Necropapiloscopia é modernizada e ajuda a identificar vítimas em Brumadinho

Desde 2016, Aldeir José da Silva trabalha na adaptação de técnicas para identificação de corpos em situações especiais


Publicado em 06/02/2020 às 08:00 | Por Mariana Alencar

Técnico da UFMG moderniza métodos de reconhecimento de cadáveres (Arquivo pessoal)

O rompimento da Barragem 1 da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), despejou 12,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos na população daquela cidade. Até o momento, foram confirmadas 259 mortes, mas outras 11 pessoas seguem desaparecidas.

Desde que a tragédia aconteceu, em 25 de janeiro de 2019, o Instituto Médico Legal (IML), em parceria com a Polícia Civil  e com o Corpo de Bombeiros, trabalha na busca e no reconhecimento dos corpos das vítimas.

Uma das técnicas utilizadas neste processo é a necropapiloscopia. Trata-se de um método já consolidado na literatura, mas existiam limitações no uso pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG). A implementação das técnicas passou a acontecer a partir de 2016, devido a parceria institucional entre IML e a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“Resolvemos implementar algumas técnicas de necropapiloscopia que já haviam sido descritas na literatura. Mas foi preciso que elas fossem testadas e adaptadas. Apensar de serem bem descritas, as técnicas precisam ser adequadas. Foi isso que fizemos. Essa adaptação foi essencial para o reconhecimento dos cadáveres das vítimas de Brumadinho”, explica Aldeir José da Silva, técnico em anatomia e necropsia da Faculdade de Medicina da UFMG.

Modelo adaptado

A necropapiloscopia é um conjunto de técnicas que permite o reconhecimento do cadáver a partir da impressão digital. Aldeir explica que existem diversas formas para  identificação das digitais, mas, dependendo do estado do corpo, elas precisam ser modificadas para que sejam mais efetivas.

Uma das formas utilizadas e adaptadas para a identificação dos corpos das vítimas de Brumadinho foi a impressão digital com molde de silicone de alta performance associado à fotografia digital . Aldeir narra que a partir disso foi possível reconhecer um cadáver de 268 dias que estava desaparecido em meio os rejeitos, algo difícil de ser feito com outras técnicas, devido ao estado de decomposição do corpo.

“O banco de impressões digitais, resultante de quando fazemos a carteira de identidade, é tratado como banco civil. Geralmente, toda população do Brasil está registrada ali. Isso é conhecido como impressão digital padrão. Já quando estamos em contato com um cadáver desconhecido, chamamos de impressão digital questionada. Utilizamos métodos para identificar essa impressão com qualidade, para que as informações sejam lançadas no banco de dados. Assim, a impressão questionada pode ser comparada à padrão, e a identidade do cadáver é descoberta”, comenta o técnico.

Aldeir conta ainda que há equipamentos que fazem essa leitura e comparação de forma automática, (o “Alhetia”, programa desenvolvido por papiloscopistas da Policia Federal)  mas nem sempre eles são eficientes, devido a degradação do corpo.

Por isso, a adaptação e o domínio das técnicas de necropapiloscopia artesanal foram fundamentais para o reconhecimento dos corpos das vítimas de Brumadinho.

“Misturamos ciência e arte para fazer isso. Precisamos entender de anatomia, de desenho digital e de fotografia, por exemplo”, afirma.

Necropapiloscopia  garante  agilidade

As técnicas adaptadas pelo técnico da UFMG não são usadas apenas no caso Brumadinho. Há três anos, elas são aplicadas amplamente em casos especiais, nos quais há uma dificuldade de reconhecimento das vítimas.

Aldeir explica que, devido ao apoio da Policia Federal em um projeto que se encontra em fase experimental,  o IML consegue liberar o laudo com a identificação do cadáver em até oito horas, mesmo em situações especiais com alta degradação do corpo, como é o caso de Brumadinho.

“Trata-se  da técnica de identificação mais confiável, mais barata e mais rápida. Esse trabalho de identificação também tem uma importância social, pois há casos que a liberação do cadáver tem que ser rápida. Mas tudo isso só é possível hoje devido à parceria entre UFMG, IML, Polícia Civil e a Policia Federal “, finaliza.

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