Estudo analisa campanha que planta incertezas sobre aquecimento global

A ciência e a opinião pública envolvem controvérsias que fazem parte do processo coletivo de produção de conhecimento. A discussão em torno do aquecimento global é uma delas.

O que talvez não paremos para pensar diz respeito à constatação de que agências de relações públicas, corporações, agentes políticos, cientistas, jornalistas e personalidades midiáticas podem interferir nos rumos das discussões científicas.

Muitas vezes, tais “atores” contam com estratégias concebidas para evitar a formação de consensos e a movimentação de públicos.

Eis o tema da pesquisa de Daniel Reis Silva, na tese “Relações Públicas, Ciência e Opinião: lógicas de influência na produção de (in)certezas”.

O estudo busca compreender a campanha de relações públicas financiada por grandes corporações do setor de energia, e orientada a criar dúvidas sobre a existência do aquecimento global antropogênico.

O pesquisador trabalha com a ideia de “manufatura de incertezas sobre as mudanças climáticas” – a construção social da dúvida – e a tentativa de criar um cenário de ambiguidades, no qual os sujeitos fiquem imobilizados, sem saber como agir ou em quem acreditar.

Daniel Reis destrincha campanhas que buscam, até mesmo, negar a existência das mudanças climáticas.

“Importante compreender que essa campanha não assume a forma de conjunto linear de ações, mas a de um emaranhado de estratégias de influência. Incorpora, por exemplo, a elaboração de falsas petições, a criação de grupos de fachada, para defender pontos de vista, e a confecção de materiais didáticos enviesados, para estudantes do ensino fundamental”, explica.

De acordo com o cientista, a pesquisa vai além da denúncia da existência de tais ações, mas almeja compreender as dinâmicas e lógicas de influência que as conformam.

“Busca-se entender como a dúvida é socialmente engendrada, como a comunicação atua nesse processo e quais as consequências dessas ações, especialmente, na opinião pública e na mobilização de públicos”, afirma.

Para entender as estratégias de influência, o pesquisador mergulhou no universo das incertezas. E acompanhou, em profundidade, um think tank específico, o Heartland Institute, de modo a explorar a participação na rede de criação de dúvidas sobre as mudanças climáticas.

Think tanks: raio-X

Segundo Daniel Reis, os think tanks são ideológicos e operam com financiamento de grupos aparentemente neutros, que servirão como porta-vozes perante a opinião pública.

“A estratégia visa ocultar interesses privados, fazendo com que posicionamentos ganhem força na esfera pública, a partir da ideia de isenção. Assim, ao invés da própria indústria de carvão fazer campanha para defender seu produto, ela cria um grupo de supostos especialistas neutros, que terão, como função, realizar essa defesa, em nome de uma verdade científica ou do interesse público, o ocultar seus interesses financeiros subjacentes”, detalha.

A pesquisa mostra que os think tanks ideológicos estão, atualmente, no centro da campanha de criação de dúvidas sobre as mudanças climáticas.

Além disso, recebem financiamento milionário de corporações e pessoas ligadas à indústria de energia, para atuar enquanto instituições “neutras”.

“Eles contribuem de maneira decisiva para o clima de incerteza, na medida em que dificultam a compreensão sobre quais interesses privados perpassam os posicionamentos envolvidos no debate climático”, ressalta.

Durante a experiência de acompanhamento do think tank Heartland Institute, o desafio para o pesquisador foi desvelar elementos criados para permanecer ocultos.

Segundo Reis, a lógica desses grupos é manter os interesses privados, que os motivam, afastados dos holofotes públicos, sob o risco de perda de influência.

O foco do cientista era estudar as práticas comunicativas dentro do grupo, de maneira a tentar elucidar as lógicas que perpassam suas ações de “manufatura de incertezas”.

Um dos principais achados da pesquisa, de acordo com o especialista, é a forma em rede como atuam os think tanks.

Ao mesmo tempo em que a lógica em rede torna difícil seguir os rastros de cada grupo, ela fortalece suas mensagens, a partir de dinâmica circular, que oculta as origens de cada posicionamento.

“Nesse ponto, o acompanhamento do grupo foi semelhante à construção de um grande quebra-cabeças, no qual cada peça está escondida – e nem todas podem ser encontradas”, esclarece.

Construção social da dúvida em torno do aquecimento global

A pesquisa sinaliza que a ciência é construída, socialmente, a partir de práticas retóricas.

De acordo com Daniel Reis, isso implica o afastamento de visões positivistas, que igualam ciência a uma verdade superior, inata e objetiva.

“Ao contrário de tal visão, em nosso entendimento, o fazer científico é permeado de contradições e processos não lineares de negociação, que abrem espaços para intervenções estratégias diversas, dentre as quais, estão ações de relações públicas”, esclarece.

Mais especificamente sobre mudanças climáticas, o pesquisador apurou que relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) mostram a necessidade de mudanças sem precedentes na vida moderna, com intuito de limitar o aquecimento do planeta, a 1,5º C, até 2052.

“Tais mudanças impactariam radicalmente a vida de todos nós, já que precisaríamos diminuir nossa pegada de carbono, limitar o uso de automóveis e viagens de avião, assim como o consumo de energia, além de alterar a alimentação”, analisa.

Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

Diante de tantas alterações – muitas delas, inconvenientes para o dia a dia –, como podemos apoiar e aceitar tal cenário?

Conforme Daniel Reis, isso só pode ocorrer quando houver certeza de que o IPCC e seus cientistas estão corretos, e de que tais medidas são imperativas para preservação da vida na Terra como a conhecemos.

Em outras palavras: quando houver consenso social sobre o tema. Nesse ponto, entra em jogo a “manufatura de incertezas” e a interferência de práticas de relações públicas nos rumos de uma controvérsia.

“A campanha que lidamos na tese não é orientada a convencer cientistas, mas a criar dúvidas na opinião pública. Ela atua de forma a sugerir, à população, que o debate científico não está encerrado, de modo a criar estratégias comunicativas orientadas a evitar a formação dos consensos necessários para a adoção de medidas significativas de controle de emissão de gases estufa”, conclui.

Leia a reportagem também na Minas Faz Ciência 75.

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Luana Cruz

Doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Jornalista graduada pela PUC Minas. É professora em cursos de graduação e pós-graduação na Newton Paiva, PUC Minas, UniBH e ESP-MG. Escreve para os sites Minas Faz Ciência e gerencia conteúdo nas redes sociais, além de colaborar com a revista Minas Faz Ciência.

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