Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade)

Foto: Divulgação Memorial Carlos Drummond de Andrade

Foto: Divulgação Memorial Carlos Drummond de Andrade

Literatura e ciência parecem áreas bem distintas, certo? No entanto, podem estar conectadas para ajudar a ampliar nossos saberes. Desde 2014, na Universidade Federal de Itajubá (Unifei), campus Itabira, existe o projeto Poesia e Ciência, cuja proposta é mostrar para as crianças conceitos científicos nos poemas de Carlos Drummond de Andrade.

E quem foi este grande escritor? Um mineiro nascido em Itabira que marcou a história da literatura brasileira com poemas, contos e crônicas. Foi um dos principais escritores do modernismo em nosso país e morreu em 1987. No dia 31 de outubro de 2017, foi lembrando o aniversário de 115 anos de Drummond.

O projeto Poesia e Ciência é desenvolvido pelo professor de física da Unifei, Márcio Tsuyoshi Yasuda, e pela coordenadora do Memorial Carlos Drummond de Andrade, Solange Alvarenga. O objetivo é despertar em estudantes do ensino fundamental o interesse pela literatura, especialmente pelas obras do poeta.

No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Carlos Drummond de Andrade)

Desde a primeira edição do projeto, cerca de mil alunos de diversas escolas de Itabira já participaram da iniciativa. Eles tiveram a chance de conhecer textos de Drummond junto com conceitos científicos. Mas, como assim as duas coisas juntas?

Conexões de Saberes

As atividades acontecem dentro do memorial. Os estudantes são recebidos para uma breve apresentação do projeto. Em seguida, a equipe do memorial recita o poema a ser trabalhado, fazendo a contextualização literária e histórica da obra. Por fim, os alunos do curso de física da Unifei tratam de explicar os fenômenos físicos descritos nos poemas e exemplificá-los por meio de experimentos.

O projeto Poesia e Ciência está aberto a toda comunidade de Itabira e região. As escolas interessadas em participar devem entrar em contato pelo telefone 3835-2156 ou pelo e-mail memorialcdaitabira@gmail.com

Foto: Divulgação Memorial Carlos Drummond de Andrade

Foto: Divulgação Memorial Carlos Drummond de Andrade

Monteiro Lobato

Aqui na Minas Faz Ciência a gente também ama poesia. Nossa revista infantil, que será publicada esta semana, traz uma brincadeira parecida com o projeto Poesia e Ciência, porém identificando a ciência nas histórias e personagens de Monteiro Lobato. Fique ligado aqui no site, porque a revista estará disponível em breve!

Canção Final

Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.

(Carlos Drummond de Andrade)