O empoderamento é um termo múltiplo e complexo, que toma emprestado noções de diferentes áreas de conhecimento. Expressa, geralmente, a superação de alguma dominação construída em relações de poder na sociedade. É uma palavra ligada a lutas e conscientização por direitos civis, por isso muito associada à emancipação individual ou coletiva das mulheres.

Há pesquisas na área das Ciências Humanas discutindo as relações de poder que desprivilegiam as mulheres. Outros estudos mostram que elas não se calaram diante disso. Resistiram e criaram formas de atuação dentro dessas relações. É importante pensar na função dessas investigações para a promoção de mudança de comportamento. É nessa conversão de valores na sociedade que está incluído o empoderamento.

A ciência pode ser uma aliada para a conquista da representatividade e empoderamento feminino? É possível quebrar narrativas hegemônicas de que a mulher foi o tempo todo dominada na história da humanidade?

Romper silenciamentos

“Quando a gente faz pesquisa em História e mostra representações mais positivas das mulheres, fica provado que não foram o tempo inteiro submissas e não viveram somente numa relação de dominação. Elas resistiram e foram ativas. Oferecer representações mais positivas para as mulheres do presente se identificarem é parte do processo de empoderamento feminino”, afirma a professora Cláudia Maia, do Departamento de História da Unimontes.

A pesquisadora coordena o Grupo de Pesquisa e Estudos Gênero e Violência (GPEG) que, em 2017, completou 10 anos. São desenvolvidos estudos na área de cultura, relações sociais e gênero, família e violência. Cláudia Maia é autora dos livros A Invenção da solteirona: conjugalidade moderna e terror moral (Editora Mulheres, 2011), Mulheres, violência e justiça no norte de Minas (Editora Annablume, 2012), História das Mulheres e do gênero em Minas Gerais (Editora Mulheres, 2015) e Gênero, insubmissão e violência (Editora Unimontes, 2017).

Exposição fotográfica “Ajudem Aquela”, uma parceira entre OEF em parceria com o grupo Filhas de Frida. Foto: Mateus Hubert/ Comunicação Unimontes

“Trabalho com mulheres há mais de 20 anos. Desde que me formei como pesquisadora, estudo as relações de gênero. Meu interesse começou quando conheci a história de Luciana Teixeira, fundadora da cidade de Araçuaí, em Minas. Havia várias versões sobre ela. Alguns diziam que era uma fazendeira rica, outros contavam que era prostituta e existiam versões de que foi uma escrava liberta. Todas as histórias me chamaram atenção, conectadas ao fato de que Araçuaí era uma cidade de grande riqueza. No mestrado, me dediquei a esta história. O tema me afetou, me impactou. A partir dele fui percebendo que havia um silêncio muito grande sobre as mulheres”, conta Cláudia Maia.

Segundo a professora, as pesquisas servem para romper silenciamentos. “É difícil trabalhar com isso sem dar contribuição para modificar as relações. Existe sim uma vontade de transformar as relações sociais e realidade de desigualdade. As pesquisas são bastante posicionadas. Quando eu trabalho com gênero a partir da perspectiva de estudos feministas, não tem como ser totalmente objetiva”, pondera.

Essa mudança de relações sociais é grande foco nas pesquisas de humanidades. “Quando a gente fala em ciências de outras áreas, é fácil ver impacto. As Ciências Exatas, por exemplo, produzem tecnologia e mostram um produto visível. Nas Ciências Humanas, o impacto é lento porque não se muda o comportamento de imediato. São impactos nos valores”, explica Cláudia Maia.

Também na Unimontes, a professora Daliana Antônio pesquisa o feminino. Ela coordena o Observatório do Empoderamento Feminino (OEF), um projeto de extensão com foco em reunir e estudar as experiências de mulheres do Norte e Noroeste de Minas.

“As Ciências Humanas, de modo geral, não são valorizadas no Brasil. Os problemas que a gente enfrenta dizem respeito a Direitos Humanos, área na qual o OEF está vinculado. A gente percebe essa vinculação quando nossas pesquisadoras são requeridas para palestrar sobre questões da mulher. O projeto é altamente associado ao feminismo e, inevitavelmente, tem um papel político. Estamos no cotidiano revelando consequências de relações de poder desiguais no que diz respeito não só a gênero, mas a outras questões. A desigualdade é revelada em nossas pesquisas quando trazemos casos experienciados e falados por mulheres que participam de debates ou rodas de conversa”, afirma Daliana Antônio.

Para essas pesquisadoras que trabalham com o tema do feminino, nem sempre os espaços acadêmicos se abrem com facilidade. “Ainda há falta de preocupação ética das universidades para viabilizar trabalhos de pesquisa no que diz respeito a desigualdade de gênero. São debates que a gente não percebe no cotidiano. O enfrentamento da própria temática é desafiador, pois outras áreas de pesquisa são mais valorizadas – as Exatas e as Biológicas – em detrimento de discussões que englobam preocupações que deveriam ser éticas”, alerta Daliana Antônio.

Contribuições da Ciência

“Quando alguém chega para mim e dá depoimentos como estes: depois que li seu livro mudei de vida ou passei a pensar como mulher de forma diferente ou passei a pensar nas relações de poder entre homens e mulheres – significa que fui além da produção de conhecimento, o primeiro grande objetivo de qualquer pesquisa, sobretudo nas Ciências Humanas. A História, especificamente, produz conhecimento sobre o passado. Entender o passado para modificar o presente. Tudo que diz respeito ao ser humano é dado histórico”, enfatiza Cláudia Maia.

Para a pesquisadora, a discussão sobre gênero é altamente importante porque vivenciamos um recuo nos Direitos Humanos. De acordo com ela, enfatizar as mulheres e as relações de gênero é muito importante para a afirmação de direitos.

Conforme Cláudia Maia: “Estereótipos em relação ao feminino foram criados e a gente pode desconstruir quando mostra que foram criados. Assim, pode-se tentar construir relações mais igualitárias. As contribuições da ciência são essas duas: produzir conhecimento e transformar vidas, relações e valores”.

Exposição fotográfica “Ajudem Aquela”, uma parceira entre OEF em parceria com o grupo Filhas de Frida. Foto: Mateus Hubert/ Comunicação Unimontes

Observatório

OEF é um espaço de interlocução para as questões do feminino. Os diálogos são inspirados em debates que também ocorrem no Observatório Estadual de Gênero e Raça, onde as pesquisadoras da Unimontes encontram cientistas de outras universidades.

O Observatório reúne grupos de mulheres, que já participavam de outros projetos de extensão, principalmente vinculadas a comunidades tradicionais. Assim, articula atividades como mesas redondas, palestras, oficinas, debates sobre filmes e como atividade principal, o grupo de estudos. O projeto ainda tem muito a realizar, pretende crescer e sair de Montes Claros, mas ainda depende de algum financiamento.

“No ambiente acadêmico, somos vistos como o projeto que realiza articulação. O grupo é reconhecido pela realização de ações na comunidade. Somos requeridas para palestras sobre mulher na ciência ou na política. A gente participa de reuniões com mulheres da agricultura familiar, por exemplo.”, explica a coordenadora Daliana Antônio.

No fim de 2017, o OEF em parceria com o grupo Filhas de Frida, de Montes Claros, organizou a exposição fotográfica “Ajudem Aquela” que destacou os depoimentos de mulheres vitimas de violência.

Lutas e Representações Femininas

O Feminismo em Debate: Lutas e Representações Femininas” é o tema do I Colóquio Regional do OEF que acontecerá em 7 e 8 de março. Será mais um espaço aberto para temas voltados às questões da mulher.

Haverá conferências, oficinas temáticas e apresentações culturais. A participação é gratuita para o público em geral. As inscrições podem ser feitas pelo site do www.oef.unimontes.br, onde também estão descritos os cronogramas para os dois dias de atividades. A Fapemig é parceira na realização e no fomento do evento.

“Será uma interlocução de saberes a respeito do que está sendo produzido e pesquisado sobre o feminino, marcando o 8 de março que é um dia de luta e celebra conquistas das mulheres em todo o mundo”, explica a coordenadora do evento Romilda de Oliveira. O colóquio entrou até na agenda oficial da cidade de Montes Claros. Segundo Romilda, existe uma carência de espaços de discussão sobre o feminino, por isso a importância de conhecer e debater os estudos sobre o tema.

Gênero, insubmissão e violência

Em 2017, o aniversário do GPEG foi marcado pelo lançamento do livro Gênero, insubmissão e violência. A obra é organizada pela professora Cláudia Maia e Luana Balieiro Cosme, doutoranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É um dos frutos de 10 anos do grupo, que conta com apoio da Fapemig em vários projetos de pesquisa.

Um desses projetos é o “Formas de subjetivação e insubmissão feminina”. De acordo com a professora Cláudia Maia, a ideia desses estudos é relatar práticas emancipatórias das mulheres em Minas. Mais especificamente, os estudos destacam particularidades as relações de gênero no Norte do estado, que apresentam características diferenciadas de outras áreas mais urbanizadas.

Segundo a pesquisadora, a história das mulheres na região é muito tímida. Há poucos vestígios ou documentos. O GPEG levantou, em livros memorialistas de escritores da região, relatos que as citassem. A ideia agora é entrevistar mulheres com idade igual ou superior a 80 anos para entender as relações de gênero.

Na primeira metade do século XX, era muito comum falar da representação do modelo de mulher em expansão: cercada de fragilidade, doçura, resguardada no âmbito doméstico, símbolo do tripé – mãe, esposa e dona de casa. De acordo com Cláudia Maia, no Norte de Minas a representação da mulher não é hegemônica.

“Numa das análises que o grupo fez ano passado, de duas autobiografias de escritores de Montes Claros, as lembranças e relatos são de mulheres mais ativas. Não existe interdição de espaços públicos das mulheres. Pelos relatos, elas estão no saraus, nas festas de rua, nos bailes, aparecem como ex-escravas ou empregadas e são elas quem chefiam as famílias”

Segundo a pesquisadora, a região não parece compor a representação da mulher dócil e resguardada. “Na historiografia regional são mulheres que se destacam pelo caráter insubmisso. São caracterizadas como mulheres bravas em dois sentidos: um positivo de serem aguerridas e corajosas; outro negativo de serem violentas e indomáveis”, explica. Os estudos ainda estão em andamento.