MicrouniVersos | Ao vento…

Penso, logo… decifro as sinapses do pensamento lógico.

Renê abre os olhos, como de praxe, às 6h23. Em sete minutos, a cama se livra de quaisquer dobras e rusgas noturnas. Apesar de dormir com os olhos a beijar o teto, aquele veterano professor de metodologia científica jamais conseguira, madrugada afora, refrear o inútil (e involuntário) vaivém de pernas e pés.

Às 7h35, sai do banho, cujas águas, a 44 graus celsius, garantem-lhe o conforto necessário ao bem-estar da pele. Às 9h40, diante de alunos mobilizados pelo ensurdecedor frenesi de hormônios vivazes, pede silêncio, prudência, concentração.

Às 18h35, com braços paralelos a pressionar o volante, ouve as péssimas novas, segundo a costumeira rádio, no já clássico volume 16. Em meio ao caos da urbe, segue sempre à direita, a 55 km/h, e a três metros do indomável automóvel à sua frente.

Às 19h45, antes de voltar à solidez de seu lar, no décimo andar do edifício Mondrian, nº 1.010, adquire, na padaria Borges, dois pães franceses e cem gramas de presunto.

Às 20h10, não mais existe.

Enquanto virava a chave do portão de entrada, o solitário meteorito Ventura, único a alcançar a atmosfera terrestre em noite de estrelas tradicionais, acaba por alvejar, em rota imprevista, a ovalada caixa craniana de Renê.

Em instantes, as usuais sinapses do pensamento lógico, algo trivial àquele veterano professor de metodologia científica, parecem sublimar-se junto aos movimentos, nada regulares, dos ventos de inverno.

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