Imagem meramente ilustrativa © Hero Images/Corbis

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A intensa presença das tecnologias na vida contemporânea, mediando as mais diversas ações – desde pagar uma conta, até dizer “eu te amo” -, pode ser discutida a partir de diversas perspectivas, dentre elas destacamos aquelas que voltam suas preocupações e questionamentos ao público infantil e em como, cada vez mais, as crianças estão expostas a essa realidade.

Por um lado, é impossível ignorar a presença dos dispositivos, pois quase tudo o que fazemos hoje em dia é mediado por essas tecnologias. Mas, como dosar?

Pesquisas vêm nos alertando sobre os possíveis danos causados pela intensa exposição das crianças a esses dispositivos, não só pelo tipo de conteúdo que transita ali, mas também por aspectos fisiológicos como, por exemplo, a questão da “luz azul” e os impactos disso na hora do sono.

Estudo conduzido pela Universidade de Harvard mostrou que a luz azul – faixa de onda comum em smartphones, tablets e luzes LED – é capaz de interferir no relógio biológico. A pesquisa apontou a correlação entre o crescente número de estadunidenses que fazem uso de dispositivos como smartphones e e-readers antes de dormir e a baixa qualidade de sono por eles apresentada. Uma das hipóteses levantadas é a de que a exposição à luz azul à noite pode desacelerar ou impedir a produção de melatonina, hormônio que regula o sono.

Diante dessa realidade, o Conselho de Comunicação e Mídia da Academia Americana de Pediatria (AAP) publicou artigo com diversas recomendações para auxiliar pediatras, pais e escolas nos direcionamentos acerca do tema.

Como exemplo, a seção que trata das orientações a serem passadas pelos pediatras aos pais apresenta os seguintes pontos:

  • Limite a quantidade de tempo total de entretenimento via tela a menos de 1 a 2 horas por dia.
  • Desencoraje exposição à tela em crianças menores de 2 anos de idade.
  • Mantenha o aparelho de TV e dispositivos eletrônicos conectados à Internet fora do quarto da criança.
  • Monitore qual mídia seus filhos estão usando, incluindo os sites que eles visitam e sites de mídia social que eles possam utilizar.
  • Assista TV, filmes e vídeos junto com as crianças e os adolescentes, e use isso como uma forma de discutir valores importantes da família.
  • Procure criar em casa um plano de utilização para todas as mídias. Por exemplo, estabeleça um “toque de recolher” para dispositivos de mídia, incluindo telefones celulares, no horário das refeições e antes de dormir. Defina regras razoáveis, mas firmes, sobre telefones celulares, mensagens de texto, Internet e uso da mídia social.

Trazendo a questão para a realidade brasileira e, também, pensando em formas viáveis de se exercer esse controle, tendo em vista, dentre outros fatores, que os pais, cada vez menos, conseguem dar o exemplo aos seus filhos de que é preciso ficar longe das telas, conversamos com Amarilis Iscold, pediatra e especialista em psicopedagogia, sobre esses desafios e a possibilidade de se promover um acesso “saudável” às tecnologias.

Como dosar o “tempo de tela” das crianças? É possível estabelecer esse controle diante do fato de que, tanto nos ambientes escolares, como nos momentos de lazer, esses dispositivos digitais e eletrônicos são os principais mediadores das atividades?

Amarilis Iscold: Ao refletir sobre esse tema, tenho chegado à conclusão de que essa resposta acaba tendo que ser individualizada. As famílias têm valores diferentes e as crianças são diferentes e o muito de um, pode não ser o mesmo muito do outro. Além disso, as pesquisas são pouco conclusivas porque “tempo de tela” não é a mesma coisa que “tempo de TV” ou “tempo no videogame” ou “tempo pesquisando no computador”, entre outros. As telas se multiplicaram, o uso delas ampliou-se bastante e não há muitos estudos, de fato, confiáveis, que examinem a “longo prazo” os efeitos. Até porque, qual “longo prazo”? As tecnologias se alternam com muita rapidez e, se alguém for pesquisar o efeito de determinada tecnologia a longo prazo, pode ser que, até lá, a tecnologia já tenha se tornado obsoleta.

Imagem meramente ilustrativa © Hiya Images/Corbis

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Mas é possível apontar alguns danos, ou riscos, dessa exposição excessiva?

Amarilis Iscold: Sim, por exemplo, no que se refere ao conteúdo: mensagens subliminares (ou mesmo explícitas) de estímulo ao consumo, à sexualidade e à violência; conceitos de gênero; determinados valores e princípios. Há ainda as questões do sedentarismo, da falta de criatividade em telas “passivas”, do isolamento que acontece quando todos os familiares estão em telas individualizadas. São muitas questões, mas, como as coisas vêm mudando rápido, os resultados, às vezes, são pouco valorizados (pouca amostra, pouca visibilidade).

Como essas questões têm aparecido no consultório? Isso tem sido visto como um problema pelos pais?

Amarilis Iscold: Os pais, em geral, não veem como problema. Muitos se orgulham em dizer que o bebê de poucos meses já sabe usar iPad/iPhone, ou outro dispositivo. Tento sempre orientar um mínimo de controle, como: Não deixar televisão ligada o tempo inteiro (isso ainda é muito comum em várias casas); não usar a TV com bebês menores de 1 ano (menor que dois anos seria a recomendação da AAP, mas chega a ser quase irreal para a maioria das famílias); não ter TV/Computador no quarto. Mas, em geral, salvo algumas famílias, é costume, na maioria das casas, a TV ligada praticamente o tempo todo (inclusive vemos isso nas casas que frequentamos). Sempre tem algo “passando”. Às vezes, as crianças estão distraídas mas, de repente, passam, veem algo, param e, assim, acabam sentando e assistindo alguma coisa.

Sendo assim, procuro dar sugestões que não são radicais e que acredito serem possíveis de se manter (elas tem como base as da AAP):

  • Não ter tela no quarto;
  • A tela assistida deve estar em ambiente “público” na casa, então, “naturalmente”, dá para a família avaliar o que a criança está assistindo;
  • Não ter acesso a rede social antes que se tenha idade para entender o uso e os pais devem ter domínio da ferramenta que a criança está usando para orientar e acompanhar o quão público (exposição/controle de privacidade) é esse acesso (idealmente, postergar o máximo possível!);
  • Diferenciar tela ativa e passiva: assistir apenas x produzir (conteúdos educacionais, projetos, construções, produção de texto, blog, filme, etc.). A tela pode ser uma ferramenta criativa e, nesse sentido, torna-se bastante interessante;
  • Assistir junto: idealmente, não deixar o filho assistir a algo que você não tenha assistido antes, ou com ele – ao menos parcialmente. Alguns estudos mostram que a tela pode ser fonte de diálogo.
  • Levar em consideração a faixa etária estabelecida. Sabemos que isso, muitas vezes, não é seguido “à risca” e, caso os pais optem por levar (ou permitir que o filho assista a algo que não é para sua idade), que estejam preparados para conversar/discutir/pensar as coisas ali apresentadas (e que, talvez, não sejam tão apropriadas para a idade). Por vezes, discutir, analisar, criticar, observar, repensar o que é assistido, junto com a criança, ajuda a formar um senso crítico. Discordar em parte (ou no todo) de uma obra não implica, necessariamente, em censura (ainda mais para crianças mais velhas e adolescentes), mas pode ser uma oportunidade para diálogo.

Por fim, acredito que o mais importante seja refletir sobre o nosso uso das telas. Limitar o acesso das crianças à tela é também repensar o uso que fazemos desses dispositivos e o papel/importância que damos a eles em nossas vidas.