“É realmente ridículo, parece um ladrão a pedir que o ladrão seja preso”. Foram essas as palavras utilizadas pela Coreia do Norte, nesta última quarta-feira (25), para qualificar as críticas dos Estados Unidos sobre a situação dos direitos humanos no país asiático.  Poucas semanas antes do aguardado encontro entre o presidente americano, Donald Trump, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, o Departamento de Estado americano acusou a Coreia do Norte de cometer todo tipo de violação dos direitos humanos com o aval do governo.

Em resposta, o governo Coreano afirmou que considerava a declaração norte-americana uma “calunia brutal” à Coreia do Norte, e que os Estados Unidos são um país que “semeia” as violações dos direitos humanos e onde a cultura das armas é “um câncer”.

A tensão entre EUA e Coreia do Norte é antiga, mas ganhou forças após a chegada de Donald Trump ao cargo de presidente dos EUA. Desde então, o presidente norte-coreano, Kim Jong-un, passou a intensificar sua demonstração de poder com testes bélicos, incluindo desenvolvimento de bombas atômicas e de Hidrogênio. Em contrapartida, Trump deu um ultimato para que o líder norte-coreano encerre as atividades militares.

Por meio do Twitter, o mandatário estadunidense chegou a, inclusive, ameaçar o governo da Coreia do Norte, no fim do ano passado. Na ocasião, Donald Trump, disse que tinha acabado de escutar o discurso nas Nações Unidas do ministro das Relações Exteriores da Coreia do Norte, Ri Yong-ho, e avisou que, “se ele ecoa os pensamentos do Pequeno Homem Foguete (referindo-se ao ditador Kim Jong-un), eles não estarão por aí por muito mais tempo.”

A constante tensão entre Coreia do Norte e Estados Unidos acabou gerando uma grande preocupação no mundo todo. Muitos disseram que uma grande guerra está para acontecer, outros chegam a defender o fim da humanidade em decorrência desse possível conflito bélico. Para abordar essa questão, a equipe da Minas Faz Ciência conversou com Fabrício Pasquot Polido, professor Professor Adjunto de Direito Internacional da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

 

Minas Faz Ciência – Considerando o atual cenário geopolítico, o senhor acredita que existem situações de conflito que poderiam ganhar dimensões incontroláveis?

Fabrício Pasquot Polido – Há dois objetivos centrais estabelecidos pela carta das Nações Unidas que dizem respeito ao esforço dos Estados com o compromisso comum de manutenção da paz e segurança internacionais. Esses são princípios que organizam o sistema internacional. Então, qualquer tipo de conduta dos Estados que leve à desestabilização da paz e segurança internacionais é visto como ameaça. Essa ameaça é passível de ser remediada por mecanismos do próprio sistema internacional e das regras de direito internacional que foram criadas para isso, como por exemplo, o Conselho de Segurança da ONU. Alguns acontecimentos que resultaram em uma fase de insegurança, como o ataque às Torres Gêmeas em 2001, geraram uma visão um pouco mais maniqueísta em relação aos grandes objetivos de paz e segurança internacional. No passado, nós falávamos em União Soviética e EUA, até o final da Guerra Fria. Com a desestruturação da antiga União Soviética, os EUA foram sendo gradualmente mantidos como os principais interlocutores no contexto das potências internacionais e, hoje, também concorrem com outros países, como a China.

 

MFC – Em relação aos EUA, a maneira com que o Donald Trump lida com as questões internacionais é preocupante? Por exemplo, as ameaças feitas via Twitter ao governo da Coreia do Norte…

FPP – É um pouco complicado fazer um exercício de futurologia a respeito dos resultados da política externa adotada pelo presidente Donald Trump. Alguns acontecimentos envolvendo a Coreia do Norte poderiam levar a uma situação de ameaça ou, ainda, de guerra nuclear entre os países. Mas é claro que há muita especulação sobre a forma como ele conduz essas questões. Mas isso, em nenhum momento, afastaria o poder que as organizações internacionais no campo universal e regional têm para evitar esse tipo de atuação. No contexto atual, em que um tuíte de um presidente ganha grande repercussão, o sensacionalismo, a falta de memória histórica e o conhecimento da realidade internacional levam as pessoas a radicalizar o debate. O que se evidencia  em torno dessa polêmica, a qual acabou se transformando em uma potencial ameaça de ataques nucleares recíprocos entre os dois países, foi o próprio desconhecimento das pessoas à respeito desses sistemas de governo.

 

MFC – Para finalizar, quais questões globais o senhor elencaria que podem gerar mais preocupação, ou atenção, neste momento?

FPP – Eu diria que há três temas fundamentais. Eu os chamaria de grandes problemas para a humanidade. O terrorismo é um deles. As crises humanitárias, por meio dos conflitos migratórios, questões dos refugiados, mostram um grande problema da globalidade: as violações em massa dos direitos humanos. Por fim, acima de tudo, as mudanças climáticas e os desastres ambientais, com os quais a humanidade menos aprendeu a importância.

(Com colaboração de Alessandra Ribeiro)