Desde as Jornadas de Junho de 2013, as discussões sobre política brasileira se potencializaram no território nacional. A impressão que se tem é que nunca se falou tanto de política, economia, direitos humanos e, principalmente, democracia. Entretanto, ainda que a democracia seja o foco de boa parte das discussões, muitos desconhecem o seu real significado e suas implicações para a política e para a sociedade.

Durante a 69ª Reunião Anual da SBPC, que aconteceu na semana passada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o cientista político, professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, comandou uma conferência a respeito do assunto. Apresentada pela professora da Universidade de Brasília (UnB), Fernanda Sobral, a conferência “Balanço e perspectivas na política brasileira e mundial”, abordou, principalmente, como a democracia surgiu e foi construída ao longo dos séculos e como ela está presente em nosso país atualmente.

Um dos livros publicados por Janine, “A Democracia” (2001), apresenta alguns aspectos tratados na conferência. Na obra, o autor explica que a palavra democracia, de origem grega, significa, resumidamente o “poder do povo”. Entretanto, isso não quer dizer governo pelo povo. Em uma democracia, o fundamental é que o povo escolha o indivíduo ou grupo que governa, e que controle como ele governa. Se na democracia antiga, os gregos se reunião em praças públicas discutir as questões que interessavam a todos, hoje, na democracia moderna, elegemos aqueles que decidirão por nós, defende o professor.

Segundo Janine, historicamente, devido as conquistas cada vez maiores na história mundial (como as revoluções do século XIX), há hoje um número recorde vivendo em democracia ao redor do mundo. No Brasil, três acontecimentos foram importantes para construção de uma agenda social democrática. “Tivemos o fim da ditadura, em 1985. Na década de 1990, tivemos a estabilização da moeda, e, posteriormente, tivemos a inclusão social. O ponto de virada para o país foi o governo Itamar Franco. Mas é bom lembrar que tivemos apenas oito presidentes eleitos democraticamente na história do país”, explicou Janine durante a conferência.

Outro ponto importante destacado pelo cientista durante o evento foi a necessidade de investimento na educação. Segundo ele, países como Espanha e Portugal possuem, hoje, uma democracia mais consolidada, se comparados ao Brasil. Esses países também sofreram com a ditadura, em um período muito próximo da ditadura brasileira, contudo, devido à educação, a situação deles é diferente. “No Brasil, parece que temos uma sociedade alérgica à educação e ao conhecimento. Por exemplo, políticos que fazem campanha em prol da educação não são eleitos. Isso acaba criando uma situação de vulnerabilidade em relação à educação”, explicou.

Na conferência, Janine também falou sobre os acontecimentos recentes na política brasileira, que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff. Para ele, o que aconteceu foi uma perda de força do poder executivo, que culminou no ganho de força do poder legislativo. Posteriormente, o Brasil passou a ter um judiciário forte, um Legislativo e Executivo fracos. Isso fez com que a presidenta eleita fosse deposta. “Hoje, escutamos muitas pessoas falando que as instituições estão funcionando perfeitamente. Porém, isso só pode ser um problema cognitivo. As instituições só funcionam quando são reconhecidas pela sociedade. É complicado falar de democracia em um país cuja a política se resume ao amor e ao ódio extremo a um único partido. Aqui, é impossível que um presidente novo, com ideias novas, como aconteceu com o (Emmanuel) Macron, na França, seja eleito”, ponderou o cientista.

Por fim, Janine também abordou temas referentes ao futuro da educação no país, como a chamada “Escola Sem Partido”, a reforma do ensino médio e a passividade social. Ele também respondeu perguntas do público que estava presente, e finalizou ressaltando que “a reconstrução do país ainda está longe de acontecer. Vivemos em um momento em que tudo que podia dar errado no Brasil, deu errado”.