Experimentações metodológicas. Parc André Citroën, Paris, Fr. Graziela Andrade

Experimentações metodológicas. Parc André Citroën, Paris, Fr. Frame do vídeo feito por Gladson Dalmonech.

Que lugar ocupa o corpo na contemporaneidade? Mediação primária das nossas interações com o mundo externo e também com o interno, quanto mais o experimentamos e o percebemos, mais misterioso e indecifrável ele se apresenta. O corpo sempre foi esse objeto-sujeito de pesquisa nos campos mais diversos do conhecimento – da biologia às artes – e, ainda hoje, esses múltiplos olhares se dirigem a ele, tendo em vista as questões contemporâneas que o atravessam. A pesquisa Corpografias em dança: da experiência do corpo sensível entre a informação e a gestualidade, realizada pela professora Graziela Andrade, da Escola de Belas Artes da UFMG, insere-se nesse esforço científico.

Concluído em 2013, o estudo foi fruto de uma cotutela entre a Escola de Ciência da Informação da UFMG, sob orientação da professora Maria Aparecida Moura e a Paris-Est, École Science du Langage, com a supervisão do professor Dominique Ducard. Sendo assim, como nos conta Graziela, aqui no Brasil, as questões centrais diziam respeito à informação. Já em Paris, o foco era o gesto. E, para unir esses dois pontos, lá estava a dança, presente como objeto de pesquisa e também como parte importante da vida da pesquisadora (que é bailarina). Tal esforço deu origem a uma tese “complexa e indisciplinada”, como destaca Graziela.

 “Por ser tão transdisciplinar, ela tem essa característica da indisciplina. Mas não no sentindo negativo da indisciplina, pelo contrário, é preciso muita disciplina para conseguir finalizar um trabalho como esse: nessa condição de navegar, de passar entre os campos e conseguir fazer com que esses campos conversem. Acredito que o grande desafio foi este: trazer todos esses elementos, de campos diferentes, para uma única pesquisa.”

Tendo por base a teoria semiótica, no estudo em questão, a pesquisadora chegou ao conceito de infosigno*, que parte da premissa de que a informação é um signo e que, anterior ao formato que conseguimos visualizar, compreender e entender como informação, existe um sentindo se formando. De acordo com Graziela, o que se buscou destacar foi a ideia de “sentidos subjacentes”, nem sempre perceptíveis de forma racional.

“E foi esse o sentido que tentamos apreender no gesto e, esse gesto, analisamos a partir da dança. Dessa forma, conseguimos aliar todos esses três pontos: dança, gesto, informação. A análise, então, partiu desse caminho da informação: que informação é essa que o gesto pode nos trazer? Como essa informação é tratada pelo bailarino, junto a muitas outras informações?”

Para apreender e analisar essas relações, a metodologia foi estruturada da seguinte forma. A partir de uma chamada divulgada em várias redes (especializadas em dança e abertas, p. ex. Facebook), a pesquisadora convidou bailarinos, de diversas nacionalidades, a escolher um espaço público na cidade onde residiam e, desse espaço, sugerir três verbos, que tivessem relação com o lugar escolhido e que também fizessem sentido para eles.

Escolhidos os verbos, foi solicitado aos bailarinos dançar os tais verbos nesses espaços, a partir da técnica de improvisação em dança. Toda a performance deveria ser registrada em vídeo e, posteriormente, enviada à pesquisadora. Na última etapa, pediu-se que eles fizessem uma associação entre os verbos escolhidos e os gestos dançados.

“Isso foi feito não numa relação de “isso é aquilo”, mas tentando compreender os processos de significação e foi muito interessante perceber e analisar essas experiências. Por exemplo, duas bailarinas de Campinas, SP dançaram no mesmo espaço, que era um teatro de arena dentro da Unicamp. E o sentido que uma deu para o lugar, a partir dos gestos, dos verbos, do movimento foi completamente diferente daquele dado pela outra. Claro, são experiências individuais e diferentes, mas foi muito interessante ter isso como análise”, explica Graziela Andrade.

Daí o termo corpografia, que diz respeito a essa relação que o corpo estabelece com o espaço físico, entendendo que ela acontece tanto para o sujeito-corpo, quanto para o espaço. Segundo a pesquisadora, apesar de a análise ter sido focada no espaço público, tais relações podem ser mais facilmente percebidas no espaço privado, por exemplo, em nossa relação com o lar: se o percebemos como lugar de conforto, ou de tensão, isso irá depender de uma série de fatores. E, conforme destaca Graziela, ainda que estejamos em um lugar pela primeira vez, esse lugar tem algo a nos dizer, tendo em vista os vários outros corpos que por ali passaram e, de certa forma, construíram a “sensação” daquele lugar.

Capa Corpographies en Danse

Capa Corpographies en Danse.

Além da tese e de artigos, a pesquisa também teve como resultado a publicação do livro Corpographies en danse: les traces sensibles du corps dans l’espace, pela editora francesa L’Harmattan. Está prevista também a publicação de um livro sobre a pesquisa, em português, com apoio da Fapemig.

Como desenvolvimentos futuros, Graziela destaca o conceito de dispositivo, que foi tratado na pesquisa a partir das leituras de Giorgio Agamben e Michel Foucault, e seu desdobramento no conceito de corpo-dispositivo, diante da relação intensa entre corpo e tecnologia.

“A ideia é pensar o corpo como dispositivo e como essa aproximação com as tecnologias tem sido tratada na dança e como isso pode cooperar, colaborar, auxiliar e também problematizar a educação na dança. Tanto no sentido das ferramentas, que podem ser auxiliares, quanto em relação à própria ideia de que a tecnologia tem alterado radicalmente os nossos corpos e que temos lidado com corpos diferentes em sala de aula”, finaliza.

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Clique aqui e acesse alguns dos vídeos enviados para a pesquisa Corpografias em dança.

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*Conceito de infosigno

“A informação que aqui chamamos de sensível é essa que percebemos e que podemos traduzir no imbróglio dos sentidos, nem sempre completa em sua expressão. A essa informação chamaremos de infosigno, para que assim seja possível diferenciá-la da informação que é essa que, tradicionalmente, compreendemos, acessamos, assimilamos, trocamos, distribuímos, organizamos, recuperamos, sempre por vias da razão e da linguagem. A proposta de diferenciar a informação enquanto infosigno vem atender os nossos objetivos metodológicos, que levam em conta os aspectos sensíveis que acreditamos existir em toda informação. (…) No entanto, informação e infosigno são uma só coisa. O infosigno não é uma categoria da informação, mas tão somente uma interioridade que lhe pertence. (…) O infosigno, que integra o topo de nossa imagem, é da ordem do invisível, sensível e avesso, apontanto para a potência. Dirá assim de uma energia reverberante, de uma qualidade profunda e submersa que nutre a carne da qual ele faz parte, aerando-a em possibilidades. O infosigno é a anterioridade da coisa, é algo prestes à, é a crença no imediatismo da fissura significativa, que lhe dirá respeito por um instante. E, por crer, ele atua, é um agente de sentido que mobiliza as fibras da carne à qual pertence. O infosigno é, assim, a forma mais elementar da informação, aquela que integra, atravessa e conserva viva e vigorosa a carne.” (ANDRADE, 2013)