Se você acompanha as novidades da área da Paleontologia, é muito provável que já tenha ouvido falar de Peirópolis. O pequeno distrito rural de Uberaba, município localizado no Triângulo mineiro, é conhecido por ser um dos maiores e mais importantes sítios paleontológicos da América do Sul. Nos últimos anos, várias descobertas de fósseis atraíram pesquisadores e curiosos ao local. A mais recente delas está relacionada a um dos maiores dinossauros brasileiros, o Uberabatitan ribeiroi.

Na última quarta, 13 de dezembro, a descoberta foi apresentada: um fêmur, cerca de 85% preservado, do Uberabatitan. Luiz Carlos Borges Ribeiro, professor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e diretor do Complexo Cultural e Científico de Peirópolis, coordenou o resgate. “Se considerarmos o que se perdeu no tempo, acreditamos que ele teria cerca de 105 cm de tamanho, o que remete a um indivíduo jovem”, conta.

 

Resgate do fóssil encontrado em Peirópolis pela equipe do Centro Price (crédito: Luiz Carlos Borges Ribeiro)

O fóssil foi encontrado por um grupo de estudantes de Geologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que realizava estudos específicos no local conhecido como Serra da Galga. Devido às condições climáticas, foi necessário esperar cerca de 20 dias para o resgate. Segundo o professor, o que revelou o achado foram as primeiras chuvas, que lavaram a rocha em seu entorno e fizeram o fóssil aparecer.

“A rocha é muito arenosa e friável (“esfarelenta”) o que nos ajudou a retirar o exemplar sem muito esforço. Não houve a necessidade de engessamento do fóssil, ele foi resgatado com uma pequena quantidade de rocha que estava por baixo do exemplar, que foi endurecida com cola adesiva rápida para dar mais rigidez à base e não colocá-lo em risco durante o transporte do topo da encosta até o veículo e deste até o laboratório de preparação do Centro Price”, relata.

As escavações no local devem continuar, pois existe a possibilidade de novas descobertas. Como a época do ano não é apropriada à busca (a umidade da rocha interfere no fóssil, deixando-o mais plástico e suscetível à destruição), novas visitas serão feitas posteriormente. “Mas, com certeza, estaremos de olho no local de época em época e vamos verificar este afloramento para ver se novos fósseis aparecerão com a lixiviação da rocha pelas intensa chuvas que estão por vir. No caso de algo novo, faremos o mesmo procedimento ‘cirúrgico’ para resgate dos espécimes”, completa Ribeiro.

 

GIGANTE DE UBERABA

O Uberabatitan ribeiroi viveu no fim do período Cretáceo, entre 70 e 65 milhões de anos. Ele pertence ao grupo dos titanossauros, animais que se caracterizavam por ter pescoços e caudas longos, crânios pequenos, patas colunares como as de um elefante e dieta herbívora. A espécie podia atingir de 25 a 26 metros de comprimento da ponta da cauda ao focinho, 3,5 metros de altura e 12 a 16 toneladas de peso. Suas proporções explicam o nome: Uberabatitan significa “o gigante de Uberaba”. Já ribeiroi é uma homenagem a Luiz Carlos Borges Ribeiro, pelos trabalhos ligados à educação e pesquisa. Na edição 35 da revista Minas Faz Ciência publicamos uma reportagem sobre o tema. Leia aqui.

DESCOBERTAS VALIOSAS

O fóssil encontrado é parte de um fêmur do Uberabatitan ribeiroi  (crédito: Luiz Carlos Borges Ribeiro)

Como destaca Luiz Carlos Ribeiro, esta ocorrência do fêmur de Uberabatitan não foi a única a ocorrer nas últimas semanas. Por exemplo, em 12 de dezembro, ou seja, no dia anterior ao resgate, foi feito um salvamento similar no Ponto 1 do Price ou Caieira, localidade de alta relevância paleontológica localizada a cerca de dois quilômetros ao norte do Centro Price. Mais uma vez, as chuvas ajudaram. Alunos de Geologia da Universidade Federal de Uberlândia (Campus – Monte Carmelo), ao quebrar um afloramento, acabaram por trazer à tona um fragmento grande de quelônio (tartaruga) que também já foi retirado e está no laboratório de preparação.

O fóssil tem cerca de 40 centímetros com formato arredondado, mas o animal, estima-se, teria 80 centímetros de diâmetro.  Ele viveu com crocodilos, dinossauros carnívoros e herbívoros, peixes, rãs, entre outros, todos associados a ambientes continentais com uma idade variando entre 72 a 65 milhões de anos – o que os geólogos chamam de final do período Cretáceo.

 

“Uberaba, mais do que nunca, tem se revelado um dos principais sítios paleontológicos do Brasil, com uma paleobiota muito diversificada, dominada pelos grandes vertebrados que aqui viveram e caminharam por estas paradas da atual Minas Gerais”, comenta Ribeiro.

 

E o professor adianta: muitas novidades estão por vir. A equipe irá apresentar, em breve, fósseis e evidências de novas espécies de dinossauros carnívoros.

Para visitar

Boa parte dos fósseis descobertos está exposta no Museu dos Dinossauros, no distrito de Peirópolis. Ele está instalado no prédio da antiga estação ferroviária, construído em 1889. Além do rico acervo, o visitante encontra painéis explicativos sobre a evolução da vida, dioramas e réplicas.
Horário de visitação: terça a sexta das 08 às 17h e sábado, domingo e feriados das 08h às 17h30.
Endereço: BR 262, km 784, Bairro de Peirópolis
Telefone: (34)3338-1526.