A mineração está presente na história, na paisagem e, até mesmo, no nome do Estado de Minas Gerais. Após o rompimento da barragem do Fundão, da Samarco, em  Mariana, intensificou-se as inquietações  sobre como combater os riscos da atividade se a economia do Estado está diretamente ligada a ela. Para responder essa questão pesquisadores brasileiros tem se reunido para pensarem ações e estratégias para a construção de um novo olhar para o setor.

Sabe-se, portanto, que há elementos irreparáveis. A tragédia deixou 19 vítimas fatais. Entre elas, Samuel Vieira Albino, 34 anos, que trabalhava na barragem. A viúva, Alinne Ferreira Ribeiro, comenta o que gostaria que fosse feito.“Espero que as pessoas responsáveis sejam presas, pois elas sabiam. Espero, ainda, que a lei da mineração mude e que seja feita com mais segurança. Eu tenho uma filha de 3 anos e não é fácil a sua filha falar – Mamãe, abraça o meu pai? e ela estar abraçando o vento”, ressalta.

Bacia do Rio DoceIlustração: Fatine Oliveira

 

A recuperação da bacia hidrográfica do rio Doce é uma das grandes preocupações no momento. Em busca de propostas ao vasto desafio, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) publicou, em 2016, duas chamadas para seleção de pesquisadores e projetos que pudessem promover resposta rápida à tragédia, por meio de pesquisas científicas.

A primeira chamada foi a de  Tecnologias para a recuperação da bacia do rio Doce. Foram investidos R$ 4 milhões na contratação de 29 projetos relacionados à recuperação do solo, da água, e da biodiversidade, além do desenvolvimento de tecnologias sociais.

Entre os projetos, há aqueles que se dedicam à remoção de arsênio e manganês da água; a um sistema de monitoramento da qualidade das águas contaminadas, por meio de sensoriamento remoto; regeneração natural das áreas afetadas;  e desenvolvimento de tecnologias sociais para produção coletiva do espaço na reconstrução de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Ponte do Gama.

O segundo edital da FAPEMIG “Apoio a Redes de pesquisa para recuperação da bacia do rio Doce” – prevê o investimento de R$ 11 milhões para criar e fortalecer grupos que possam contribuir com a recuperação de forma mais ampla e integrada. As propostas estão direcionadas de acordo com 11 linhas temáticas prioritárias: estudos socioeconômicos, uso do solo, qualidade de vida, áreas degradadas, qualidade da água, biota, mata atlântica, ecossistemas de estuário, redução de resíduos, saneamento básico e governança.

Novos olhares

O diálogo tem sido ferramenta vital para a construção de formas de exploração mineral mais sustentáveis, assim como um dos principais motes do projeto “Nova Mineração”, outra iniciativa da FAPEMIG. Uma das linhas de ações é a Plataforma R3 – uma arena de articulação entre organizações científicas, tecnológicas e industriais para a repensar a gestão de resíduos e rejeitos da mineração em Minas Gerais e possibilitar  reutilização dos rejeitos em larga escala e em diferentes atividades com bom potencial de aplicação, como a agricultura, a pavimentação e a construção civil. Para Caio Werneck, assessor da FAPEMIG, a R³ Mineral está se consolidando. “Esperamos que ações concretas sejam implementadas, utilizando conhecimentos e tecnologias que permitam a construção de futuros mais promissores para a questão dos rejeitos em Minas Gerais”, afirma.

Devido à sensibilização do tema após a tragédia,  o pesquisador do Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear (CDTN), Fernando Lameiras  já enxerga alterações no cenário. “Tudo mudou completamente, e estou envolvido com isso há 10 anos. Os rejeitos eram vistos como questão secundária, mas é preciso ter uma visão mais integrada e enxergá-los como matéria-prima”, destaca.  Já para o  assessor especial da iniciativa, Renato Ciminelli, “futuramente, não vamos ter a palavra resíduos e nem rejeitos, pois espera-se mudar o comportamento da mineração e de seus profissionais”, frisa, ao confessar que  espera, de forma conjunta, por meio da Plataforma R3, a criação, a indução e o fortalecimento da transformação do setor, para que as gerações futuras sejam contempladas.

A gente precisa rever o modelo de mineração. Mas que sirva para as pessoas e para a comunidade, e não para conseguir mais lucro e reestruturação produtiva

Quando questionada sobre a perspectiva de “uma nova mineração”, Letícia Oliveira, da coordenação nacional do Movimento Atingidos pelas Barragens (MAB), pergunta “para quem?”. 00 haver diálogo, o que é complicado com partes e interesses diferentes. É possível. Porém, entendemos que essa construção terá problemas, pois as mineradoras têm muito mais poder do que as organizações e a sociedade civil”, conclui.

No ver de Ciminelli, o desastre foi tão grande que se cria um ambiente de aceitação a propostas inovadoras. “O modelo clássico fracassou. Então, cria-se a possibilidade de ousar. Sozinha, a mineração não tem como ser sustentável. Isso só é possível quando ela dividir o valor com a sociedade, à medida que aceitar trabalhar cooperativamente. Daí vem a inclusão, o engajamento territorial, a segurança, o funcionário, a qualidade de vida, o valor da mineração e a corresponsabilidade com o futuro do território”, completa.

Texto originalmente publicado na edição nº 68 da Minas Faz Ciência.

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