Já nos primeiros instantes da conferência “De Leibniz à era digital do século XXI”, realizada, durante a  69ª Reunião Anual da SBPC, pelo físico Sérgio Mascarenhas, professor titular aposentado da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos, a plateia pôde observar séculos e séculos de pensamento científico numa única – e belíssima – imagem.

Ao apresentar o quadro Escola de Atenas (1511), pintado por Raphael de Sanzio – e guardado pelo Museu do Vaticano –, Mascarenhas iniciou sua fascinante viagem pelas teorias do conhecimento. A obra pictórica, afinal, é capaz de promover diálogos polissêmicos.

“Estava na Itália, onde trabalhei por 12 anos, e fiquei amigo de pessoas ligadas ao restauro desta obra-prima. Nela, estão 56 personagens importantíssimos. Trata-se de uma aula, iniciada no Renascimento italiano e dotada de comunicação altamente estruturada, a envolver simbolismo, arte e cultura”.

Ao centro da pintura, estão Sócrates (469 a.C.-399 a.C), Platão (469 28/427a.C.-348/347 a.C.) e Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.). “Seus gestos são representativos de princípios fundamentais da busca pelo conhecimento, como a metafísica e a matéria. Exatamente por isso, recorro, aqui, a esta imagem”, explicou o pesquisador, para, em seguida, recorrer à mitologia grega como forma de ampliar a visão de todos acerca dos propósitos da ciência.

“Os deuses mitológicos representam a consolidação da sabedoria humana prática. Divindade romana, Janus concentra, em si, as faces de homem e de mulher, que olham em direção ao passado e ao futuro”, destacou o professor, em referência à múltipla visão necessária ao desenvolvimento de teorias e métodos. “Lembro-me, contudo, de uma frase significativa, presente no e-mail de um amigo: ‘Seja o passado o meu mestre, mas não o meu senhor’”.

Começa a viagem

O caminho de Sérgio Mascarenhas pela história da ciência inicia-se com referências a Galileu Galilei (1564-1642), René Descartes (1596-1650) e Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) – cuja estrutura mental, na visão do pesquisador da USP-São Carlos, tornou-se balizadora de medidas e capacidades de transdisciplinaridade.

“Leibniz atuou como matemático, político, historiador, filósofo. De modo natural, criou uma série de conceitos, bastante complexos, como a definição de ‘mônada’ [átomo inextenso com atividade espiritual, componente básico de toda e qualquer realidade física ou anímica, e que apresenta as características de imaterialidade, indivisibilidade e eternidade]”, afirma, ao comentar, ainda, o gosto do filósofo alemão por estar sempre próximo ao poder. “Ele se aproximava das grandes figuras políticas, e, assim, viajou a diversos países. Atuava, enfim, como empreendedor do conhecimento”.

Ao citar Isaac Newton (1646-1716), Mascarenhas comentou que, assim como hoje, o grande pensador não estava claro, por exemplo, quanto às definições do (complexo) conceito de gravitação. “Ninguém sabe, afinal, como um pedaço de massa se propaga no universo após seu nascimento”, afirmou, ao comentar que, de tão incríveis, as teorias newtonianas, apesar de incompletas, acabaram aplicadas a tudo, da Biologia à Geologia, da Física à Química. “Newton tornou-se um padrão de pensamento. Era enorme sua força para resolução de problemas”.

Das teorias da ciência à tecnologia

Por meio das teorias de Thomas Kuhn (1922-1996) e Karl Popper (1902-1994), Sérgio Mascarenhas destacou a busca pela compreensão das próprias “entranhas” do fazer científico. Logo depois, comentou a “revolução do magnetismo” a partir das colaborações de Faraday (1791-1867) e James Clerk Maxwell (1831-1879).

De outro modo, Charles Darwin (1809-1882) e Ludwig Boltzmann (1844-1906) foram citados em função de suas investigações acerca da evolução e da complexidade: “Boltzmann mudou o pensamento referente ao conceito de tempo, que, para Newton, passava continuamente. Segundo o físico austríaco, a temporalidade não é irreversível”.

Na fantástica viagem de Mascarenhas pelo conhecimento, outras revoluções e quebras de paradigmas ficaram a cargo de Sigmund Freud (1856-1939), Bertrand Russell (1872-1970), Einstein (1879-1955) e K. Godel (1906-1978). Por sua vez, o casal Charles Babbage (1791-1871) e Ada Lovelace (1815-1852), filha de Lorde Byron, revelam pioneirismo numa série de teorias matemáticas.

Já a revolução da informática, que alterou significativamente as noções de sociabilidade do indivíduo na contemporaneidade, foi comentada segundo os feitos dos Bell Telephone Laboratories (Bell Labs), sediados nos EUA e responsáveis por tecnologias revolucionárias: comutadores telefônicos, cabos, transístores, LEDs, lasers, linguagem de programação C e sistema operativo Unix: “O trabalho de Bardeen, Brattain e Shocckley está ligado à revolução da comunicação digital no mundo”.

Ao fim de sua jornada científica, Mascarenhas cita Alan Turing (1912-1954), Claude Shannon (1916-2001), John von Neumann (1903-1957) e Stephen Wolfram (1959) – o famoso pesquisador londrino responsável pela teoria matemática que parece servir a inúmeros propósitos. “Wolfram diz que, para que se compreenda os fenômenos naturais, é preciso entender de computação”, ressaltou, ao resumir, em seguida, o pensamento do contemporâneo: “A natureza, segundo ele, é um computador darwiniano”.