Esperança que vem da floresta

Por Téo Scalioni

Embora tenha sido altamente devastada, sobrando-lhe apenas 7% de área original, a Mata Atlântica permanece com exuberante biodiversidade. Para que se tenha ideia, apenas em relação à flora, são cerca de 20 mil espécies vegetais de grande porte, muitas das quais desconhecidas pela ciência no que se refere às suas propriedades medicinais. Com o intuito de transformar tal riqueza natural em conhecimento, o grupo Bioprospecção Molecular no Uso Sustentável da Biodiversidade (Biopros), vinculado à Universidade Federal de Viçosa (UFV), tem realizado pesquisas, na região, para observar o potencial farmacêutico das plantas.

Na atualidade, um dos estudos desenvolvidos pelo Biopros busca produtos naturais antitumorais em espécies vegetais da Mata Atlântica. A iniciativa visa ampliar o conhecimento acerca do potencial biofármaco de plantas da região, de forma a contribuir para seu aproveitamento sustentável. Financiada pela FAPEMIG, a pesquisa se desenvolve por meio da realização de investigações de mestrado e doutorado, dentro do Programa de Pós-Graduação em Bioquímica da UFV.

Na prática, o estudo busca produtos naturais com ação antitumoral, a partir de análises fitoquímicas biomonitoradas, com testes in vitro, diante de linhagens de células tumorais. A partir dos testes, observam-se as reais possibilidades de as plantas terem, ou não, serventia para possíveis produtos farmacêuticos. Tal prática é muito pouco comum para árvores nativas da Mata Atlântica brasileira, pois, embora o País possua grande biodiversidade de organismos vivos, apenas 1% dessas espécies foi alvo de estudo no campo farmacológico.

O projeto se divide em quatro etapas. Na primeira delas, prosseguiu-se à identificação taxonômica das espécies de árvores presentes na Estação de Pesquisas, Treinamento e Educação Ambiental (Eptea) Mata do Paraíso, iniciativa desenvolvida em parceria com o Departamento de Engenharia Florestal da UFV. Na ocasião, o estudante de iniciação científica Marcos Simião realizou um levantamento florístico, por meio do qual identificaram-se 230 espécies arbóreas, distribuídas em um total de 57 famílias botânicas.

A segunda etapa diz respeito ao plaqueamento e à coleta dos pontos de GPS de cada uma das árvores. Tal etapa permite a rastreabilidade das plantas em campo – ou seja, os pesquisadores conseguem retornar a cada uma das árvores por meio de um aparelho de GPS, o que facilita a coleta de mais material e amplia a quantidade do extrato.

A terceira fase consiste na construção da “extratoteca”, a coleção de extratos (veja box à página XX), que permitirá acesso ao material vegetal de 49 espécies. De cada árvore, foram coletados galhos e folhas. No laboratório, o material passa por secagem, trituração e maceração com solventes de diferentes polaridades, a fim de que se extraiam moléculas com distintas propriedades químicas. De cada árvore, são produzidos quatro extratos. Atualmente, a extratoteca do grupo Biopros conta com 196.

Para finalizar, realiza-se a triagem antitumoral dos extratos, quando se avalia o potencial antitumoral de cada um, em ensaios biológicos in vitro. Das 49 espécies avaliadas, três mostraram-se bastante promissoras, sendo duas já conhecidas pela ciência, no que diz respeito às propriedades antitumorais. Além, há uma espécie inédita, ainda sem relatos na literatura científica. “No momento, a pesquisa se concentra no estudo mais aprofundado de espécies vegetais que apresentam substâncias com potencial atividade antitumoral”, observa o coordenador da pesquisa, professor João Paulo Viana Leite.

Segunde ele, após tal etapa, a pesquisa buscará essas substâncias, para que sejam identificadas quimicamente e se iniciem as etapas não clínicas. “Dessa forma, trilhamos caminhos similares a outras pesquisas, responsáveis por fornecer, à sociedade, moléculas bioativas que possibilitaram o desenvolvimento de novos medicamentos para o tratamento de doenças tumorais”, acredita.

Conhecimento popular

A relação do grupo Biopros com a Mata Atlântica iniciou-se em 2007, com pesquisas realizadas no Parque Estadual Serra do Brigadeiro e em seu entorno. Na ocasião, foi feito o levantamento de plantas usadas na medicina popular local. Segundo o professor João Paulo Leite, o conhecimento das populações é de grande importância para a descoberta de novos fármacos.

Segundo o pesquisador, o uso de determinadas substâncias faz parte da cultura dos mais idosos, mas tem se perdido com o passar das gerações. “Um trabalho de resgate do conhecimento tradicional, associado à biodiversidade, e uma investigação de seu uso medicinal são de grande interesse para a etnofarmacologia, que busca comprovar o uso popular”, esclarece Leite, ao reforçar a importância do encontro entre a sabedoria das comunidades e o conhecimento científico.

O pesquisador observa que a Mata Atlântica conta com cerca de 20 mil espécies de plantas superiores, das quais apenas cerca de 1% delas foram submetidas a pesquisa farmacológica.

“Anda é muito pouco o conhecimento produzido. Afinal, cada espécie armazena milhares de compostos químicos diferentes”, assegura. Daí, pois, a relevância dos atuais estudos em encontrar moléculas com atividade antitumoral ainda desconhecida, ainda mais em um universo gigantesco como o da Mata Atlântica. “Com alguns anos de pesquisa, temos encontrado espécies promissoras, que mostraram atividade frente às células tumorais. Buscamos o isolamento, a purificação e a identificação química dessas moléculas, para compreender melhor o seu mecanismo de ação”, explica.

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A partir de expedições na Mata Atlântica, os pesquisadores coletam material vegetal (folhas e galhos) de espécies arbóreas de diferentes famílias botânicas. No laboratório, segue-se à secagem, à trituração e à produção dos extratos, por meio de maceração. Depois, o material é posto em frascos de vidro e armazenado em freezer, para preservar as propriedades químicas das moléculas.

Os extratos produzidos serão avaliados quanto ao potencial antitumoral, em ensaios biológicos, com uso de células de tumores malignos (in vitro). “A atividade antitumoral diz respeito à capacidade de o extrato reduzir a proliferação das células”, explica o bioquímico Alisson Almeida, bolsista do projeto e mestre em Bioquímica Aplicada.

Doutorando na mesma linha de estudos, o pesquisador explica a atividade: em poços de placas apropriadas, semeia-se certa quantidade de células de algum tipo de tumor – tanto de seres humanos quanto de animais –, em condições ideais de crescimento e proliferação. Após 24 horas, adiciona-se uma concentração conhecida dos extratos em cada poço, que atuam, nas células, por 48 horas.

Ao término do tratamento, com o auxílio de corante específico, consegue-se contar a quantidade de células vivas expostas em cada um dos extratos. “Os que apresentaram atividade antitumoral conseguem reduzir a viabilidade celular acima de 75%. Ou seja, da quantidade inicial e conhecida de células que pusemos no poço, 75%, ou mais, morreram”, destaca.

Cerca de 230 espécies arbóreas, representantes de 57 famílias botânicas, foram identificadas na Mata do Paraíso. Os pesquisadores já testaram a atividade antitumoral de quase 200 extratos vegetais, de 50 árvores nativas da Mata Atlântica – algumas das quais são bastante conhecidas da população, a exemplo da guaçatonga (Casearia sylvestris), da aroeira-vermelha (Schinus terebinthifolius), da angico (Anadenathera peregrina) e da gameleira (Ficus eximia).

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Um comentário em “Esperança que vem da floresta

  • 14 de março de 2017 em 12:33
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    Olá,

    Incrível como com ainda tão pouca originalidade da floresta, temos ainda tantos benefícios. Torço para que podemos preservar esse paraíso da natureza em todo mundo, parabéns!

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