A técnica como opera mundi

O que é a técnica?

Na antiga Grécia, o termo significava arte e manufatura, além de estar relacionado ao ato genérico de “fazer alguma coisa” – que não necessariamente era o fazer da arte. conceito de técnica, na pesquisa acadêmica, é importante como ponto de partida para se investigar um modo de ver e pensar o mundo contemporâneo, não sem críticas a seu uso.

No Departamento de Linguagem e Tecnologia do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), em Belo Horizonte, o professor João Santiago se dedica a pesquisas que têm o objetivo de desmistificar esse conceito e propor outro pensamento sobre o ser e agir no mundo.

Ele explica que a primeira coisa que busca com os alunos quando fala sobre o tema é dizer que a técnica não é neutra. “As pessoas acham que é o homem quem faz bom ou mau uso da técnica, eu não acredito nisso. Uso uma expressão do Agamben* que diz que a técnica é uma máquina de criar subjetividades e parto para um exemplo pragmático sobre a relação do homem com o pensamento técnico”, explica o professor.

Para Santiago, não se trata de apontar culpados ou afirmar que o homem detém toda a responsabilidade pelos caminhos traçados em nome da técnica, mas é preciso se posicionar criticamente diante das regras que estão postas no mundo. “Essa máquina de criar subjetividades faz com que a gente acabe sendo aquilo que antes não queria ser – não é mais a sua subjetividade, mas aquela forjada pelo mundo da técnica”, e completa:

“O homem é um pouco refém desse pensamento, porque a técnica é o capital, a economia, dispositivos contra os quais a humanidade não tem muito como agir contra”.

O pensamento de Santiago é especialmente instigante no que tange à formação de alunos do ensino médio numa escola técnica, que têm em suas aulas a oportunidade de se debruçar sobre temáticas e discussões que vão muito além da escrita e da leitura. “A minha preocupação é, ao mesmo tempo, reconhecer que nosso destino é a técnica, sem qualquer sentimento de saudosismo, mas trabalhar com perspectivas que relacionam o homem, a terra e a poesia, a fim de vislumbrar um novo modo de agir no mundo”.

Nesses três ritmos da vida – o homem, a terra e a poesia – o professor ainda inclui o afeto como um fator central e, para aprofundar as reflexões, criou o grupo de pesquisa Literatécnica, em que busca estudar as obras da literatura e outras artes para investigar as ressonâncias da técnica nos enunciados. Nas palavras do professor, o objetivo do grupo é “fortalecer a pesquisa crítica em torno da técnica para contribuir para uma visão mais elaborada, no âmbito da pesquisa, daquilo que, presente em nosso cotidiano – a técnica – naturaliza-se”.

“Ora, onde mora o perigo, é que também cresce o que salva.”

(HÖLDERLIN apud HEIDEGGER)

O professor esclarece que sua intenção é estar atento a todo esse movimento gerado pelo pensamento técnico, que se torna cada vez mais hegemônico, e que ameaça o que ele considera mais importante no mundo: a diferença. “Hoje temos quase que a completa ocidentalização do mundo, com povos, como os ianomâmis, que estão quase destinados a desaparecer. Com isso, toda uma forma de enxergar o mundo desaparece. Minha grande questão é desenvolver um olhar crítico para essa forma de pensamento único, em que todas as diferenças começam a desaparecer em nome de um mundo da produção”.

No âmbito do Cefet, o professor destaca a importância de oferecer ao aluno de um curso técnico mais senso crítico para pensar sobre essa relação com as tecnologias, por exemplo. “Minha luta com os estudantes é para leiam mais, pensem mais a respeito”. Ainda que sua postura seja mais trágica, as pesquisas conduzidas por João Santiago buscam apresentar a tecnologia como uma linguagem afetiva, mais preocupada com a condição humana e a vida útil do planeta. “Nesse sentido, a literatura é uma importante ferramenta de leitura do mundo, que nos ajuda a ser mais críticos e reflexivos sobre nossa própria condição”, conclui.

* Giorgio Agamben, filósofo italiano, autor de obras que percorrem temas que vão da estética à política.

DICA DE LEITURA:

Para quem se interessa pelo tema, o professor indica a leitura da obra “Psiche e techne – o homem na idade da técnica”, de Umberto Galimberti, Editora Paulus.

Imagem de destaque meramente ilustrativa / © Arman Zhenikeyev/Corbis.

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Verônica Soares

Jornalista de ciências, professora de comunicação, pesquisadora da divulgação científica.

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