Abelhas nativas de Minas Gerais: quais são e onde vivem?

Na Funed, pesquisas avaliam qualidade dos produtos de abelhas, como mel, pólen, própolis e geleia real


Publicado em 18/02/2020 às 07:00 | Por Verônica Soares

Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

Quais são as abelhas nativas de Minas Gerais? Elas estão em risco de extinção?

Antes de responder a essas perguntas, é preciso esclarecer uma questão muito importante: a maior parte das abelhas que existem em Minas Gerais não são exclusivas daqui.

“A questão da regionalização não cabe para abelhas porque elas não se limitam aos recortes geográficos do mapa”, explica Paula de Souza São Thiago Calaça, Analista e Pesquisadora em Saúde e Tecnologia do Serviço de Recursos Vegetais e Opoterápicos da Fundação Ezequiel Dias (Funed).

A presença das abelhas está sempre ligada a um tipo de vegetação e a certas condições climáticas. Por isso, as “abelhas mineiras” existem também em outros estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

“Chamamos isso de região de distribuição de cada espécie. Cada abelha tem a sua região de ocorrência e dificilmente a distribuição é limitada às fronteiras estaduais”, reforça Paula Calaça.

Então, quais são as abelhas nativas de Minas Gerais?

Em Minas Gerais, há um amplo número de espécies de abelhas nativas sem ferrão, conhecidas como meliponíneos ou abelhas indígenas, que ocorrem naturalmente dentro do Estado e também são criadas em meliponários, locais onde estas abelhas nativas são criadas em caixas.

Conheça espécies de abelhas sem ferrão que ocorrem naturalmente em Minas Gerais e que são criadas em meliponários:

Via.

Há também o que chamamos de espécies de endêmicas, aquelas que têm uma distribuição restrita a alguns tipos de vegetação, ou seja, que existem somente em determinados lugares, que têm características específicas, como em regiões da Serra do Espinhaço, por exemplo.

“Nestes campos de altitude, há diversas espécies de abelhas endêmicas, em sua maioria espécies de abelhas solitárias, ou seja, que não formam colônias e não produzem mel, mas que são importantíssimas como polinizadoras de espécies de plantas nativas”, explica a pesquisadora.

Conservação e extinção

No Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, do Instituto Chico Mendes, publicado em 2018, há 209 espécies de abelhas brasileiras listadas. Apenas cinco são consideradas ameaçadas de extinção e 204 foram classificadas como pouco preocupantes ou quase ameaçadas.

Das espécies de abelhas ameaçadas de extinção, apenas ocorre em Minas Gerais aquela que é popularmente chamada de uruçu-amarela, tujuba, tuiúva ou tujuva (foto).

São abelhas sociais, pouco defensivas, que não têm ferrão e seu comportamento de defesa é mordiscar a pele.

Operária de Melipona rufiventris sobre um pote de mel. Crédito: Tom Wesenleers

Os ninhos dessas abelhas são construídos em ocos de árvores e a espécie está presente em diversos estados das regiões sul e sudeste (BA, ES, GO, MG, PR, RJ, SC e SP).

Elas armazenam seu alimento em potes de mel separadamente dos potes de pólen, diferentemente das abelhas africanizadas, que depositam o alimento nos favos verticais.

Abelha rainha sobre células de cria. Créditos: Tom Wesenleers

A conservação de espécies ameaçadas de extinção passa pela conservação da vegetação, que é a fonte de alimento e de locais para a construção de ninhos por estas abelhas.

Mas há outros motivos para a conservação das espécies de abelha e das regiões onde vivem e as razões são econômicas ou estão ligadas à manutenção de práticas socioculturais.

Pesquisas: das abelhas aos produtos

Na Funed, há pesquisas relacionadas à avaliação da qualidade dos produtos das abelhas, principalmente o mel, mas também pólen, própolis e geleia real.

“Nossos estudos visam um maior e melhor entendimento da qualidade, das propriedades e da origem dos produtos das abelhas que serão consumidos pela população, com foco em segurança alimentar e compreensão da relação das abelhas com o meio ambiente. O resultado destes estudo levam à tipificação do mel, uma de nossas linhas de pesquisa”, relata a pesquisadora Paula Calaça.

Ela faz um paralelo das perspectivas do trabalho feito com os produtos das abelhas com os tradicionais mercados do queijo e do vinho, por exemplo:

“Quando temos um produto regional, como mel de aroeira, que vem de uma determinada planta, as pesquisas que demonstram suas características únicas fornecem embasamento científico para a obtenção, pelos produtores, de um selo que garante sua autenticidade, valorizando-o e contribuindo para que aquela produção se reverta em benefícios sociais para a comunidade que sobrevive desse trabalho, além de reforçar a necessidade de conservação da vegetação e das abelhas”.

Por que devemos pesquisar sobre as abelhas?

“Conhecer e valorizar a origem botânica do mel produzido por diferentes abelhas abre um campo enorme de atuação em relação à pesquisa e a conservação de abelhas em Minas Gerais. O mel pode ter muitos produtos derivados e sua origem deve ser valorizada” – Paula Calaça.

Estruturas do interior do ninho de Melipona rufiventris, mostrando a região dos discos de cria e dos potes de alimento.

No processo de tipificação do mel, as pesquisadoras da Funed buscam entender o fluxo produtivo como um todo, conhecendo as plantas que são fornecedoras de néctar para elaboração do mel pelas abelhas até as características de trabalho dos apicultores.

Também são feitas análises físico-químicas do mel para identificar e quantificar substâncias presentes no produto final. Ao conhecer esse processo do início ao fim, é possível valorizar o mel a partir de sua origem botânica e de características exclusivas de produção.

“Há, no Brasil, uma grande diversidade de tipos de mel, como mel de eucalipto, de assa-peixe, de canela, de aroeira, que são comercializados em grande parte como mel silvestre, ou seja, uma mistura do néctar de diversas plantas de origem. Se tivéssemos selos e certificações que mostrassem a autenticidade e a particularidade de cada um desses méis, seja ele originado de determinada espécie de planta, vegetação ou produzido por comunidades específicas de apicultores ou por determinadas espécies de abelhas, o mel poderia ser um produto de alto valor agregado em muitos mercados”, pontua Paula.

Quero criar abelhas! Como faço?

A criação de abelhas nativas em meliponários (meliponicultura) é uma atividade que deve ser registrada junto aos órgãos governamentais (Ibama e Ministério do Meio Ambiente) de acordo com a finalidade e o número de caixas que o produtor pretende ter.

Há diferentes normas e legislações para diferentes finalidades do meliponário, por exemplo pesquisa, educação ambiental ou criação comercial. Há, ainda, a possibilidade de ter uma única caixa de abelhas para consumo próprio de mel sem finalidade comercial.

Leia sobre o processo de criação de abelhas no site da Embrapa.

*Esta reportagem foi uma sugestão de um de nossos leitores. Envie a sua pelas mídias sociais @minasfazciencia ou pelo email mfcfapemig[@]gmail.com.
Tags

Artigos Relacionados