Professora Dora Magalhães / Foto: Arquivo Pessoal

Maria das Dores Magalhães Veloso é professora da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), no Departamento de Biologia Geral. Atualmente dedicada aos estudos em áreas úmidas, as veredas, ela alerta para as perdas significativas desses ecossistemas, em Minas Gerais e especialmente no Norte de Minas.

As veredas estão distribuídas em todo o Cerrado brasileiro, desde o Mato Grosso até Minas Gerais, no planalto central do Brasil.

Mas a concentração dos populares ‘brejos’, que era muito grande na região de Montes Claros, está diminuindo de forma acelerada. 

Na entrevista abaixo, a pesquisadora fala sobre sua pesquisa, que faz parte do estudo “Ecologia, Conservação e Bioprospecção de Espécies-chave em Sistemas de Veredas: Mauritia flexuosa e Mauritiella armata”.

Ela buscou conhecer a estrutura populacional e distribuição espacial dessas duas espécies, popularmente conhecidas como buriti e xiriri.

O projeto contempla atividades de outros pesquisadores preocupados com a preservação dos sistemas de veredas e os desdobramentos da destruição desse ecossistema.

Conte-me um pouco sobre sua trajetória profissional. Como decidiu se tornar professora, pesquisadora e trabalhar com ecologia e conservação?

“Sou da roça. Nasci na beira de uma vereda, isso já estava correndo nas veias. Desenvolvi minha tese de doutorado na beira de um rio, na região que eu nasci próximo às veredas. Coloquei na pesquisa também aquilo que eu sentia, que estava na minha essência”. Sou egressa da Unimontes, onde cursei Ciências Biológicas. Logo depois de me formar já comecei a trabalhar para a Universidade.

Fiz mestrado em Educação e doutorado em Ciências Florestais na Universidade Federal de Lavras (UFLA).

Sempre gostei de trabalhar com florestas nativas e no pós-doutorado eu me dediquei à pesquisa em solos para compreender melhor a relação da vegetação com os solos e os processos ecológicos ocorrentes em um sistema.

O que são as matas ciliares e como é esse trabalho de pesquisa no meio da natureza?

Matas ciliares são as matas da beira do rio, denominadas também como matas de galeria, vegetação ciliar, etc.

Eu e uma equipe de pesquisadores começamos a fazer levantamentos para diagnosticar essas matas na região do Norte de Minas, avaliando as condições de preservação desses ambientes na região.

A partir dos diagnósticos, outros pontos foram observados, direcionando o nosso foco para ambientes também degradados e responsáveis pela manutenção dos rios e, consequentemente, das matas ciliares.

Hoje conduzo minha pesquisa para o conhecimento das veredas, ambiente que carrega uma vegetação diferente das outras fisionomias do Cerrado.

O que são as veredas, então?

Dentro do bioma Cerrado, temos várias fitofisionomias, cerrado sentido restrito, cerradão, cerrado rupestre e veredas, dentre outras.

As veredas, diferente das outras fitofisionomias, carregam uma vegetação adaptada a solo turfoso e com alta saturação hídrica, solo encharcado. São tratada pelas comunidades regionais como brejo.

Esses ambientes possuem algumas espécies, que são características de ambientes úmidos, chamadas de espécies-chave, como o buriti e o xiriri.

Buritis, frutos de Mauritia flexuosa. Imagem via Wikimedia Commons

Por que escolheu trabalhar com as veredas?

Uma característica importante das veredas é que tanto os animais do cerrado, quanto as populações, tendem a se agregar perto desse ambiente.

Geralmente, nas proximidades de uma vereda vamos encontrar pequenas comunidades que se distribuem ao longo do seu curso.

Essas ocorrências são resultado da busca pela qualidade de vida que nós, humanos, temos na nossa essência. Sempre buscamos estar próximos de onde tem água e de onde realizamos atividades sustentáveis com mais facilidade.

As veredas nos fornecem água em abundância e solo fértil, permitindo a agricultura de subsistência. Por isso, são ambientes especialmente importantes e vulneráveis.

Quais as especificidades das veredas do Norte Minas?

De fato, elas possuem uma conformação diferente das veredas de outras regiões. Aqui, essas fisionomias são levemente rebaixadas no interior do Cerrado. Ficam totalmente alagadas no período chuvoso. O normal seria, durante todo o ano, ter o ambiente brejoso com uma calha que libera a água para o abastecimento dos rios, gradualmente.

Entretanto a atividade humana, o pastoreio, tem utilizado esses ambientes de forma tão intensa que estão secando gradualmente.

Isso nós percebemos no dia a dia da pesquisa, porque há veredas em que, hoje, o solo turfoso está sendo substituído pelo solo arenoso, fazendo com que as veredas tornem-se ambientes secos e levando à mortalidade das espécies vegetais adaptadas a altos teores de umidade.

Quais os perigos dessa seca?

Ao observar as veredas secando, podemos pensar que, por ser o cerrado uma espécie de ‘caixa d’água’, e as veredas os locais onde a água surge, essa falta da surgência da água já é um indicativo de que o lençol freático do cerrado está rebaixado.

Mesmo com a ocorrência de chuvas na região, o lençol freático não está sendo abastecido. Isso é um problema que já vem sendo observado em outras pesquisas, evidenciando que o sistema não está mais saudável.

Assim, já são evidenciados vários desequilíbrios que podem desencadear processos que podem levar ao desaparecimento das veredas.

Como foi desenvolvida essa pesquisa sobre o buriti e o xiriri?

A minha pesquisa, especificamente, buscou identificar a estrutura populacional e a distribuição espacial do xiriri e do buriti em sistemas de veredas.

O estudo da distribuição espacial das espécies nos permite identificar um padrão de organização entre os indivíduos da espécie estudada e, posteriormente, correlacionar com a saúde das populações daquela espécie ou daquele tipo de árvore.

Através de comparações entre ambientes degradados e preservados, podemos observar se as espécies estão se  desenvolvendo normalmente, como os indivíduos se organizam no ecossistema e se está havendo alguma mudança no padrão de distribuição.

Tanto o buriti, quanto o xiriri são espécies adaptadas a ambiente turfoso, com muita matéria orgânica e muita água. Assim, se observarmos que a distribuição delas não responde ao padrão encontrado em uma vereda preservada, que carrega todos os atributos necessários para o desenvolvimento dessas espécies (saturação hídrica, solo turfoso e organossolo, dentre outros) podemos fazer recomendações para que essa vereda entre em uma lista de prioridades de ambientes a serem recuperados.

A espécie, Mauritia flexuosa (buriti)  produz frutos comestíveis de alto valor nutritivo e extraído de forma sustentável pelas comunidades locais. Dele é extraída a polpa e o  óleo. A maior parte da renda das comunidades veredeiras vem dos produtos vindos dessa espécie, assim como dos frutos do cerrado. Além de ser um fruto saboroso e utilizado na produção de doces, sucos e geleias, é muito usado em cosméticos, através da extração das essências.

A espécie Mauritiella armata (xiriri) é também é uma espécie frutífera de veredas. Algumas famílias de veredeiros, em extrema carência, que vivem em áreas distantes dos vilarejos, extraem o leite dos xiriri para as crianças. Essa extração é bastante rudimentar, ocorrendo de forma manual sem nenhum controle higiênico , sendo portanto utilizado para matar a fome.

Imagem das veredas do acervo pessoal da professora Dora.

E quais foram os principais resultados encontrados?

Nosso estudo permitiu verificarmos que o buriti é distribuído de maneira aleatória, de forma desorganizada, mas estão sempre juntos, sem ficar muito longe um do outro.

Formam um imenso palmeiral distribuído ao longo do sistema de vereda, onde podemos observar o solo turfoso e brejoso.

o xiriri é uma espécie que apresenta distribuição agregada, com vários indivíduos juntos, formando grupos dentro das populações que avaliamos.

Nós procuramos ainda, classificar os indivíduos dessas populações de plantas de acordo com as alturas que levantamos em campo, em juvenis e adultos.

Percebemos que, para as duas populações, há discrepância: são poucos os juvenis e muitos os adultos.

Nossa interrogação agora é: o que está acontecendo com essas populações? Os indivíduos dessas espécies demoram mais para crescer e chegar à fase adulta, por exemplo? Ou as plântulas, não estão conseguindo se estabelecer e tornarem-se juvenis e chegarem à fase adulta, em função de alguma mudança no ambiente? Pode ser que haja outros impactos ambientais que estão impedindo esse desenvolvimento.

Existem outros trabalhos semelhantes em outras regiões do Brasil?

Existem trabalhos nas regiões de Uberlândia e temos conhecimento de outras pesquisas feitas aqui no Norte de Minas, mas são trabalhos novos e não se sobrepõem ao que estamos realizando – certamente somam e nos permitirão fazer um diagnóstico completo.

A Unimontes é referência, nós temos mais projetos em andamento sobre esse ecossistema. A equipe da Unimontes é pioneira nos estudos sobre veredas na região e isto é facilitado pela nossa proximidade a esses ambientes.

Qual o maior desafio que enfrentam?

“Com minha trajetória de pesquisa, acabei voltando às minhas raízes, estudando e trabalhando em um ambiente em que fui criada. Eu preciso conservar a minha raiz e preciso batalhar para preservar as veredas”. Há uma lacuna muito grande de conhecimento para compreender como eram as veredas e o que aconteceu após o processo de antropização, na década de 1970.

Os  problemas hoje observados nas veredas são uma resposta a um processo que foi ocorrendo ao longo dos anos, não é imediato.

Para melhor compreensão citamos o Pro Várzea, projeto que trouxe para o Cerrado, nos anos 70, uma gama de empreendimentos de monocultura, quando foram implantados projetos em larga escala para a produção do arroz irrigado, nas áreas úmidas, e do eucalipto, no cerrado, dentre outras culturas que não foram tão agressivas.

Na década de 1980, esses projetos foram se descontinuando e reduzindo na região do rio Pandeiros – hoje transformada em área de proteção ambiental (APA) Pandeiros.

Entretanto, todo o processo foi deixado como um passivo para o meio ambiente e para as comunidades veredeiras, que tiveram que lidar com as consequências.

Acredito que o que  é identificado e vivenciado agora pode ser resultado dos impactos da fragilização dos ambientes de veredas que ocorreram na década de 1970.

Além disso, as próprias populações ribeirinhas e os veredeiros acabam tendo que plantar nas áreas de proteção, utilizando para isso o conhecimento popular, sem nenhuma orientação, o que também impacta esses ecossistemas singulares.

Para onde apontam as pesquisas?

É um consenso entre os pesquisadores que não se pode desvincular a pesquisa ecológica das comunidades veredeiras, e nem podemos atribuir a eles as consequências desses distúrbios. Mas, sim, estimular a manutenção dos veredeiros nos seus habitats naturais e orientá-los para que possam produzir para a sua subsistência e, ao mesmo tempo, garantir qualidade de vida deles e das veredas.

Conhecer os processos ecológicos ocorrentes nas veredas e garantir sua preservação é, para mim, um dos estudos mais relevantes que tenho realizado.

É importante investir em pesquisas em veredas. Elas têm interligação com vários ecossistemas e estão diretamente ligadas à questão hídrica.

Para o norte de Minas, investir em veredas é garantir a manutenção de ambientes ímpares para a nossa subsistência e manutenção do homem do campo.

“As veredas são como um termômetro para perceber que a água está acabando. Podemos chegar a um momento em que não teremos água e a perda das veredas será inevitável. Já não se consegue encontrar no Norte de Minas veredas 100% sadias e preservadas. Estamos em uma região propensa à desertificação e estamos fazendo muito pouco para que este processo seja pelo menos minimizado”.