Considerada uma das doenças mais antigas da humanidade, com registros históricos que datam do ano de 1350 a.C e com relatos em textos bíblicos, por exemplo, a Hanseníase ou lepra, como era chamada anteriormente, teve sua oficialização como doença apenas em 1873, quando o médico norueguês Gerhard Armauer Hansen identificou a causa do problema, dando o novo nome à doença.

Apesar dos apontamentos de longa data, os números atuais chamam a atenção para o fato de que ainda não conseguimos erradicá-la. Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais, divulgados oficialmente, nos últimos oito anos, apenas no estado, foram registrados em média cerca de 1300 casos de Hanseníase. A média é de 5,27 novos diagnósticos em cada 100 mil habitantes se levarmos em conta o último relatório, de 2016 (1.106 casos).  Desse montante, 5,1% (56) foram em menores de 15 anos.

“Em 2016, 14% (155 casos) tinham o que chamamos de grau 2 de incapacidade ou deformidade“, um retrato da complexidade da situação, aponta a médica dermatologista e Hansenóloga Ana Regina Coelho de Andrade. Ela destaca que a OMS (Organização Mundial da Saúde) determina que o percentual de deformidade aceitável é abaixo dos 5%. “Crianças adoecendo e percentual elevado de casos nesse quadro indicam que a endemia da hanseníase não está controlada”.

Grande parte desses números se devem ao diagnóstico tardio, o que faz com que a doença seja transmissível e se desenvolva. Para a doutora, diversos são os fatores que contribuem com isso. “A falta de acesso a serviços de saúde, o paciente que não busca o tratamento por medo ou preconceito do diagnóstico e o desconhecimento de que a hanseníase tem tratamento e cura” seriam alguns desses pontos.

A dura realidade do preconceito presente no contexto da doença é explicada pela médica. “O ser humano tem muito receio do que não compreende. A hanseníase, anteriormente conhecida como lepra, trazia consigo um conhecimento intrínseco e cultural de danos físicos e morais relacionados com a doença, que no passado não tinha cura. Esse fato ocasiona um medo muitas vezes irracional e inexplicável.

A divulgação do conhecimento atual do problema, do tratamento existente e da cura da Hanseníase pode sanar esse preconceito

A história também respalda a fala da doutora sobre os desafios que fizeram parte do desenvolvimento dos estudos relativos à Hanseníase. No Brasil, por exemplo, até o ano de 1962 recomendava-se o isolamento do sujeito e a queima completa de seus pertences visando a não transmissão. Os portadores ficavam confinados aos chamados leprosários, comunidades muitas vezes marcadas pelo completo isolamento/abandono.

Apenas em 1962 é que a realidade dos hansenianos começa a mudar, quando a Organização Mundial da Saúde passou a recomendar o tratamento com o uso de antibióticos fornecidos gratuitamente, sem a necessidade de internação. Ainda assim, algumas comunidades se mantiveram por mais tempo, muitas vezes exatamente em função do preconceito da sociedade com os que deixavam o local. Em Minas Gerais, por exemplo, a conhecida Colônia Santa Izabel, localizada no município de Betim, começa a permitir a saída de seus pacientes apenas em 1965.

Detecção e transmissão

As Manchas esbranquiçadas ou vermelhas que se espalham pelo corpo podem ser os primeiros sinais do problema. Embora muitas doenças de pele apresentem sintomas semelhantes, uma característica específica geralmente diferencia a Hanseníase: As manchas apresentam alteração de sensibilidade, fazendo com que o indivíduo deixe se perceber variações como temperatura, pressão e dor nos locais acometidos.

Paciente com primeiros sinais de Hanseníase

Foto: Ministério da Saúde / Paciente com primeiros sinais da doença

A dormência nas extremidades, como pés e mãos, o surgimento de caroços e nódulos e o entupimento nasal também são relatos comuns na manifestação da doença, que é considerada de fácil detecção e possui tratamento gratuito pelo SUS.

Segundo a dermatologista e hansenóloga, a doença infecciosa é causada por uma bactéria denominada Mycobacterium leprae que penetra no organismo através da respiração e pode ficar incubada, sem manifestação clínica, por muitos anos. Depois de confirmada, o tratamento é ambulatorial, feito com antibióticos. “Não requer internação e Dura em média de 6 a 12 meses, de acordo com a gravidade de cada caso. O medicamento é fornecido pelo Ministério da Saúde”.

Machas avermelhadas ou esbranquiçadas

Foto: Ministério da Saúde / Manchas avermelhadas ou esbranquiçadas podem ser indicativos do problema.

A transmissão da doença se dá por meio do contato com a pessoa contaminada, uma vez que a bactéria é propagada por meio da tosse, das secreções nasais, por meio da saliva e do espirro, principalmente. O diagnóstico precoce e o tratamento rápido são fundamentais para que a transmissão da doença não ocorra. Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde, logo ao iniciar o tratamento o indivíduo deixa de transmitir a doença.

Os desafios

Embora seja o país com o maior número de casos na América Latina, países de outras partes do mundo também completam esse quadro de registros. Nações como India, Madagascar, Moçambique, Miamar e Nepal despertam a atenção para o fato de que atualmente  a doença é ligada à áreas com condições precárias de higiene, afetando principalmente regiões carentes.

Na última semana do mês de janeiro ocorre a Semana Mundial de Luta contra a Hanseníase e esse ano o lançamento Nacional acontece hoje, dia 31, na cidade de Belém no Pará com o slogan: “Hanseníase – Identificou. Tratou. Curou”. A proposta é exatamente conscientizar a população sobre os sintomas e à procura médica quando da detecção dos primeiros sinais.

Também faz parte dos planos de ação, segundo informações oficiais do evento “divulgar a oferta de tratamento completo no SUS e promover atividades de educação em saúde que favoreçam a redução do estigma e do preconceito que permeiam a doença“.