Pandemia de obesidade incentiva pesquisadores a desenvolverem medicamentos

© Callista Images/Corbis
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Vem chegando o verão… e as academias lotam de pessoas em busca do milagre do corpo magro e sarado para as praias e piscinas.

Entretanto, a preocupação com a saúde do corpo deve ir além dos aspectos estéticos, já que estar acima do peso é, na maioria das vezes, sinônimo de um organismo desregulado em suas funções.

Nos últimos anos, as doenças metabólicas tornaram-se um dos maiores problemas de saúde pública mundial, atingindo aproximadamente 1/3 da população dos Estados Unidos e mais de 10% da população brasileira. Para os próximos 20 anos, a previsão é alarmante: mais de 30% da população brasileira pode se tornar obesa. Atualmente, mais de 50% da nossa população já possui sobrepeso e vários pesquisadores têm tentado desenvolver medicamentos para tentar resolver este problema.

Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o professor Sérgio Henrique Sousa Santos realiza estudos sobre um novo tratamento para a chamada síndrome metabólica. Você pode conferir uma entrevista do pesquisador para o Ondas da Ciência logo abaixo.

Na conversa com Pedro Ivo Martins, o professor falou sobre os estudos do sistema renina-angiotensina (SRA), considerado um dos mais importantes sistemas reguladores da homeostase cardiovascular, e consequências positivas de pesquisas para o tratamento de doenças.

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Mas, afinal, por que devemos nos preocupar com o excesso de gordura?

Doutor e pós-doutor em fisiologia e farmacologia com foco no estudo do metabolismo e da obesidade, Sérgio Henrique Santos alerta para o perigo dos pacientes identificados com a síndrome metabólica, condição em que o indivíduo apresenta, simultaneamente, três das seguintes características: diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão e/ou dislipidemia (que são os altos índices de gordura no sangue).

Uma das motivações da pesquisa intitulada “Papel da angiotensina (1-7) no metabolismo glicêmico e lipídico: um novo tratamento para o diabetes e a síndrome metabólica” é justamente a necessidade de desenvolvimento de novos medicamentos e substâncias capazes de controlar a obesidade, a diabetes e a síndrome metabólica.

“No mundo inteiro, há uma pandemia de obesidade e síndrome metabólica. O maior problema da síndrome metabólica é que todas as doenças que existem nessa síndrome se retroalimentam, ou seja, uma vai piorando a outra”, explica o pesquisador. Nesse ciclo vicioso, a síndrome é também responsável por um enorme gasto anual do sistema de saúde, já que uma série de doenças relacionadas são as principais causas de morte no mundo, como as doenças cardiovasculares.

© Nick White/Image Source/Corbis
© Nick White/Image Source/Corbis

O professor esclarece que, no entendimento científico, ninguém mais considera o tecido adiposo como somente um tecido de “estoque de energia”, como diz o senso comum. Ele é considerado um tecido endócrino, responsável por produzir hormônios que regulam todo o funcionamento do organismo. Se a gordura está em excesso, a produção de hormônios fica desequilibrada: “Quando o tecido adiposo está em excesso, ele muda todo o perfil e gera um estado de inflamação, que acontece na própria gordura e em todo o organismo, ou seja, o obeso tem um estado inflamado sistêmico”.

A angiotensina (1-7) é parte do sistema renina-angiotensina (SRA) de nosso próprio organismo, um peptídeo que diminui a pressão arterial e o estado pré-inflamatório, além de outros efeitos positivos.

Sousa Santos explica que a pesquisa já vem sendo realizada há alguns anos, com testes em animais que apresentaram resultados muito satisfatórios: “O primeiro passo foi feito com camundongos e ratos obesos e diabéticos, que foram induzidos a este estado através de uma dieta rica em gordura. Tratamos esses animais com a angiotensina (1-7), que reverteu a diabetes, a obesidade e a síndrome metabólica”. Em resumo, a pesquisa pode vir a inserir no mercado uma nova ferramenta farmacológica para tratar essas doenças em humanos. “É uma iniciativa especialmente inovadora porque, na época em que começou, não havia qualquer registro ou evidência da ação da angiotensina (1-7) para o tratamento da síndrome metabólica”, destaca o professor.

O estado atual do projeto é promissor. Já foi submetido protocolo para a primeira fase de testes para o uso da angiotensina (1-7) em via oral e existe uma previsão otimista de que, em cerca de 8 anos, a população possa se beneficiar diretamente dessa descoberta. Entretanto, o pesquisador alerta que o processo total até a chegada do medicamento ao mercado depende de uma série de estudos mais aprofundados em diversas fases, ainda em andamento.

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Verônica Soares

Jornalista, Mestre em História, Política e Bens Culturais, com Doutorado em Comunicação Social sobre textualidades midiáticas da divulgação científica em ambientes digitais.

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