Que avaliação você faz do atual prefeito de sua cidade? Você acompanha suas responsabilidades políticas?

Felipe Nunes dos Santos, doutor em Ciência Política pela Universidade da Califórnia (UCLA), averiguou se os eleitores são capazes de identificar os verdadeiros responsáveis pelas ações realizadas em seu município.

Parte da tese de doutorado do pesquisador, o artigo intitulado “Quem recebe recompensas eleitorais? Um estudo experimental sobre como os eleitores respondem aos benefícios produzidos pela União, estados e municípios no Brasil” revelou características interessantes acerca das recompensas eleitorais no País.

Segundo Felipe – que, durante a pesquisa, recebeu tutoria da professora Maria de Fátima Anastasia, do departamento de Ciência Política da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) –, a investigação partiu do fato de que, em sistemas federativos pouco centralizados (como nos casos do Brasil e do México), o repasse de verbas do governo federal aos municípios ocorre, mais efetivamente, quando há coerência partidária entre as esferas de governo.

Ou seja, a distribuição de verbas será destinada, mais facilmente, aos municípios com prefeitos filiados ao mesmo partido do Presidente da República. Já em países cujo sistema federativo é centralizado (como Venezuela e Argentina), o repasse de verba pelo governo federal é feito, de forma mais efetiva, a cidades onde o eleito obteve mais votos.

No ver de Felipe Nunes dos Santos, foi vital compreender melhor a maneira como os eleitores atribuem crédito eleitoral aos políticos, quando mais de um tem autoridade legítima para reivindicar crédito para resultados observados nas diversas localidades brasileiras. A questão que surge, a partir desse cenário, é: quando uma obra é realizada na cidade, quem receberá os créditos, o prefeito ou o presidente?

“Normalmente, o que se vê em países com o sistema federativo menos centralizado é a tendência de o prefeito receber as recompensas. Já em países centralizados, a responsabilidade vai para o governo federal. Minha intenção era verificar tal hipótese. O objetivo, então, foi investigar como e por que os eleitores brasileiros atribuem crédito político a determinadas figuras, e não a outras”, explica, ao destacar que outro ponto explorado refere-se às condições nas quais os eleitores revelam-se mais propensos a identificar os verdadeiros responsáveis por resultados que lhes interessam.

Para isso, o pesquisador adotou, como método de pesquisa, o chamado endorsement experiment (ou “experiência de endosso”, em tradução livre).

Endorsement experiment

A metodologia tem sido usada para medir os níveis de apoio político a grupos minoritários que, aos olhos da sociedade, adotam comportamentos não tradicionais. Em tal mecanismo, um grupo de pessoas é selecionado de forma aleatória, e convidado a expressar sua opinião sobre ações políticas.

“Na sequência, dividimos os participantes em três grupos: placebo, controle e tratamento. Fazemos perguntas semelhantes a todos, mas com sutis modificações, e comparamos as respostas obtidas”, esclarece o pesquisador.

Durante a realização da pesquisa, foram entrevistados 2400 eleitores, em 195 cidades. Na ocasião, os entrevistados responderam, primeiramente, às seguintes perguntas: “Que avaliação você faz do atual prefeito de sua cidade?”, “E do atual presidente do País?”. Em seguida, o grupo placebo deveria responder à seguinte pergunta: “Você deve estar percebendo melhorias em infraestrutura que devem estar sendo realizadas aqui na cidade. Você concorda com a realização dessas obras?”.

Já o grupo controle deveria responder a outra questão: “Você deve estar percebendo melhorias na infraestrutura da cidade sendo realizadas pelo prefeito. Você concorda com a realização dessas obras?”. Por fim, aos integrantes da equipe de “tratamento”, perguntava-se: “Você deve estar percebendo melhorias na infraestrutura da cidade sendo realizadas pela Presidência da República. Você concorda com a realização dessas obras?”.

Após a realização de outras tantas perguntas, os grupos voltavam a responder às duas questões iniciais, relativas à avaliação dos desempenhos dos governos municipal e federal. “No primeiro grupo, não houve alteração na avaliação feita pelas pessoas. Já no segundo grupo, depois de afirmarmos que a melhoria era de autoria do prefeito, os eleitores passaram a avaliar positivamente o governo municipal. Por fim, no terceiro grupo, não notamos alteração, mesmo tendo sugerido que as melhorias teriam sido realizadas pelo governo federal”, analisa o cientista.

Leia a reportagem completa na Minas Faz Ciência n. 72: