Estudo sobre história natural de formigas contribui para o controle de pragas

Formigas são animais fascinantes!

Lembro de quando era criança e adorava observar, no quintal da casa da minha avó, aquelas filas intermináveis de formigas carregando folhas, grãos de terra, pedacinhos de comida e tudo mais que elas encontravam pelo chão. Nas fábulas, aprendemos que as formigas são trabalhadoras, precavidas, organizadas. Mas esses animais são também pragas invasoras, muitas vezes de difícil controle.

A espécie conhecida como lava-pés (Solenopsis saevissima), por exemplo, é considerada um inseto endêmico do continente americano. Ela é encontrada, principalmente, na Floresta Amazônica, mas sua presença pode ser também identificada em grandes centros, devido à facilidade que possui em explorar recursos e encontrar locais propícios para construir seus ninhos.

Na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), um grupo de pesquisa liderado pelo professor de Biologia Fábio Prezoto, dedica-se a conhecer o universo dessas formigas. Um dos objetivo dos estudos é monitorar o comportamento desses animais em busca de melhorar a eficiência no combate à praga e reduzir os custos com inseticidas e a contaminação do meio-ambiente.

As pesquisas sobre o tema foram iniciadas em 2011, como parte de uma dissertação de mestrado que visava ampliar o conhecimento sobre a história natural. “Mais especificamente, buscávamos entender o comportamento e os hábitos ligados à construção de novos ninhos dessa espécie em ambiente urbano”, explica Prezoto.

Formigueiro no campus da UFJF. Divulgação.
Formigueiro no campus da UFJF. Divulgação.

O que é a história natural da espécie?

Segundo o professor, o estudo sobre a história natural diz respeito a investigações sobre os aspectos biológicos, ecológicos e comportamentais. Esse tipo de pesquisa amplia o conhecimento acerca de informações básicas sobre a espécie, importantes para o aprofundamento de pesquisas aplicadas.

“No caso das formigas lava-pés, o estudo de sua história natural revelou informações sobre os locais preferidos para construção das colônias, bem como a abundância das colônias ao longo das diferentes estações do ano. Esses resultados são importantes para o estabelecimento de parâmetros que irão nortear uma pesquisa visando ao controle da população em uma determinada área”.

Ao longo do desenvolvimento da pesquisa inicial, surgiram curiosidades acerca do comportamento biológico e ecológico dessa formiga, o que resultou no projeto “Como reduzir acidentes com formigas Lava-pés (Solenopsis saevissima) no Campus da UFJF“.

Conheça o projeto

O grupo monitorou, durante cerca de um ano, centenas de colônias encontradas no próprio campus da UFJF. Com base nesse levantamento, foi observada a influência das estações climáticas sobre o surgimento de novos formigueiros e suas dimensões. Para o monitoramento, foram utilizados aparelhos de temperatura e de GPS.

O estudo considerou quatro tipos de ambientes: o natural, perto de árvores e troncos caídos; a grama; a interseção entre vegetação e ambientes artificiais, como a borda de uma calçada em contato direto com a grama; e ambientes artificiais, como calçadas e passeios. A influência do clima e do habitat foi observada inclusive no desenvolvimento da complexa estrutura social dessas que são chamadas também de formigas-de-fogo (Solenopsis saevissima).

A pesquisa indica que, para um combate mais eficiente e menos agressivo ao meio-ambiente, o inseticida deve ser aplicado durante o período de seca (de abril a setembro). Seu resultado foi publicado pela revista Florida Entomologist, em junho de 2014.

Ninho de formigas lava-pés. Divulgação.
Ninho de formigas lava-pés. Divulgação.

Por que lava-pés?

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Formigas lava-pés, pouco estudadas no Brasil. Divulgação.

A resposta que explica o nome dessa espécie de formiga é da mestranda Elisa Fernandes, que faz parte do projeto: “Quando se entra em contato com o ninho, as formigas sobem rapidamente e em grande quantidade pela nossa pele, além da picada ser muito dolorida”.

Já a doutoranda Mariana de Castro fala sobre a importância do monitoramento das formigas na prevenção de acidentes: “Os acidentes podem se tornar potencialmente graves em idosos, crianças e até mesmo adultos que sejam alérgicos”, alerta.

Mariana desenvolve em sua tese uma pesquisa sobre o monitoramento de formigas em ambiente hospitalar. O trabalho é realizado no Hospital João Penido, em Juiz de Fora. “As formigas tem potencial e capacidade de transportar microorganismos patogênicos, ou seja, um fungo ou uma bactéria. Elas podem, por exemplo, sair de um ambiente contaminado e transmitir esses microorganismos em outro espaço”, explica.

Avaliando o potencial da pesquisa para o benefício da sociedade, o coordenador Fábio Prezoto destaca que a lava-pés faz parte do dia a dia de quem mora em centros urbanos, logo, informações que visem subsidiar estratégias futuras de controle são muito bem-vindas. “É muito fácil encontrar pessoas que já sofreram com as suas ‘mordidas’. Nos nossos estudos em campo, muitas pessoas nos procuram para saber mais sobre a espécie e principalmente como evitá-las. Creio que os resultados de nossa pesquisa poderão ser aplicados em diversos setores”, conclui.

O grupo de pesquisadores realizando monitoramento em campo. Divulgação.
O grupo de pesquisadores realizando monitoramento em campo. Divulgação.
Com informações da Assessoria de Imprensa da UFJF.
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Verônica Soares

Jornalista, Mestre em História, Política e Bens Culturais, com Doutorado em Comunicação Social sobre textualidades midiáticas da divulgação científica em ambientes digitais.

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