Muitos foram os escritores e críticos a delinear conceitos, métodos e princípios da literatura – de sua abrangência histórica às nuances da caracterização estética.

Poeta, ensaísta, prosador e grande pensador de seu tempo, Paul Valéry (1871-1945) também se dedicou a tal imprescindível ofício, sempre com vistas à problematização dos “fenômenos positivos da produção e do consumo das obras do intelecto”.

Contudo, aos olhos daquele que, no entreguerras, fora considerado o “poeta oficial da França”, a mera historicização do exercício literário – a seu ver, atividade “altamente desenvolvida” e com oferta de “numerosas cátedras” – não abrangia, em seu espectro crítico, o estudo da própria “atividade intectual que engendra as obras mesmas”.

Daí o investimento do autor em apresentar suas Lições poéticas, livro no qual propõe pensar a literatura – e/ou a arte em si, de modo geral – não apenas como conjunto de “obras acabadas”, mas, desde o início, como atos dos “intelectos” (que a compõem e que a recebem).

Neste sentido, o escritor torna ainda mais complexo (e fascinante) o riquíssimo debate acerca da relação entre a construção da obra e o convívio com os leitores – aqueles que, na definição do poeta e crítico paulista José Paulo Paes (1926-1998), dedicam-se à (trans)leitura, posto, que, estimulados pela obra literária, acionam seu particular “corredor de ecos”, no qual soam vozes da (trans)experiência individual.

O livro de Paul Valéry é dividido em quatro partes:

Na primeira, o escritor aborda “O ensino da poética no Collège de France”. Nas outras três, conforme dá a ver o título da obra, dedica-se à primeira, à segunda e à terceira lições de seu “curso de poética”.

Aos interessados por mistérios e ideários da expressão literária, sugiro que se sentem nas primevas carteiras desta “sala de aula” incomparável – libertariamente ministrada diante de seus olhos de (trans)leitor.

Leia um trecho:

“Uma história aprofundada da literatura deveria portanto ser compreendida não tanto como uma história dos autores e dos acidentes de sua carreira ou de suas obras, mas como uma história do intelecto enquanto produtor ou consumidor de ‘literatura, e essa história poderia até ser feita sem que nela se dissesse o nome de um único escritor. Pode-se estudar a forma poética do Livro de Jó ou do Cântico dos cânticos sem a menor intervenção da biografia de seus autores, que são totalmente desconhecidos.”

 Ficha técnica:

Livro: Lições de poética

Autor: Paul Valéry

Editora: Editora Âyiné

Tradução: Pedro Sette-Câmara

Páginas: 91

Ano: 2018