Luz no controle de pragas

Por Roberta Nunes

A citricultura no Brasil é responsável por 60% da produção mundial de suco de laranja, segundo o Ministério da Agricultura. Porém, um dos principais fatores atuais que restringem os lucros e a expansão do setor é a presença de pragas e doenças.

Entre as principais, estão as bacterianas HLB e o cancro cítrico, que não têm cura, comprometem a produção e o desenvolvimento da fruta, levando à morte da árvore. Diante desse cenário, a pesquisadora Débora Marcondes Bastos Pereira Milori, da Embrapa Instrumentação, vem desenvolvendo pesquisas para a descoberta de métodos mais eficazes, que utilizam a luz, para diagnosticar a infecção em laranjas doces.

A pesquisadora tem se dedicado a pesquisar o campo da ótica e fotônica aplicada à agricultura e ao meio ambiente. Na entrevista abaixo, ela fala um pouco mais sobre a pesquisa, que tem como foco o desenvolvimento de equipamentos para ajudar o homem do campo a melhorar a produtividade, o controle de doenças e a racionalizar a utilização de insumos.

Foto de Flavio Ubiali
Foto de Flavio Ubiali

Ainda hoje, um dos métodos mais utilizados para diagnosticar as plantas contaminadas é a inspeção visual, que consegue perceber os sinais da doença somente após a apresentação dos sintomas. A partir da pesquisa, vocês notaram que é possível diagnosticar com mais antecedência. Como esta técnica contribui para o setor?

Débora Milori: A planta pode ficar assintomática por um período de aproximadamente dois anos. Neste tempo, a bactéria se multiplica dentro da planta e insetos que venham a se alimentar de sua seiva serão contaminados e contaminarão mais árvores. Assim, quanto mais tempo a planta fica no campo, mais ela contribui para espalhar a doença. Erradicar a planta doente o quanto antes é a melhor maneira de proteger o pomar. É por isso que consideramos que uma tecnologia que melhore o acerto das inspeções e permita o diagnóstico ainda em fase assintomática pode reduzir o número de plantas infectadas e, a longo prazo, manter a doença sob controle.

Como as pesquisas podem facilitar a vida dos profissionais da agronomia e como esses benefícios podem ser percebidos pela sociedade?

DM: Acho que os profissionais da agronomia almejam ferramentas que lhes permitam realizar diagnósticos com maior precisão e rapidez. Portanto, temos sempre a colaboração e apoio destes profissionais. Acho que quanto mais informações sobre as condições do solo e condições das culturas mais rápido é possível acertar o manejo. Além disso, eu acredito que os sensores de campo podem impactar muito tanto economicamente quanto ambientalmente. Os produtores devem fazer uma aplicação mais racional de insumos, o que deve gerar um aumento de produtividade com redução de custos. Adicionalmente, a aplicação em somente dosagens necessárias deve evitar a contaminação ambiental.

Qual a relação do monitoramento e controle das doenças e a utilização de agrotóxicos para o controle de praga?

DM: Acredito que se conseguirmos melhorar a inspeção e reduzirmos o número de plantas doentes no campo, a utilização de agroquímicos para o controle do inseto vetor deva diminuir. Assim, a adoção da tecnologia deve impactar tanto economicamente, o produtor gastará menos com pulverizações, quanto ambientalmente, um volume menor de agroquímicos indo para o solo.

A UNESCO estabeleceu 2015 como o ano internacional da luz. A iniciativa enfatiza a importância da luz e das tecnologias ópticas na vida dos cidadãos. Como você tem utilizado a pesquisa que relaciona luz à agricultura.

DM: As técnicas que utilizam luz são interessantes, pois são relativamente simples e possuem um grande potencial de produzir equipamentos portáteis. Em função destas características, estas técnicas têm ganhado força tanto na pesquisa como em várias áreas da nossa vida cotidiana. Enfim, conforme a ciência avança nos desenvolvimentos de dispositivos ópticos, novas aplicações surgem. Para a agricultura, o uso ainda é bem insipiente. Existem vários grupos no mundo pesquisando a utilização de luz para produzir sensores para agricultura de precisão e monitoramento ambiental, entretanto, são poucas as empresas com produtos disponíveis para os produtores aplicarem em suas culturas. No Brasil, este problema ainda é mais sério, pois o número de pesquisadores trabalhando especificamente com sistemas ópticos aplicados a agricultura é pequeno e o número de empresas neste tema é próximo de zero. Eu acredito muito que no momento que efetivamente o setor produtivo conseguir usufruir das técnicas ópticas para fazer mapeamento de solos, de infestação de doenças, de produtividade, deve ocorrer um salto de produtividade da agricultura brasileira.

Em que patamar o Brasil está em pesquisas nesta área? Quais países são referência no tema?

DM: Nesta área de aplicações de dispositivos ópticos e luz em agricultura podemos destacar os EUA, França e Alemanha como países onde se observa uma intensa atividade de pesquisa. No Brasil, ainda existem poucos grupos de pesquisa trabalhando no desenvolvimento de instrumentação óptica para aplicações na agricultura e meio ambiente, mas os grupos que estão trabalhando têm resultados que estão sendo publicados em revistas internacionais, mostrando que estamos realmente trabalhando na fronteira do conhecimento.

Há estimativa do quanto a identificação das pragas com antecedência pode auxiliar a exportação das laranjas no Brasil?

DM: Segundo um levantamento realizado pelo Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), nos últimos três anos, a incidência do greening, uma das principais pragas responsáveis pelo aumento da taxa de mortalidade das árvores de citros, aumentou quase 160% se comparado com 2012. Segundo o estudo, 17% das laranjeiras de São Paulo e Minas Gerais têm a doença, o que significa que 35 milhões de plantas estão contaminadas, considerando as plantas em fase sintomática. Este número de plantas doentes pode ser ainda três vezes maior se levarmos em conta as plantas ainda em fase assintomática. De qualquer forma, aproximadamente 50% da produção foi perdida. Se conseguirmos reduzir estas perdas pode significar uma mudança grande para as exportações deste setor tão importante da nossa economia.

Débora Milori é graduada em Física pela USP, fez mestrado e doutorado em Física Básica pelo Instituto de Física de São Carlos – USP, pós-doutorado na Embrapa Instrumentação, onde atualmente é pesquisadora sênior. Além dela, participam do estudo os pesquisadores da Embrapa, Ladislau Martin-Neto, Aida Bebeachibuli, Silvio Crestana e Paulino Ribeiro Villas-Boas, e os professores da Universidade de São Paulo (USP), Marcelo Becker e Daniel Magalhães.
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Verônica Soares

Jornalista, Mestre em História, Política e Bens Culturais, com Doutorado em Comunicação Social sobre textualidades midiáticas da divulgação científica em ambientes digitais.

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