Antes que seja tarde

Em "Ideias para adiar o fim do mundo", Ailton Krenak analisa a (in)delicada relação do homem contemporâneo com a natureza


Publicado em 27/02/2020 às 08:00 | Por Maurício Guilherme Silva Jr

Foto: Maurício Guilherme Silva Jr.

O provocativo título deste pequenino (porém, imenso) livro cumpre, com sabedoria, seu intuito acolhedor: revelar, mesmo ao mais desavisado dos leitores, os múltiplos entrelaçamentos entre o ser humano, a natureza, o tempo, a vida.

De modo poético, Ailton Krenak, um dos mais importantes pensadores indígenas do país – que, recentemente, entrevistado pela revista literária Olympio, de Belo Horizonte –, redefine sentimentos há muito esquecidos por urbanoides inveterados. De maneira singela, afinal, o autor reconfigura o que, cotidianamente, muitos de nós consideramos realidade estabelecida”.

A obra reúne três conferências de Krenak, realizadas em cidades e momentos distintos: “Ideias para adiar o fim do mundo”; “Do sonho da terra”; e “A humanidade que pensamos ser”. Em tal tríade de movimentos, o Antropoceno – período em que seres humanos passam a substituir a natureza como força ambiental dominante na Terra – é, detalhadamente, posto contra a parede.

Com integridade e sensibilidade ímpares, cada texto revela tudo aquilo que nos é urgente – posto que, diante do recrudescimento do consumo, da intolerância, e do autoritarismo, , em diversos pontos do planeta, não teremos tempo, mesmo, para “pagarmos” de imortais.

Trecho

“Nosso tempo é especialista em produzir ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar e de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta e faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim do mundo. É importante viver a experiência da nossa própria circulação pelo mundo, não como uma metáfora, mas como fricção, poder contar uns com os outros”.

O livro

Livro: Ideias para adiar o fim do mundo
Autor: Ailton Krenak
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 88
Ano: 2019

 

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