniciativa do que você. Sentimos um pesar e um desconforto enormes por não conseguir oferecer nenhum tipo de assistência. Eu comecei a me questionar o porquê disso. Por que não somos criados para levar as diversidades com naturalidade e leveza? Por que ajudar uma pessoa com deficiência na rua não é um instinto natural nosso?

A maioria das nossas dificuldades e habilidades sociais vêm de questões que são mal trabalhadas na infância. A minha intenção com a pesquisa é pensar como, desde crianças, podemos assimilar conceitos sobre inclusão e diversidade de maneira leve, branda, por meio dos brinquedos, por exemplo.

Dessa forma, contribuímos para que não só as crianças com deficiências físicas, mas também aquelas que sofrem com qualquer tipo de exclusão, seja por suas condições econômicas, sociais, seja por sua etnia ou sua cultura,  sintam-se incluídas do processo de convivência social e devidamente respeitadas.

O brinquedo é uma ferramenta poderosa de comunicação e compartilhamento para tratar dos temas da inclusão e diversidade social.

MFC: Como está sendo desenvolvido o projeto? Ele é um estudo mais teórico ou você desenvolve protótipos desses brinquedos?

A pesquisa, inicialmente, teria um caráter prático. Eu queria desenvolver protótipos para investigar a forma como a inclusão se daria a partir dos brinquedos. Mas, como o tempo da pesquisa de mestrado é curto (apenas dois anos), deixamos essa proposta para um outro momento…

Mas a boa notícia é que já existem projetos muito relevantes sobre o tema e achamos que seria bacana ir ao encontro deles e pesquisar. Por exemplo, procurei algumas empresas e iniciativas que dialogam com a inclusãoe um estudo de caso muito pertinente é a Tina Descolada (foto abaixo).

Tina Descolada em sua cadeira de rodas

Tina Descolada em sua cadeira de rodas

A Tina Descolada surgiu dentro do consultório da psicóloga Marta Alencar, que trabalhou durante 22 anos na Associação Mineira de Reabilitação (AMR), situada em Belo Horizonte. As crianças que estão na AMR são crianças que tem algum tipo de deficiência física. A Drª Marta cria a Tina com o objetivo de “espelhar” a deficiência da criança na boneca.

A partir do momento em que a Marta coloca a boneca em uma cadeira de rodas de brinquedo, ela ressignifica a boneca, transmitindo novos símbolos e valores.

É uma iniciativa que eu achei super bacana porque, primeiro, é de Minas Gerais, portanto um exemplo próximo a nós sobre propostas que dialoguem com a inclusão social de crianças com deficiência.

Segundo, é uma iniciativa barata, na qual usa-se uma boneca ou boneco que a criança já tem para ressignificá-lo. Terceiro, a Marta abrange a questão da inclusão em bonecos diferentes. Por exemplo, no acervo de brinquedos que a Dra. Marta tem, ela propõe o Homem-Aranha cadeirante. E por que não?

Nessa história, o Homem-Aranha passa a ser cadeirante depois de um acidente. Como ele irá lidar com a nova situação? É uma maneira interessante de mostrar que todos nós, sem exceção, estamos suscetíveis a adquirir algum tipo de deficiência, seja por um acidente ou por uma doença.

A Tina e seus amigos são aventureiros, gostam de viajar, praticar alguns esportes radicais. Assim, a ressignificação desses brinquedos pode mudar a percepção da deficiência, quebrar paradigmas sociais. É possível fazer atividades que as outras pessoas fazem, embora, às vezes, de uma maneira diferente. Obviamente, não se deveria ver problema algum nisso!

Bonecas da empresa britânica Makielab, que fazem parte da campanha social “Toys like Me”. Você pode montar seu brinquedo pelo site conforme a sua necessidade e deficiência.

Bonecas da empresa britânica Makielab, que fazem parte da campanha social “Toys like Me”. Você pode montar seu brinquedo pelo site conforme a sua necessidade e deficiência, mudar o tipo de cabelo, tom de pele e cor dos olhos, além de incluir acessórios como muleta, óculos, andador, aparelho auditivo…

MFC: Por que é importante ressignificar os brinquedos?

A ressignificação de objetos vai muito além de criar novos perfis. É dar um novo sentido ao objeto alterando seu conceito, percepção, interpretação original e os modos como aquele objeto irá repercutir no imaginário daqueles que fazem seu uso.

A maioria dos brinquedos são estereotipados, acabam transmitindo valores superficiais e estéticos, induzindo à exclusão. As bonecas Barbie, por exemplo, já foram um exemplo clássico de valorização exagerada de estereótipos que cultuavam mulheres de cabelos longos lisos e loiros, olhos azuis e magra.

Hoje, a empresa fabricante, a Mattel, lança mão de novas Barbies, que têm vários formatos de corpo, novas cores de pele e cabelo.

Usando esses novos elementos, a ressignificação pode construir brinquedos que promovem melhorias na autoestima das crianças com deficiências e que dialoguem com a diversidade existente entre elas.

Nova coleção de bonecas Barbie, lançadas em 28 de janeiro de 2016, para promoção da diversidade.

Nova coleção de bonecas Barbie, lançadas em 28 de janeiro de 2016, para promoção da diversidade.

MFC: Como o design contribui nesse processo?

O pensamento em design constrói objetos que vão muito além das suas formas e cores, transmitindo uma linguagem que passa por valores simbólicos e emotivos.

O mundo que nos cerca, os objetos que portamos, as nossas preferências de consumo, estilo de vida, tudo se traduz no indivíduo que queremos ser e mostrar socialmente.

No universo infantil, acontece a mesma coisa. As crianças portam diversos objetos no dia a dia que dialogam com o mundo que as cerca, falam sobre sua personalidade individual e gostos.

O brinquedo tem o papel de promover a brincadeira mas também pode transpôr as experiências do mundo imaginativo da criança para o mundo real.

O design tem papel fundamental na construção desse imaginário e ele pode ser utilizado também como uma ferramenta para promover a inclusão social de crianças com deficiência física.

MFC: O que seu projeto de pesquisa já descobriu até o momento que você pode compartilhar com os leitores da Minas Faz Ciência?

Os brinquedos são ótimos para iniciar diálogos inclusivos, melhorar a autoestima das crianças com deficiência e a compreensão da criança sem deficiência sobre as diversidades dos seres humanos.

Há uma frase, de que gosto muito, de uma cantora e modelo chamada Viktoria Modesta, que nasceu com um problema que foi negligenciado pelos médicos e culminou na amputação da sua perna esquerda aos 20 anos de idade. Ela diz o seguinte:

“Alguns de nós nasceram para ser diferentes”.

Não há diferença a ser superada, mas, sim, dialogada e, cada vez mais, respeitada. Afinal, não tem absolutamente nada de errado em ser diferente já que também não somos absolutamente iguais.

Ou seja, não deveria existir estranhamento nas diferenças já que todos nós temos algo que diverge do outro, a diferença é inerente à natureza humana. O mesmo acontece com as semelhanças que ocasionalmente existem entre nós.

A Viktoria hoje tem suas próteses como verdadeiras obras de artes e conseguiu entrar em um dos mercados mais difíceis, segundo ela, quando se trata de deficiência física, o mercado pop.

A modelo Viktoria

A modelo Viktoria

Siga a Tina Descolada na internet: