Biomonitoramento do cerrado em MG

Aves soltas na natureza podem oferecer mais do que beleza para os olhos e os ouvidos: os animais são também importantes biomonitores que contribuem para a identificação de alterações nos ambientes em que vivem. Um estudo desenvolvido na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com financiamento da Fapemig, teve como objetivo determinar quais as espécies de aves têm potencial para serem usadas como ferramentas de biomonitoramento em áreas florestais com diferentes graus de perturbação ambiental, localizadas no Cerrado. Foram observadas quatro áreas, sendo duas no município de Uberlândia, uma em Araguari e uma em Perdizes, todas no estado de Minas Gerais.

Antilophia galeata - Soldadinho macho (Divulgação)
Antilophia galeata – (Soldadinho) – Divulgação

Para a coleta de dados, foram realizadas capturas das aves para medição das asas, tarso e massa corporal. Os dados permitiram análises de assimetria flutuante e condição corporal. Também foram colhidas amostras de sangue para análise de micronúcleo, hemoparasitos e sexagem. O grupo de pesquisadores também gravou o canto dos pássaros para análise dos parâmetros acústicos e medição dos níveis de ruído. A coordenadora da pesquisa, professora Celine de Melo, explica como esses dados são utilizados na avaliação do ambiente:

As aves podem ter um lado maior do que o outro quando o sub-bosque das matas está mais denso. Nestes ambientes de pior qualidade, elas acumulam menos reservas energéticas para atividades como reprodução e alimentação. Em ambientes mais poluídos, é maior a taxa de mutação, que pode ser estimada pela freqüência de micronúcleos (pequenos núcleos formados dentro de células sanguíneas), que estão associados ao desenvolvimento do câncer. As aves também modificam o padrão de seus cantos com o nível de perturbação e ruído do ambiente. Assim, é possível observar como os animais respondem a influências externas ao ambiente, como desmatamentos, poluição aérea e poluição sonora.

Algumas das principais conclusões da pesquisa foram:

  • Em áreas mais próximas às cidades, por exemplo, as aves apresentaram maior frequência de micronúcleos e, devido aos maiores níveis de ruído, maior frequência dominante do canto.
  • Quanto mais perturbado o ambiente, mais o animal tende a ser assimétrico.
  • A condição corporal reflete a disponibilidade de recursos alimentares, então, se a perturbação do ambiente resultar em diminuição da oferta de alimento, o animal pode perder biomassa e ficar mais debilitado.
  • A frequência de micronúcleos reflete a presença de poluição ambiental e quando este valor é muito alto, pode implicar em problemas de saúde para o animal.
  • Alterações nos padrões vocais, resultantes da estrutura do ambiente e da poluição sonora, podem prejudicar a comunicação entre indivíduos da mesma espécie, com consequências para a alimentação, reprodução e sobrevivência.

“Sabendo que as aves podem responder de formas tão diversas a alterações igualmente diversas do meio, entendemos sua importância em nosso cotidiano”, destaca a professora.

Pesquisa sem sacrifício

A escolha das aves para o estudo não é aleatória, já que são organismos relativamente abundantes e com capacidade de responder às perturbações ambientais. Elas já são utilizadas como biomonitores e podem ser acumuladoras de metais pesados em suas penas, vísceras e ovos. No entanto, Celine de Melo explica que a abordagem proposta em sua pesquisa teve um diferencial: “Muitas técnicas utilizadas com as aves são invasivas ou há necessidade de sacrificar o animal. Nossos estudos recentes visaram testar técnicas menos invasivas, que não implicassem na morte dos animais amostrados”.

Myiothypis flaveola (canário do mato)
Myiothypis flaveola (canário do mato) – Divulgação

As aves utilizadas na pesquisa foram, principalmente, pássaros dependentes ou semi-dependentes de ambientes florestais do Cerrado que, por serem animais de menor porte, exibem respostas mais acentuadas. “Utilizamos várias espécies, mas focamos nossas análises naquelas que capturamos com maior frequência, como Antilophia galeata, conhecida como soldadinho, Basileuterus culicivorus, o pula-pula de barriga branca, e Myiothlypis flaveola, canário do mato. Estes animais de ambientes florestais geralmente são mais exigentes e mais sensíveis às perturbações ambientais que desestabilizam seus habitat. Além disso, é um grupo que tem mais dificuldade de se deslocar para ambientes adjacentes; ficam “confinados” nas matas e exibem respostas às perturbações específicas destes ambientes”, explica Celine.

A professora acredita que um dos principais ganhos dessa metodologia não-invasiva é a manutenção da fauna local e a possibilidade de ajustar ações para que o ambiente se torne adequado. Segundo ela, algumas das técnicas de biomonitoramento  utilizadas podem ser aplicadas a qualquer ambiente, inclusive o urbano, industrial, rural, entre outros. No entanto, só devem ser replicadas por profissionais capacitados, por demandarem captura, medição e coleta de sangue dos animais.

“Com as devidas autorizações dos órgãos ambientais e treinamento rápido sobre a coleta e análise dos dados, a metodologia pode ser facilmente utilizada em instituições públicas ou privadas que desejam realizar o monitoramento ambiental por determinado período e, inclusive, avaliar a eficácia de medidas mitigadoras que visam minimizar um determinado impacto ambiental” – Celine de Melo.

Eritrócitos (células sanguíneas das aves), com destaque em célula central com micronúcleo (ponto roxo, ao lado do núcleo principal). - Divulgação
Eritrócitos (células sanguíneas das aves), com destaque em célula central com micronúcleo (ponto roxo, ao lado do núcleo principal) – Divulgação

As próximas oportunidades de investigação estão direcionadas para ampliação das amostras e inclusão de animais de áreas abertas. “No laboratório, estamos incluindo um experimento com aves em gaiolas, adquiridas via comércio legal, com o objetivo de testar a eficácia da técnica de frequência de micronúcleos em uma espécie que possa ser adquirida em larga escala. Além disso, simultaneamente, estamos iniciando um experimento com plantas e comparando a resposta entre plantas e aves”, conclui a professora.

Entenda o biomonitoramento

O biomonitoramento pode utilizar outros organismos vivos para indicar as condições do local, ou para evidenciar como estes organismos estão respondendo e sendo afetados por perturbações ao seu ambiente natural. Sua importância está em avaliar as consequências das alterações ambientais para as diversas formas de vida, que podem estar relacionadas à saúde dos organismos avaliados ou de seus consumidores.

Procedimento de preparação de lâminas para análise de micronúcleo - Divulgação
Procedimento de preparação de lâminas para análise de micronúcleo – Divulgação

Atualmente, no Brasil, o modelo mais utilizado é o monitoramento da qualidade da água, através do uso em pesquisa de invertebrados aquáticos, como crustáceos, e insetos, mas também são utilizadas plantas e alguns vertebrados, como peixes e anfíbios. Técnicas de biomonitoramento são utilizadas principalmente por empresas e instituições públicas. Uma das principais vantagens é que a permanência dos organismos no ambiente permite um monitoramento a longo prazo, a fim de detectar melhorias ou pioras na qualidade do local avaliado.

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Verônica Soares

Jornalista e curiosa! Gosto de ler e estudar sobre comunicação, história e ciências.

2 comentários em “Biomonitoramento do cerrado em MG

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