Quando você vê uma tatuagem no corpo de uma pessoa, tem curiosidade para saber sobre o desenho? Por que essa pessoa resolveu tatuar? Se doeu? Qual o significado?

Essa curiosidade é transformada em pesquisas por estudiosos como o professor Martin Dinter, do King’s College London. Ele conversou com o Minas Faz Ciência sobre um estudo que orientou em Londres, feito pela pesquisadora Astrid Khoo – ela mesma, uma apreciadora das tatuagens bem tatuada! 🙂

Conheça os diferentes sentidos que os povos da Antiguidades atribuíam às tatuagens.

Múmias tatuadas

As tatuagens são uma expressão muito, muito antiga da Humanidade. Há registros de múmias egípcias de centenas de anos que tinham desenhos tatuados em seus corpos. Em alguns casos, só foi possível identificar essas tatuagens com equipamentos de tecnologia avançada e, mesmo assim, foram confirmados apenas desenhos simples.

Mas existem casos de múmias da Sibéria cuja pele foi preservada pelo gelo. Elas apresentam tatuagens super complexas, com desenhos elaborados e artísticos que podem ser comparados às tatuagens modernas que vemos nas pessoas hoje. Essas tatuagens siberianas têm mais de 2000 anos!

Os citas, um antigo povo iraniano de pastores nômades, eram muito tatuados. Os citas estavam fortemente tatuados. Esses desenhos descrevem as tatuagens da frente e das costas de um homem cita: braço fechado, tatuagens de bezerro e alguns pontos na coluna. Imagem: British Museum / Reprodução

British Museum / Reprodução.

Os citas, um antigo povo iraniano de pastores nômades, eram muito tatuados. O desenho à esquerda representa as tatuagens da frente e das costas de um homem cita: braço fechado, desenho de bezerro e alguns pontos na coluna.

Egípcios já tinham cuidados médicos pós-tatuagem

Os egípcios sabiam que era preciso cuidar das tatuagens após o desenho, para que o local não inflamasse, nem tivesse abcessos e causasse lesões graves na pele.

Eles também tinham tatuagens femininas, conhecidas como “tatuagens de fertilidade”, pois seguiam as linhas naturais do corpo feminino, como no desenho abaixo, na região pélvica. Conforme a barriga crescia com a gravidez, os pontos tatuados também cresciam.

O desenho foi feito por Colette Standish, para representar como eram as tatuagens abdominais encontradas em uma múmia do segundo milênio a.C. (Dinastia XI).

Imagem desenhada por Colette Standish. Reprodução do Papers from the Institute of Archaeology .

Imagem desenhada por Colette Standish. Reprodução do Papers from the Institute of Archaeology .

Tatuagem para escravos e ladrões

Para os gregos e romanos, tatuagens tinham significado negativo e eram feitas como punição. Homens eram tatuados para serem marcados como escravos e ladrões.

Quando os escravos fugiam, essas marcas impediam que eles tivessem uma vida como ‘homens livres’, pois tinham em suas peles os registros de fugitivos.

Remoção de tatuagem entre os gregos

Justamente por terem um sentido tão negativo para as tatuagens, os gregos desenvolveram técnicas de remoção dos desenhos da pele. Quando, eventualmente, um escravo se tornava um homem livre, ele precisava remover a tatuagem para ser respeitado na sociedade grega.

A técnica era dolorosa e consistia em criar ferimentos por cima dos desenhos, deixá-los infeccionar e remover a pele morta e necrosada, o que deixava grandes cicatrizes.

Cristãos e a tatuagem da cruz

Quando eram perseguidos, os cristãos eram punidos com tatuagens de cruz, para serem facilmente identificados. Depois, os próprios cristãos ressignificaram essa prática e passaram a tatuar a cruz como um símbolo que os unia em torno da figura de Jesus Cristo.

Os judeus, por sua vez, não eram a favor das tatuagens. De acordo com a tradição, o livro Levítico proíbe as tatuagens pois elas eram usadas para marcar escravos e pessoas que não eram aceitas na sociedade.

Mensagens secretas tatuadas

Essa é uma história curiosa: há um conto sobre o rei Histiacus, que teria enviado uma mensagem tatuada no couro cabeludo de seu escravo, para que ela não fosse interceptada por ninguém.

Nessa história, a tatuagem se transforma não em um ato de punição, nem de embelezamento do corpo, mas em um ato de escrita!

O rei teve o cuidado de raspar a cabeça de seu escravo, tatuar a mensagem enigmática, deixar o cabelo do escravo crescer e só então enviá-lo para seu destino, com a ordem de ter seus cabelos novamente raspados ao chegar, garantindo que a mensagem pudesse ser lida.

Além da tatuagem, os trácios também eram famosos por suas proezas militares. Na imagem, uma mulher trácia, com tatuagens no pescoço, antebraço direito e peito de cada pé, mata Orfeu com uma lança. British Museum/ Reprodução

British Museum/ Reprodução

Além de ter tatuagem, os trácios, um povo antigo indo-europeu, também eram famosos por suas proezas militares.

Na imagem à esquerda, uma mulher trácia, com tatuagens no pescoço, antebraço direito e peito de cada pé, mata Orfeu com uma lança.

O que aprendemos sobre as tatuagens?

O professor Martin em foto do Kings College London / Reprodução

O professor Martin em foto do King’s College London / Reprodução

Os estudos do professor Martin Dinter nos mostram que tatuagens são marcas permanentes que, na Antiguidade, oscilam entre punição e sinal de honra, embelezamento e misticismo, cumprindo funções jurídicas, religiosas e estéticas.

A prática da tatuagem sempre foi carregada de preconceitos culturais, com desaprovação e má interpretação de suas práticas, mas hoje é reconhecida como arte e importante fonte de informação sobre os povos da Antiguidade.

O professor Martin veio à UFMG para participar das Jornadas de Retórica e Argumentação, um evento promovido pelo Grupo de Pesquisa Retórica e Argumentação.

Quem o recebeu em Belo Horizonte foram as professoras Maria Cecília de Miranda Nogueira Coelho (Presidente da Associação Latino-Americana de Retórica), do PPGFIL/FAFICH, e Helcira Maria Rodrigues de Lima (Presidente da Sociedade Brasileira de Retórica), do POSLIN/FALE, coordenadoras do evento.